Escreva para expressar, não para impressionar.

Verdade, verdade, verdade, ficção.

Por Steven Pressfield em 25/11/2015 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
2
52

Quase toda história que ambiciona criar um clímax de impacto precisa de um grande acontecimento, algo que nunca foi visto antes ou, se já foi visto, que nunca foi apresentado de uma forma em particular. Geralmente, esse grande acontecimento é artificial demais e ultrapassa os limites do que pode ser considerado verossímil. […]

Criar um clímax de impacto é difícil porque tal momento, inevitavelmente, exige do leitor um grande esforço para manter-se envolvido no universo da história e não julgar o que está sendo apresentado como implausível.

A última coisa que desejamos, como escritores, é que nossos leitores pensem “Ah não, pode parar! Isso nunca poderia acontecer!”

A solução está no contexto que você cria no início da história. Em muitos livros e filmes, o corpo da narrativa – começo, meio e um pouco do final – tem como foco apenas preparar o terreno para aquele grande momento de ficção no clímax. Noventa por cento do texto se dedica a criar um mundo onde esse grande momento ficcional poderia acontecer de uma forma crível. […] Como conseguimos esse mesmo efeito na nossa história? A resposta é verdade, verdade, verdade, ficção.

Quando falo em verdade, me refiro à cenas plausíveis e personagens críveis. Eles não precisam ser literalmente verdadeiros no mundo físico, mas a história precisa conter cenas, pessoas e conceitos que, dentro do universo do livro ou do filme, pareçam verossímeis.

Um pobre veterano da Primeira Guerra Mundial pode, realmente, se reinventar como Jay Gatsby e, em poucos anos, se tornar um zilionário arrojado, que constrói uma mansão que se torna o epicentro da cena social dos anos vinte em Nova York? Sim, ele pode se a história é contada a partir da primeira página pelo amigo de Gatsby, Nick Carraway, que nos conta verdade, verdade, verdade, em cenas plausíveis sobre sua própria vida e sobre o mundo dos anos 20. Quando ele nos apresenta Gatsby, nós nem sequer percebemos a quantidade de informações pouco plausíveis que a história exigiu que a gente aceitasse. Nós nos entregamos. Nós acreditamos.

De fato, não temos nenhuma dificuldade para acreditar nos dragões em “Game of Thrones” porque, no universo de ficção criado pelo escritor, essas criaturas podem, plausivelmente, existir e até mesmo interagir com os humanos.

Como aspirantes a escritor, somos muitas vezes aconselhados a realizar pesquisas rigorosas, a prestar atenção meticulosa aos detalhes. E devemos, de fato, fazer isso. Por exemplo, não escreva no seu texto sobre uma árvore genérica. Seja específico e mencione que se trata de um pinheiro tarda. […] A razão pela qual esses detalhes são tão importantes é porque eles, utilizados como elementos em uma sequência de outros fatos verdadeiros, constituem “verdade, verdade, verdade”, cujo papel é criar um contexto para o grande momento de ficção no clímax da história.

Vendedores dizem “Faça o cliente dizer sim para coisas pequenas. Em seguida, ele vai dizer sim quando nós perguntarmos: Você está pronto para comprar?”

Você, o escritor, também é um vendedor. Você está vendendo a sua história.

Lembre-se que nós, seus leitores, queremos acreditar em você. Queremos dragões para conversar. Queremos que Rocky não desista de lutar contra Apollo Creed. Seu trabalho, senhor escritor, é nos seduzir, é nos levar para uma viagem a bordo do seu navio mágico.

Se você está descrevendo um jantar em um restaurante fino e, no clímax, um personagem vai usar um revólver calibre quarenta e cinco para explodir o cérebro do seu rival (ou seja, algo que nunca aconteceu de verdade), nós, seus leitores, precisamos que você contextualize a cena nos dando todos os detalhes sobre a toalha de mesa, o prato de sopa, etc. E precisamos de informações que nos ajudem a entender as convenções que você estabeleceu para o seu universo de ficção, para que essa cena da história seja coerente com o que você nos apresentou anteriormente.

A maneira como os personagens falam, as roupas que vestem, a dinâmica emocional entre eles, tudo isso precisa passar um senso de coesão e consistência. Dessa forma, no final do jantar, quando o personagem sacar sua pistola automática e cravar seis balas no peito de seu rival, os leitores vão pensar “Ah, faz sentido”, porque os personagens se mantiveram fieis às regras básicas que você criou para eles. E porque eles usaram os talheres certos para comer cada prato do jantar.

Verdade, verdade, verdade, ficção. Funciona.

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

Steven PressfieldLer todos os textos de Steven Pressfield
Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Wallacy 29/12/2015

    Olá. Gostaria de saber se teremos o calendário de escritor para 2016.

  2. Diego Schutt 30/12/2015

    Vai sim Wallacy. Você pode baixar o calendário neste link: http://ficcao.emtopicos.com/2015/12/calendario-escritor-2016/

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

 

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Copyright 2010-2018 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos