Aprenda a criar realidades com palavras

Que escritor você deseja ser?

Por Steven Pressfield em 29/08/2015 Tópicos: escrever, inspiração
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Se você e eu desejamos ser levados a sério como escritores, precisamos aprender o ofício dessa atividade. Idenpendente de como escolhemos fazer isso […], precisamos estudar os princípios atemporais de criação de histórias com a mesma dedicação com que um neurocirurgião estuda (assim esperamos) antes de começar a abrir buracos nos nossos crânios.

Isso é o ofício. Mas existe um outro elemento ainda mais importante nesse processo: o “nosso ofício”.

O que quero dizer com “nosso ofício” são aqueles instintos estilísticos e de construção de histórias que cada um de nós tem de único e que constitui nossa voz de escritor. Hemingway. Faulkner. Chekhov. Toni Morrison. Tom Wolfe. O estilo de cada um deles é único. Cada um tem uma perspectiva que é dele ou dela apenas, e cada um tem uma forma de contar uma história que é inconfundivelmente original.

Qual é seu estilo? Você consegue definir sua voz? É possível selecionarmos uma frase de um texto que você escreveu e dizer “Isso só poderia ter sido escrito por você”?

Se queremos ser levados a sério como escritores, precisamos nos perguntar não apenas “Estou estudando o ofício do escritor?”, mas também “Estou estudando o meu ofício?”.

Já escrevi anteriormente sobre meu amigo Paul e sua luta para lidar com seu talento para escrever. Desde o começo, Paul tinha uma voz de escritor distinta e um estilo forte e inconfundível.

  1. Os personagens dele são obscuros. Muito obscuros.
  2. Eles são violentos. Mais violentos do que Tarantino.
  3. O Paul não tem paciência com “contextualização”, aquelas cenas que parecem necessárias em todo livro ou filme onde o protagonista revela (ou é revelado de alguma outra forma na narrativa) a motivação dele para agir como age. O instinto de Paul sempre lhe disse para não incluir esse tipo de cena. Ele não se importa porque as pessoas fazem o que fazem. Ele acredita que uma resposta não dada tem mais poder que uma dada.
  4. Ele detesta “momentos privados”. Essas são aquelas cenas (geralmente sem diálogo) quando o personagem está sozinho ou em um local não-público e, através de uma ação ou gesto que ele acredita ninguém mais estar testemunhando, revela um aspecto chave de sua personalidade. Talvez seu lado romântico, por exemplo, ao mostrar o personagem olhando para uma mensagem de texto que ele guardou de um amor perdido, revelando que ele ainda se importa.
  5. Ele só mostra seus personagens em ação e em suas personas sociais.
  6. Ele se recusa a “explicar” ou “contextualizar” as ações de qualquer personagem.

Você entende onde estou querendo chegar? O Paul tem seus instintos de escritor. Esses instintos não são o ofício do escritor, mas sim o ofício dele, [do tipo de escritor que ele deseja se tornar]. Para que o Paul alcance todo o seu potencial como escritor, ele precisa dominar ambos os ofícios.

Aliás, esses instintos podem estar errados. Eles podem ser malucos, equivocados ou simplesmente estúpidos. Mas eles também podem ser as sementes de uma voz de escritor única e inesquecível.

Cada um de nós tem um estilo natural, assim como Charles Bukowski tinha, ou Eudora Welty ou Hunter Thompson ou Jean Rhys.

Cada um de nós tem uma visão de mundo que é somente nossa, e um ouvido para diálogo e um estilo de contar histórias que pertence a nós e a mais ninguém.

Repito novamente, esse não é o ofício do escritor. É o [ofício do escritor que desejamos ser].

Precisamos estudar isso. Não podemos abdicar ou ignorar esse componente da arte do escritor dizendo que vamos nos deixar guiar pelo nosso instinto: “quando eu enxergar o texto na página, vou saber se está bom ou não”. Precisamos ganhar plena consciência de nossas qualidades, nosso estilo natural e nosso ponto de vista instintivo. Como o estilo de cantar do Bob Dylan ou o senso de composição visual de Ridley Scott. Precisamos nos perguntar (e sermos capazes de responder): Isso funciona? Está vindo do lado mais verdadeiro da minha criatividade?

