Aprenda a criar realidades com palavras

Um calendário para ajudar você a encontrar suas melhores histórias

Por Diego Schutt em 30/12/2015 Tópicos: dicas, escrever, técnicas
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No início de 2015, decidi testar uma das sugestões mais recorrentes de todos os cursos e workshops de escrita criativa que já fiz: escreva todos os dias.

Apesar de entender, na teoria, os benefícios que tal hábito teria no desenvolvimento das minhas habilidades de escrita, na prática, ficava imaginando qual o benefício real de escrever por obrigação. Afinal, eu pensava, o grande prazer de escrever está naquela sensação indescritível dos dedos teclando confiantes, em perfeita sincronia com meus pensamentos e emoções. E isso não acontece todos os dias. Então porque não me guardar para esses momentos? Por que não escrever apenas quando estivesse nesse estado de espírito?

Até criar o Calendário do Escritor no início deste ano, eu não havia encontrado nenhuma motivação para escrever todos os dias mais convincente que a coleção de desculpas que venho colecionando ao longo dos anos. A ideia por trás do Calendário do Escritor é simples. Defina uma meta diária de escrita para o ano. Pode ser escrever um certo número de palavras ou escrever por um determinado período de tempo. Depois imprima o calendário e escreva sua meta no local indicado. Por exemplo: “Escrever ficção durante 25 minutos todos os dias.”

Coloque o calendário em um lugar visível, onde é inevitável olhar para ele diariamente.

Cada vez que você cumprir sua meta, faça um X com uma caneta vermelha sobre esse dia no calendário. É importante que, já no início do ano, você crie uma cadeia ininterrupta de letras X. Depois de alguns dias, você vai ter a satisfação de constatar que vem cumprindo sua meta diariamente. A partir desse momento, seu objetivo é não interromper essa corrente de produtividade.

calendario-escritorQuando se sentir tentado a não escrever, olhe para o calendário e lembre-se: você só precisa cumprir sua meta diária. Se enquanto você estiver escrevendo surgir motivação para continuar, siga em frente. Caso contrário, faça um X no calendário e reconheça seu esforço por pelo menos ter tentado. Para mais detalhes sobre o calendário do escritor, clique aqui.

Clique aqui para baixar o Calendário do Escritor 2016

Atenção: o arquivo está em alta definição e, por isso, é pesado. Clique no link acima e espere cerca de um minuto. 

O desafio que me propus foi, durante o ano de 2015, escrever ficção todos os dias por no mínimo 25 minutos. Mesmo sem vontade, mesmo sem inspiração, mesmo percebendo alguns minutos depois de começar que o resultado não estava ficando bom. De janeiro à julho, escrevi quase todos os dias. Durante os dois primeiros meses, foi uma batalha diária. Ao longo do dia, pensava em desculpas para não escrever, e justificava porque eu merecia uma folga por estar cansado, sem paciência, triste, entediado, inseguro, preocupado, ansioso e todas as outras emoções desestimulantes que você puder imaginar.

Depois de certo tempo, lembrei que se tratava de uma guerra. Era eu contra minha Resistência, e eu estava finalmente ganhando. Dia após dia, cumpri minha missão de comparecer e fazer o meu melhor. Algumas sessões foram inspiradas, outras entediantes. Alguns textos ficaram bons, outros ficaram péssimos. Ainda assim, a rotina de escrever foi, pouco a pouco, me deixando mais seguro em relação ao meu processo de criação e me relembrou que sempre haverão dias ruins e dias bons, mas que nunca sabemos qual desses dias vai ser hoje. A única forma de descobrir é escrevendo.

meu-calendario-escritor2015No início de agosto, pouco antes de sair de férias por três semanas, olhei para meu calendário, com os sete primeiros meses quase completamente vermelhos, e pensei: eu mereço um descanso, férias de verdade, sem nenhum compromisso ou obrigação. A guerra está ganha. Desenvolvi o hábito de escrever todos os dias. Venci minha Resistência. Quando eu voltar de viagem, descansado, relaxado, recomeço de onde parei. A imagem do meu calendário (ao lado) fala por si só.

