Aprenda a criar realidades com palavras

Escreva ficção COMO você, não SOBRE você.

Por Diego Schutt em 19/11/2015 Tópicos: escrever, escrita criativa, inspiração, storytelling
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Esta semana, enquanto tomava a ducha obrigatória antes de entrar na piscina do clube para nadar, reparei no menino na ducha ao lado, tremendo de frio. Cutuquei o braço dele e disse: “Para colocar na água quente, é só você girar a torneira pra direita, ao invés de pra esquerda.” Ele sorriu, batendo os dentes, e respondeu “Obrigado moço, mas eu gosto de tomar banho frio antes de entrar porque daí a água da piscina parece mais quente”.

É comum julgarmos pessoas, comportamentos e situações baseados apenas no que é visível, no que nos parece óbvio, no que chamamos de realidade. Clamamos isenção, imparcialidade e objetividade para nossa interpretação de certos fatos. “Esse comportamento é, obviamente, ridículo e absurdo. Minha visão é, definitivamente, a mais correta neste caso. Esse menino, claramente, não sabe como colocar o chuveiro na água quente.”

Nosso ego tem sede por certezas. Precisamos acreditar que estamos lendo o mundo corretamente, que sabemos mais, que estamos vivendo a vida mais plenamente do que quem pensa diferente de nós, que nossas motivações são mais nobres, mais autênticas, mais inteligentes, mais importantes.

O psicólogo Dan Gilbert chama essa tendência de Felicidade Sintética, um sistema cognitivo da mente humana que funciona como um sistema imunológico psicológico, cuja função é nos ajudar a mudar nossa forma de interpretar o mundo para que possamos nos sentir melhor diante das circunstâncias em que nos encontramos.

O que a gente costuma esquecer é que, antes de entrar na piscina, todos nós tomamos aquela ducha obrigatória. Nossa percepção de realidade é a história que a gente se conta de dentro da piscina, às vezes conscientes sobre a influência da temperatura da água da ducha, às vezes não.

Segundo o psiquiatra Irvin D. Yalom, quando nos sentimos impotentes e confusos diante de eventos aleatórios e imprevisíveis, tentamos organizá-los na nossa mente de uma forma coerente, encontrar um sentido para tais acontecimentos. O medo de perder o controle sobre nossas vidas nos motiva, então, a buscar por certezas que nos tragam um senso de ordem. Nesse processo, criamos padrões de pensamento, comportamento e teorias sobre como o mundo e as pessoas funcionam. Isso cria a ilusão de controle, que resulta no ciclo apresentado pelo fisicista David Bohm.

Realidade é o que tomamos como verdade. Tomamos como verdade aquilo em que acreditamos. Nossas crenças são baseadas em nossas percepções. O que percebemos depende dos nossos desejos. O que desejamos tem base em nossos pensamentos. O que pensamos depende do que percebemos. Nossas percepções determinam nossas crenças. Aquilo em que acreditamos determina o que tomamos como verdade. O que tomamos como verdade é nossa realidade.”

Nossa percepção de realidade opera nesse ciclo fechado, nesse universo particular, egocêntrico, retroalimentar. É um sistema que está constantemente buscando por confirmações externas para suas verdades internas. Os pilares morais dessas verdades internas foram erguidos a partir de duas forças fundamentais: nossa busca por prazer e nosso medo de dor, seja qual for o significado que cada um dá para essas palavras.

Portanto, os padrões que enxergamos no mundo não são reflexos da realidade, mas sim reflexos de nós mesmos, essencialmente, do que desejamos e do que temos medo.

Projetamos nossas experiências individuais no mundo e estabelecemos relações de causa e consequência baseados na temperatura da ducha de experiências que tomamos antes de entrar na piscina, para nadar em direção ao futuro que planejamos. Por isso, estamos sempre à procura de informações que confirmem nossas opiniões. Por isso, resistimos à mudança e temos medo do que não entendemos. Por isso, favorecemos certezas no curto prazo a amadurecimento no longo prazo.

O que isso tem a ver com escrever ficção? A percepção de realidade do protagonista da sua história também opera nesse ciclo fechado, que busca alterar e controlar o mundo externo para torná-lo o mais próximo possível do seu mundo interno. O desalinhamento entre algum aspecto desses dois mundos é o conflito da história. As tentativas insistentes do personagem em tentar alinhar esses dois mundos é o enredo da história. A impossibilidade de um perfeito alinhamento entre esses dois mundos é o tema da história.