Você gosta do seu corpo? Você aprova o seu rosto? O mesmo se aplica a nossas identidades artísticas. Não podemos mudá-las. Elas são intrínsecas a quem somos. Mas podemos expressá-las, refiná-las, fazê-las se destacar e brilhar. Esse é o grande barato de tudo isso, não é?

Como soa sua voz? Qual a aparência de uma frase escrita por você?

Leva-se anos para se aprender isso e é algo que está sempre mudando. […]

Aprender a fazer arte, qualquer arte, é embarcar em uma jornada de autoconhecimento. Isso não é um clichê. É a razão pela qual embarcamos na jornada.

Eu não sabia que as histórias que escrevi estavam dentro de mim antes de elas saírem. Descobri quem eu era através dos meus textos. Foi somente depois que todos aqueles personagens e todas aquelas narrativas apareceram que percebi que tudo era parte de mim. Elas eram eu.

Olhar para uma frase e ser capaz de dizer “essa é minha voz” é algo fantástico. Leva-se décadas para se alcançar isso e esse esforço vale todas essas décadas. Isso não é aprender o ofício de ser escritor. É aprender o ofício [de ser o escritor que você deseja ser].

 

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

11 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Lucas 02/09/2015

    É isso. Por isso é tão importante ler muito para identificar os estilos de escritores que mais se identificam consigo, e escrever muito para refinar o próprio estilo. O problema é que são tantos escritores e tantos estilos que encontrar um que te influencie pessoalmente é como procurar agulha no palheiro.

  2. Matheus 03/09/2015

    Mais um excelente texto.
    Esse site se supera cada vez mais. É meu refúgio quando me sinto desmotivado a continuar escrevendo.
    Ultimamente tenho ficado assustado com as proporções que meu livro anda tomando, a história parece estar ficando grandiosa demais, quase uma criatura que está ganhando vida própria.
    Pretendo terminá-la até dezembro e, com as dicas do site, me sinto cada vez mais empenhado.
    Só espero conseguir chegar até lá e não ser engolido pela criatura que eu mesmo criei.

  3. Charles 16/09/2015

    Bem, às vezes a busca por um estilo pode ser um limitador na carreira de um escritor. Veja que ficar aprisionado a um estilo é reduzir as possibilidades. Como existe tantas formas de contar uma história, por que teria que ficar preso a um padrão? O estilo, quem sabe, para quem não não adotou um como seu, é nao ter estilo.

  4. maria ioleide 16/09/2015

    Me ajudou muitíssimo esse comentário. Agradeço de coração.

  5. João Sérgio 26/09/2015

    Encontrei por acaso
    Muito bom

  6. Ron Perez 01/10/2015

    Que texto profundo… Fiquei totalmente reflexivo tentando imaginar que tipo de escritor sou!
    Ja pude perceber alguns traços meus, únicos, Exclusivos… Mas ainda não me identifiquei por completo.

  7. lalala 03/10/2015

    Obrigado por esse texto lindo Steven Pressfield!!! site maravilhoso.

  8. Diana 09/11/2015

    Tem vários livros interessantes por aí e os autores deles são completamente ótimos e bem criativos. Eu gosto muito de ler e sonho em ser uma grande autora!!! não vou me apressar, mais vou deixar isso acontecer no tempo certo. Quem sabe se não viro uma grande autora um dia?? rsrs amo ler e amo também escrever… bom tenho uma fic que criei da Demi e tipo, não sei se ela está realmente boa. Só publiquei 14 capítulos feitos por mim e assim do nada a imaginação veio em minha mente e daí comecei a escrever com paciência.

  9. Maria Tereza 10/02/2016

    Após a leitura dos textos sempre aumenta a clareza quanto ao processo do meu autoconhecimento e também potencializa minha motivação/inspiração pra escrever.
    Bacana!

  10. Kaysa 27/05/2016

    Estou escrevendo o meu primeiro livro e toda vez que leio algum artigo desse site a minha motivação cresce! Ajuda bastante a aprendermos o rumo que queremos seguir!
    Seu trabalho é incrível! Parabéns mesmo.

  11. Daniele Bernardi 11/07/2016

    Que texto maravilhoso! Descobri seu site hoje e já me embebedei em seus textos incríveis. Você não faz ideia de como me motivou a voltar a escrever. Já estou me organizando pra seguir o calendário do escritor. Como um sinal de agradecimento por essa motivação, me dedicarei fervorosamente para que minha escrita fique incrível o suficiente para te surpreender. Obrigada pelo site.

    Dani

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