O que aconteceu? Por que não consegui retomar um hábito que já estava tão incorporado à minha rotina? Adoraria poder dizer que o segundo semestre desse ano foi mais movimentado e estressante, que meus dias foram mais cansativos e minha meta diária se tornou inviável, mas não foi o que aconteceu. A verdade é que as desculpas que haviam deixado de ser suficientes no início do ano votaram a ser aceitáveis. E quando eu estava prestes a superá-las e retomar o hábito de escrever, inventei uma desculpa bastante convincente: este texto que você está lendo.

Que relevância teria um artigo onde narro como consigo atingir meu objetivo sem nenhum problema? “Prezado leitor, no início de 2015 me propus a escrever todos os dias e consegui. Desenvolvi o hábito de escrita porque usei o Calendário do Escritor. Fim.”

Conflito, disse para mim mesmo, é o que nos tira da zona de conforto e nos ensina as maiores lições. Portanto, caso eu não consiga retomar o hábito de escrever, pelo menos o relato da experiência será mais dramático e, como consequência, mais enriquecedor.

É fantástico como estamos dispostos a nos convencer de qualquer coisa para justificar nossa preguiça. 

A verdade é que o ofício do escritor, como todo trabalho, tem dias entediantes. Mas muitos de nós mantemos a ideia romântica de que somos gênios incompreendidos, que se outras pessoas pudessem escutar nossos pensamentos e entender nossas ideias, reconheceriam nosso valor, nossa importância. Não temos tempo para tédio, para rotina, para esforço. Estamos acima disso. Somos melhores, mais sensíveis, mais inteligentes. Como prêmio, nos concedemos o direito de nos esforçarmos menos, a trabalharmos em nossos textos somente quando julgamos estarmos em certo estado de espírito.

Nos tornamos escritores pelo prazer que temos em escrever e se não estamos sentido tal prazer, certamente há algo de errado. Escrever sem inspiração seria um desperdício de energia, uma perda de tempo. Nesses dias, olhamos pela janela, vemos o céu nublado anunciando chuva e nos convencemos que não vale a pena sair para caminhar no parque. Qual o sentido em escrever mesmo quando sabemos que não vai dar sol?

Que ganho há em escrever apenas por disciplina?

O trabalho do escritor não é caminhar no parque em dia de sol. Todo mundo caminha no parque em dia de sol. Seu trabalho é sair no temporal sem guarda-chuva, é encarar o céu escuro e dizer que ele pode voltar quantas vezes quiser que, independente da previsão do tempo, você vai sair para sua caminhada no parque, dia após dia, mesmo com medo de pegar um resfriado, mesmo com receio que outras pessoas tirem você para louco.

Acredito que existe uma imensa biblioteca de livros na mente de todo escritor, com milhões de histórias espalhadas pelo chão. A única forma de descobrir que histórias são boas e quais são ruins é abrindo livro por livro. A grande missão do escritor é encontrar as melhores histórias da sua biblioteca e compartilhá-las com o mundo. O escritor que faz visitas diárias a essa biblioteca tem mais chances de encontrar boas histórias do que aquele que faz visitas esporádicas.

O maior ganho do hábito de escrever é a sensação de dever cumprido. Você faz a sua parte e, ainda que muitos dias você não encontre uma boa história, pelo menos pode tirar do seu caminho uma história ruim.

Ainda que você esteja convencido que escrever todos os dias vai lhe tornar um escritor melhor, você vai constantemente se questionar se o esforço vale a pena. Mas alguns dias, alguns raros dias, porque você é um dos poucos que está na rua apesar do temporal, porque você é um dos corajosos que não tem medo de se molhar, você vai ser atingido por um relâmpago que vai tirar a venda dos seus olhos e lhe relembrar que talvez você não esteja aqui amanhã para contar suas histórias. Esse senso de urgência vai convencer você a deixar de lado a importância e solenidade que você dá para os seus textos. Escrever vai se tornar uma atividade automática, espontânea, como uma conversa na grama do parque com seu melhor amigo depois de duas garrafas de vinho, quando você relaxa e começa a revelar o que realmente está pensando.

Essa espontaneidade, esse estado de relaxamento e despretensão, vai permitir que você escreva como você, sem a arrogância de quem acredita que seus textos são um serviço para a humanidade e sem medo de que seus esforços sejam perda de tempo. Se você realmente quer se tornar um escritor, você sempre está ganhando quando escreve.

Se o preço para você ter alguns desses momentos de autenticidade fosse tentar escrever todos os dias, você acha que valeria a pena? Eu acredito que sim e, por isso, em 2016 vou me comprometer a preencher o ano de vermelho.