Concordo com Beau Lotto quando ele afirma (no vídeo disponível no final do artigo) que as melhores tecnologias são as que tornam o invisível visível, e nos permitem conhecer e explorar além dos limites do nosso universo particular. Histórias fazem parte desse grupo de tecnologias. Narrativas de ficção nos mostram a realidade de outras pessoas e, na mão dos escritores mais habilidosos, enriquecem nossa percepção sobre o que significa estar vivo, desejar, sentir medo, ser humano.

O que um escritor tem de mais valioso e original é sua percepção de realidade, a forma única e particular (ainda que limitada e parcial) como ele filtra e interpreta o mundo com base nas suas experiências.

Por isso, incentivo você a escrever histórias para compartilhar a sua realidade. Não me refiro a sua vida como ela foi ou é, de fato, mas sim à forma como você atribui significado e valor para tudo ao seu redor, a sua interpretação do mundo externo que reflete seu mundo interno, as suas teorias sobre porque pensamos o que pensamos, sentimos o que sentimos e agimos como agimos em certas circunstâncias.

Sua mente é uma fábrica de sentido. A matéria-prima dessa fábrica são suas experiências passadas e desejos para o futuro. O produto final desse sistema de produção de sentido são seus pensamentos, emoções e comportamentos. Para escrever histórias envolventes, você precisa emprestar essa fábrica de sentido para seu protagonista. Como? Se colocando no lugar dele, reconhecendo a importância dos seus desejos e, honestamente e profundamente (essa é a parte mais difícil), imaginar o que você faria, pensaria e sentiria se estivesse nas mesmas circunstâncias.

Se você fosse um personagem com essas características, essas certezas, esses valores, esses desejos e nesta situação, como você agiria? Se você fosse um menino mimado, que deseja atenção constante dos pais, como reagiria se, no seu aniversário de 18 anos, eles expulsassem você de casa? Se você fosse uma senhora extrovertida, que está na fase terminal de uma doença crônica e deseja morrer, como convenceria seu enfermeiro a lhe ajudar a acabar com seu sofrimento?

Ao responder essas perguntas honestamente e profundamente, o escritor empresta sua humanidade para seus personagens. Isso é o que dá um senso de verdade para histórias. Isso é escrever de dentro para fora, é vestir a vida do protagonista e permitir que a história se desenvolva a partir das reações do personagem, não do desejo de ser lido. É preciso que o escritor encontre uma forma de tornar o conflito do protagonista pessoal, que ele busque no seu íntimo uma versão de si que entenda as emoções desse personagem para que ele possa escrever munido de credibilidade.

Isso é escrever ficção COMO você, ao invés de SOBRE você.

Grandes escritores conseguem reconfigurar sua fábrica de sentido para construir universos de ficção e explorar temas relevantes, usando como matéria prima o contexto de vida do protagonista, para criar na narrativa uma realidade que mistura mentiras intelectuais com verdades emocionais, o yin e yang de histórias envolventes. Fundamentalmente, a grande habilidade desses escritores é a capacidade de canalizar sua sensibilidade para atribuir aos seus textos um senso de ineditismo, singularidade e especificidade, característico das ideias originais, e um senso de familiaridade, coletividade e universalidade, característico dos temas que iluminam algum aspecto da condição humana.

Que critério pode servir de base para você avaliar a relevância do tema que escolheu desenvolver em sua história? O escritor Julio Cortázar responde (citação extraída e levemente adaptada do texto “Os Valiosos Ensinamentos de Julio Cortázar aos Escritores”):

“Toda vez que me perguntam: como distinguir entre um tema insignificante […] e outro significativo? Respondo que o escritor é o primeiro a sofrer esse efeito indefinível, porém avassalador, de certos temas, e que precisamente por isso é um escritor. […] O escritor reage ante certos temas da mesma forma em que [sua história], mais tarde, fará reagir o leitor. [Toda história] está, assim, predeterminada pela aura, pela fascinação irresistível que o tema cria em seu criador. […]

Um mesmo tema pode ser profundamente significativo para um escritor e pouco importante para outros; um mesmo tema despertará enormes ressonâncias em um leitor e deixará outro indiferente. Em suma, pode-se dizer que não existem temas absolutamente significativos ou absolutamente insignificantes. O que existe é uma aliança misteriosa e complexa entre determinado escritor e determinado tema em um dado momento, assim como a mesma aliança poderá dar-se logo entre [certas histórias] e certos leitores.

