Aprenda a criar realidades com palavras

Cuidado. Escrever um livro é perigoso.

Por Steven Pressfield em 29/01/2016 Tópicos: escrever, inspiração
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Escrever um livro vai testar sua sanidade.

Considere no que você está se metendo. Um período de dois a três anos, sem validação externa ou incentivo, sem salário, sem rotina, exceto pela que você impõe a si mesmo. Apoio de amigos e familiares? Talvez. Recompensas futuras? Nenhuma certeza sobre isso. E nós nem começamos a falar sobre o trabalho em si.

Será que seu namorado/namorada vai entender? O melhor conselho para o(a) companheiro(a) de um escritor(a) (ou a qualquer pessoa com aspirações artísticas) é se servir uma bebida forte, sentar e considerar se, em seu coração, ele(a) está pronto para embarcar nessa nave e, possivelmente, explodir com ela.

Acredite quando eu digo que ninguém consegue escrever um livro sem imergir profundamente na história. Você precisa fazer isso, ou é impossível continuar.

Pense na loucura dessa aventura. Você, escritor, está tendo conversas, dia e noite, com personagens inventados. Essas pessoas com quem você passa incontáveis horas, e que têm uma importância imensa na sua vida, não existem concretamente. Você é como Walter Piâdgeon, no filme “Forbidden Planet”, lutando contra monstros na sua mente. Você entrou em um reino cuja profundidade e dimensões são conhecidas apenas por você. Você pode tentar explicar esse universo de ficção para seu cônjuge, mas aquele olhar vazio e apavorado que você vai receber é mais real do que sua história. […]

Uma das coisas mais estranhas do mundo é se olhar no espelho (realmente se olhar) quando você está escrevendo um livro. Você não se reconhece. Você está lidando com a musa agora. Você está no território dela. É ela quem manda em você.

É excitante. É o melhor tipo de excitação. Mas também pode ser extremamente assustador. Você cedeu sua autonomia psíquica para forças de uma dimensão diferente da realidade. […]

Por que muitos escritores se tornam bêbados ou viciados? Por que muitos deles se suicidam? Porque estamos brincando com dinamite quando digitamos “CAPÍTULO UM”.

 

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

11 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Mateus Oliveira 08/02/2016

    Parabéns pelo texto. Atualmente estou no capítulo 26 e, por enquanto, a dinamite ainda não explodiu.
    Brincadeiras à parte, realmente há momentos em que simplesmente dá vontade de jogar tudo para o alto e fazer qualquer outra coisa. Já foram oito meses nesse processo solitário e introspectivo de escrita e há horas em que me pergunto o porquê de estar a tanto tempo nesta empreitada de autoflagelação.
    Enfim, eu apenas sinto que a recompensa que terei ao terminar o livro que estou escrevendo será diferente de tudo o que eu já tenha passado.
    Mais um excelente artigo, Diego. Muito obrigado por compartilhar, mais uma vez, essas palavras de sabedoria conosco. São elas o combustível para prosseguirmos com nosso sonho.

  2. Cris Dellano 16/02/2016

    Boa noite! Há anos venho só pensando em escrever a minha história. Então, agora resolvi contar. Não sabia por onde começar, estava sem direção:-vendo os ingredientes para construir uma história, me senti melhor, e começarei hoje, às 23:30. Vou ver quanto tempo irei levar. Foi muito útil a sua didática.Abraços .

  3. John Costa 18/02/2016

    E quanto mais eu mergulho na minha história e conheço meus personagens cresce a sensação de insegurança, de que talvez não consiga traduzi-los em palavras. É uma sensação estranha e inquietante, mas é também um desafio que vicia e leva o sono embora várias vezes. É como um nó que nos viciamos em tentar desatar…
    Seus textos me ajudam de tantas formas diferentes! Obrigado. Sério.