Caso você também acredite que sim, clique aqui para baixar o Calendário do Escritor 2016.

Feliz ano novo e obrigado pelo tempo que você dedicou em 2015 para ler o Ficção em Tópicos.

Você usou o Calendário do Escritor durante 2015? Deixe um comentário contando sobre sua experiência.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

15 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Felipe 31/12/2015

    Olá, me chamo Felipe, escrevo por lazer e conheci o site a poucos dias, mas já me sinto extremamente recompensado. E posso dizer que os conselhos que li, ajudaram não só a escrever melhor, mas a me tornar um profissional melhor, uma pessoa melhor. Absorver esses ensinamentos, e aplica-los a outros aspectos de minha vida, tem dado resultados muito bons. Obrigado!

  2. Lizy 31/12/2015

    Confesso que meu calendário do escritor de 2015 foi uma vergonha. Os X marcados seguem só até o primeiro mês (e acho que alguns dias soltos), a folha do calendário se perdeu por meses numa mudança de guarda-roupa e reforma da casa e, com o último ano da faculdade e a monografia se aproximando, acabei jogando a escrita para o alto. É uma pena, mas espero que em 2016 seja diferente.

    Uma coisa que fiz nesse ano que se passou foi marcar o X em um dia mesmo não tendo escrito nada nele, contanto que no(s) dia(s) seguinte(s) eu escrevesse o dobro/triplo/etc. Acho que é um bom gesto compensatório, mas talvez não seja a melhor alternativa tendo em vista o real objetivo dessa atividade diária. Além disso, usei o calendário para escrever não apenas ficção: certas vezes me peguei redigindo os próprios pensamentos (é um costume). Enfim, essa é outra coisa que eu gostaria de extinguir do meu calendário 2016. Ficção, ficção, apenas ficção (os pensamentos tento deixar para um blog).

    O que piora minha causa é não ler. Quer dizer, eu até li alguns livros esse ano, e durante toda a faculdade li várias coisas, mas acabou sendo uma maioria de conteúdo acadêmico, não literário. Agora devo correr atrás do prejuízo (ou talvez criar um caminho diferente) e me propor a ler e escrever como nunca antes.

    Agradeço pelo site, pelo texto e pela ideia do calendário. Feliz ano novo!

  3. Julia 31/12/2015

    Comecei a ler seu site faz algum tempo, mas só agora tenho dedicado tempo para lê-lo e estudá-lo apropriadamente. Adoro escrever, escrevia sempre mas fiquei um longo tempo parada. Perdi a confiança na minha escrita, a acho feia. Quero voltar, e vou voltar! Obrigada por mais um post maravilhoso e pelo Calendário do Escritor 2016 xD

  4. Juliana Silvieri 01/01/2016

    Comecei a escrever aos 11 anos, sempre fui apaixonada pela ficção.
    Fiquei alguns anos afastada devido ao trabalho e a faculdade, mas neste 2º sem. de 2015 resolvi voltar a escrever.
    Consegui fazer um certo progresso com meu romance, mas ainda estou muito longe da frequência que adotava. Quando criança e adolescente, escrevia todos os dias, aproveitava cada minuto livre das aulas para investir na história e me sentia até inquieta quando não fazia algum adendo ao enredo.
    Para 2016, estava com a ideia de estabelecer não os 25 minutos diários que propôs, mas sim 1 hora. Estava pesquisando dicas sobre esse tipo de rotina e cai em seu site, que já me cativou.

    “É fantástico como estamos dispostos a nos convencer de qualquer coisa para justificar nossa preguiça. ” – Uma verdade muito dolorosa…

    Obrigada pelas dicas e um ótimo 2016!

  5. Maria 02/01/2016

    Obrigada pela força! O calendário é uma excelente ferramenta. Um 2016 de muita escrita criativa para todos.

  6. Thallys 04/01/2016

    Também conheci o site a pouco tempo. Como o ano começou agora, vou baixar esse calendário e tentar cumpri-lo. Obrigado pelas experiências.