Por isso, quando dizemos que um tema é significativo, […] essa significação se vê determinada em certa medida por algo que está fora do tema em si, por algo que está antes e depois do tema. O que está antes é o escritor, com sua carga de valores humanos e literários, com sua vontade de fazer uma obra que tenha um sentido; o que está depois é o tratamento literário do tema, a forma em que o [escritor], frente ao seu tema, ataca-o e situa-o verbal e estilisticamente, estrutura-o em forma de [história], e o projeta em último termo em direção a algo que excede [a história] em si. […]

Por mais veterano, por mais perito que seja um [escritor], se lhe falta uma motivação cativante, se suas histórias não nascem de uma profunda vivência, sua obra não irá além do mero exercício estético. Mas o contrário será ainda pior, porque de nada vale o fervor, a vontade de comunicar uma mensagem, quando faltam os instrumentos expressivos, estilísticos, que tornam possível essa comunicação.”

Histórias que aspiram ser mais do que a soma de suas cenas criam um contexto intelectual e emocional, dentro de um universo de ficção hipotético, para pensarmos sobre o como e o porquê das coisas, elevando a narrativa de um exercício racional em busca de atenção e aprovação, a um registro honesto da forma única como o escritor entende o mundo e constrói sua realidade. Isso é o que de mais original, autêntico e envolvente você tem a oferecer para seus leitores. Isso é escrever COMO você.

 

Assista aos vídeos abaixo para expandir algumas dessas ideias (audio em inglês).

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

9 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Erulos Ferrari Filho 19/11/2015

    Inspirador o seu texto! Obrigado

  2. Matheus Oliveira 25/11/2015

    Seu texto foi realmente iluminador. Já vinha aplicando essas técnicas que você descreveu de modo inconsciente, mas agora, com a luz desse texto, posso aplicá-las de forma mais planejada.
    Outro excelente artigo, Diego. Parabéns.

  3. Karoline Querioz 28/11/2015

    Esse é o melhor texto que eu já li no Ficção em Tópicos.

  4. Meu amigo, seus textos me inspiram! Muito obrigado por sua iniciativa, estás me ajudando a compreender o processo de realização de um dos maiores sonhos que tenho na vida.

    Agradeço a Deus por ser abençoado pelo trabalho de pessoas como você, prezado. Muito obrigado!!

  5. James 20/12/2015

    ExCeLeNtE! Realmente incrível!

  6. Julia 31/12/2015

    “Projetamos nossas experiências individuais no mundo e estabelecemos relações de causa e consequência baseados na temperatura da ducha de experiências que tomamos antes de entrar na piscina, para nadar em direção ao futuro que planejamos.” Poderia, por favor, me ajudar a compreender? A temperatura da ducha seria a nossa realidade? Achei extremamente interessante seu tópico, porém me sinto incapacitada de consumir sua mensagem por falta de maturidade.

  7. Author
    Diego Schutt 06/01/2016

    Oi Julia

    A ideia é a seguinte. A ducha é nosso passado. A temperatura da ducha são nossas experiências de vida, que moldam nossa forma de ver o mundo. A piscina é nosso presente. O que eu quis expressar com essa metáfora é que nossa percepção sobre o presente, ou seja, sobre nossa realidade atual, é influenciada pelas nossas experiências passadas, quer tenhamos consciência disso ou não. Ficou mais claro?

  8. Julia 07/01/2016

    Acho que entendi… Então a temperatura da nossa ducha do passado são as experiências pelas quais nós passamos, influenciados por elas, sentimo-nos diferentes dentro da mesma piscina. Né? Seguindo a lógica da sua metáfora, teria como o personagem pular logo de cara na piscina para não ser influenciado pela ducha? Embora você tenha dito que independente de termos ciencia ou não da temperatura da ducha, que ela iria nos influenciar do mesmo modo? Só perguntei por fazer isso com frequência para espantar o frio se acostumando com ele. Não precisa me responder se não fizer sentido! Foi aleatório!

  9. Maria Tereza 10/02/2016

    Seus textos são TOP!!!!pérolas!

    Muito obrigado por compartilhar…

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