  4. Ben Oliveira 04/04/2016

    Adoro esse site. Fazia um tempo que não visitava. Bom saber que ainda continuam publicando conteúdo de qualidade.
    Abraço
    PS: Devo recomendar ele em uma lista que estou criando para o blog de sites e blogs sobre literatura.

  5. Quando consigo resolver alguma trama em meu livro, logo aparece outra complicação para os personagens, acho que sou um gerador aleatório de trama. O problema que tenho que reescrever umas cinco vezes pelo menos até ficar aceitável do meu ponto de vista. Escrever um livro de ficção cientifica baseado no cenário da segunda guerra mundial (do lado nazista) com toda a certeza está testando a minha sanidade. Mas eu paro um pouco, escrevo outras coisas e depois fico deprimido escrevendo uma semana a fio sem parar de pensar em outra coisa, parece que nestes períodos eu seria capaz de escrever o dia inteiro, mas não sou não, não mergulho muito fundo rapidamente, a mente de um escritor é perigosa para o próprio 🙂

  6. Rosângela 28/04/2016

    Uau!!! fico um tempo sem aparecer por aqui e quando venho encontro meus sentimentos refletidos neste texto. É exatamente assim que me sinto…

  7. pedro victor 04/06/2016

    Faz 6 anos que tento escrever um livro , o maximo que consegui foram 89 paginas relidas dezenas de vezes , revisadas e editadas a medida que fui amadurecendo.. de repente agora com 20 anos de idade jogo a historia no brejo e penso em escrever outra .. como o autor do texto disse a pessoa fica insana , foram uns 3 anos falando , pensando , dormindo e sonhando com os textos e as aventurar do meu personagem .. resolvi jogar tudo fora por causa disso e agora nessa nova aventura , uma nova historia que creio eu não ira afetar tanto como a antiga , espero que consiga chegar ao fim , um abraço a todos os escritores e leitores !

  8. Orlando Valle 30/06/2016

    Os textos são extremamente eficazes e didáticos para um iniciante. Comecei a escrever num rompante e só consegui para na página cento e vinte. É tudo muito visceral porque é uma ficção baseada em profunda história de vida pessoal. História de amor complexa e…perigosa! Descobri o site sem querer e posso afirmar que estou aprendendo a lidar com a Musa e comigo mesmo de uma forma aguda e inusitada. Acredito que não demore muito a publicar porque a coisa toda está apenas sendo transcrita para ser burilada para virar literatura de fato. Apesar de estar fluindo com facilidade para algo acontecido há trinta e poucos anos as emoções redivivas mexem com minha cabeça e coração profundamente. E como dói! As dicas são um norte e sigo grato por elas. Obrigado!!!

  9. Sabino 26/07/2016

    Estou me inspirando, tentando pôr em papel minhas ideias.
    Encontro inúmeras dificuldades de onde começar? Se começar pela direita, qual será a próxima direcção?
    Gostei dos conselhos úteis que o site sugere.

  10. Sam Giliath 05/08/2016

    Também tenho minhas complicações. Estou escrevendo uma história sobre um povo e guerras épicas recheadas de aventuras e tristezas que levarão muitos livros e um tempo indeterminado até que chegue ao fim.

    Meu propósito com isso? Essas histórias não me saem da mente desde quando comecei a inventar histórias, entre meus 10 e 11 anos, hoje tenho 18, não quero que tudo que fiz seja perdido, tudo que amo, um universo onde me expressei, onde expressei meus desejos e tudo o que imaginei durante toda a minha vida… esquecer todas elas seria como destruir uma parte da minha vida.

    Mas tal momento já me alcançou várias vezes, quando destruí todo meu material e já me senti quase maluco, muitas vezes misturei fantasia com realidade, senti ódio pelas histórias e tentei me afastar delas de muitas maneiras, mas no final das contas, não consigo viver sem elas, é um universo paralelo que só eu conheço e, que mesmo que eu fuja dele, ele procura por mim.

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