  7. Felipe Lima 07/01/2016

    Conheci o site no ano passado, justamente por que estava procurando alguma coisa na internet para me ajudar a organizar uma “rotina de escrita”, pois estava terminando de escrever o meu livro, mas como o tempo é muito curto pra mim, eu queria algo que me desse um pouco mais de foco, já que no pouco tempo útil que eu tinha/tenho, acabo fazendo um milhão de pequenas coisas, que não estão ligadas a esse hobby que eu amo.

    Acabei encontrando o calendário por acaso e resolvi tentar, nos primeiros dias, tudo foi lindo, consegui ficar 1 semana inteira escrevendo por pelo menos 30 minutos, mas na semana seguinte tudo foi por água abaixo, comecei a realizar outras milhares de coisas e o livro ficou um pouco de canto, mesmo eu tento muita vontade de termina-lo.

    Depois de um tempo de “recesso” do livro, voltei a escreve-lo, não tinha mais o calendário por perto, porque ver aquela folha branca e azul com apenas 7 riscos vermelhos sequencias e alguns esporádicos soltos pela folha, me deixava um pouco frustrado, então tirei o calendário de onde eu o via todos os dias, mas continuei mantendo a rotina de escrever todos os dias (ou quase todos eles) mantendo em mente sempre o ideal do calendário, mesmo não olhando para ele todos os dias, eu lembrava dos dias que eu havia parado para escrever e da evolução que a historia teve com tudo isso. A frustração virou orgulho no final.

    Terminei meu livro, estou agora na fase de edição, mesmo não tendo o calendário a vista, compreendi a ideia por trás dele, o que me ajudou imensamente a terminar minha obra, então acredito que posso dizer que, sim o calendário funciona e é muito útil (desde que você não se cobre negativamente como eu fiz e vejo que fui quase um carrasco comigo naqueles dias) e usarei o calendário de 2016 de uma forma melhor, ainda mais que eu estou terminando meu tempo de “recesso” para edição e preciso voltar a todo vapor para terminar definitivamente a minha obra.

    Muito obrigado Diego Schutt, pela super ajuda que você me deu com esse calendário e com os diversos posts do site que são de altíssima qualidade, que me motivam muitas vezes a fazer algo novo e melhor o que já tenho!!

  8. Matheus Oliveira 13/01/2016

    Eu utilizei o calendário 2015 e foi quase que um fracasso total haha. Acho que preenchi somente uns 15 dias, depois comecei a esquecer de assinalar.
    Vou tentar ser mais disciplinado esse ano.

  9. Danilo Silva 18/01/2016

    Ótimo artigo Diego.a parte em que você falou das milhares de desculpas que criamos para aceitar nossa preguiça foi genial.é exatamente essa preguiça que impede boas idéias fluírem.
    Já baixei meu calendário e assim como você,esse ano quero ver ele todo marcado de vermelho.
    forte abraço.

  10. Maria Tereza 09/02/2016

    Oi Diego
    Neste momento conheci seu site e já estou imprimindo o Calendário de Escritor de 2016. Minha motivação foi além de desenvolver o hábito da escrita: tomei a decisão de ser escritora! Um insight importante; tua escrita me levou ao autoconhecimento!

    Muito obrigado por tua generosidade em compartilhar o conhecimento (técnico) que tens na área da escrita e que aparece de forma sensível e profunda. Unir essas competência competência é também a minha busca.

    Um abraço Diego

  11. Gustavo 11/04/2016

    Quando você aceitou parar de escrever durante as férias você cedeu a sua vontade de desistir. Se o farol não acende um dia, barcos naufragam.

  12. Francisco Adrião 26/10/2016

    Olá Diego!
    Comecei a me aventurar no mundo da escrita faz um tempo, mas nunca tive muita disciplina para escrever com frequência. Achei a ideia do calendário muito boa e vou seguir ela com certeza. Estamos no final do ano, mas já vou começando a praticar. Ano que vem, se você for disponibilizar outro calendário, venho aqui e baixo.
    Belo trabalho, obrigado.
    Um Abraço o/

  13. Isabel 26/01/2017

    Muito obrigada, com certeza irei fazer. Já tem calendário de 2017 pra baixar?

  14. Author
    Diego Schutt 26/01/2017

    Oi Isabel

    Sim, o calendário de 2017 já está disponível neste link: http://ficcao.emtopicos.com/2016/12/calendario-escritor-2017-objetivos/

    Espero que ele ajude você a desenvolver uma rotina de escrita produtiva. 🙂

    sds
    Diego

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