Aprenda a criar realidades com palavras

Escrever para chamar atenção, despertar curiosidade e envolver

Por Diego Schutt em 23/08/2015 Tópicos: dicas, escrever, storytelling
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O início de toda a história dá pistas sobre a experiência intelectual e emocional que o escritor deseja criar com sua narrativa. A atmosfera, o tom e o estilo de escrever de tal escritor, evidentes no começo de todo texto, criam expectativas sobre o tipo de história que ele vai contar e influenciam no processo de decisão de leitura.

Se tivemos experiências positivas com textos do escritor no passado, se ele nos foi recomendado por um amigo ou se lemos uma resenha positiva sobre seu livro em uma revista, damos mais crédito para a história e seguimos lendo, ainda que o início do texto não nos envolva. Fazemos isso por acreditar que, eventualmente, o escritor vai corresponder as nossas expectativas em relação ao conteúdo e à qualidade da narrativa. Há um mês atrás, por exemplo, li pela primeira vez um livro do escritor japonês Haruki Murakami e gostei muito. Recentemente, quando comecei a ler outro livro dele, não gostei tanto do início, mas segui lendo por confiar na habilidade do autor de contar uma boa história.

Quando a história que escolhemos ler é de um total desconhecido, entretanto, lemos as primeiras linhas, os primeiros parágrafos, talvez até os primeiros capítulos, e decidimos se vamos seguir na leitura baseados unicamente na nossa percepção sobre o texto. Se estamos intrigados, curiosos ou encantados, seja pela história ou estilo do escritor, seguimos em frente. Se estamos confusos, entediados ou desinteressados, seja pela história ou estilo do escritor, abandonamos o texto.

Conscientes disso, muitos escritores, inseguros e ansiosos por chamar a atenção e despertar a curiosidade do leitor no início da narrativa, recorrem à técnicas tais como a introdução de acontecimentos chocantes, personagens misteriosos e cenas bizarras. Esses recursos são excelentes e têm grande potencial de envolver o leitor, mas somente quando usados a serviço da história, não da insegurança do escritor.

Chamar a atenção e despertar a curiosidade têm muito mais impacto quando fazem parte de uma estratégia de longo prazo para envolver o leitor na história. Conheça abaixo a diferença entre essas três formas de construir sua narrativa.

Escrever para chamar atenção

Chamar a atenção é apelar para os instintos das pessoas, que estão preocupados apenas com o que é relevante neste exato momento. Para ganhar a atenção de alguém, basta você fazer ela se sentir em perigo ou confrontá-la com algo inesperado.

Faça o teste. Grite “cuidado” na rua ou faça dancinhas do Michael Jackson no trabalho. Você imediatamente vai chamar a atenção de diversas pessoas. Mas assim que elas constatarem que seu grito não representa uma ameaça verdadeira e depois que seus colegas rirem do seu comportamento inusitado, a atenção deles instantaneamente se dissipa.

Em textos de ficção, você pode chamar a atenção do leitor dando um senso de que o personagem está em perigo (“Eu estava doente, doente até a morte, longa agonia, e quando por fim me desamarraram e me foi permitido sentar, senti que meus sentidos estavam deixando-me.” Edgar Allan Poe, The Pit and the Pendulum) ou causando certo estranhamento com uma imagem inesperada (“Ao despertar de um sonho inquieto, certa manhã, Gregor descobriu que havia se transformado num gigantesco inseto.” Franz Kafka, Metamorphosis).

Ainda que essas frases chamem a atenção, se elas foram incluídas no texto apenas para chocar o leitor e não têm grande importância no contexto da história, seu efeito é o mesmo de um único fogo de artifício, que explode e, rapidamente, vira fumaça.

Textos que estão constantemente tentando chamar nossa atenção deixam evidente o medo do escritor de que o leitor vá abandonar a história caso não seja surpreendido o tempo todo.

Escrever para despertar curiosidade

Despertar a curiosidade é apelar para o intelecto das pessoas, que está preocupado em coletar informações que possam ter alguma validade no futuro. Para despertar a curiosidade de alguém, além de chamar sua atenção, você precisa convencer a pessoa de que tem algo útil ou importante para compartilhar.

Todos nós usamos truques para despertar a curiosidade de alguém quando queremos que ela escute o que estamos prestes a dizer. “Você não vai acreditar no que me aconteceu” ou “Sou a pessoa mais sortuda do mundo” ou “Seu queixo vai cair quando eu te contar de ontem a noite”. Esse tipo de frase é uma promessa de que vamos compartilhar algo interessante e relevante. Se enquanto nos escuta, a pessoa decidir que o que estamos dizendo não importa ou não faz nenhum sentido para ela, sua curiosidade desaparece.

Em textos de ficção, você pode despertar a curiosidade do leitor surpreendendo suas expectativas (“Foi o dia em que minha avó explodiu.” Iain Banks, The Crow Road) ou levantando perguntas intrigantes em sua mente (“Aos 16 anos matei meu professor de lógica.” Campos de Carvalho, A Lua Vem da Ásia).

Ao despertar a curiosidade do leitor, ele lhe dá créditos por mais alguns parágrafos, páginas ou capítulos e segue lendo em função das expectativas que a história criou. Mas esse interesse é específico. Ele está em busca de respostas para as perguntas que você deixou no ar. Como o personagem A vai resolver essa situação? Por que personagem B agiu de tal forma? O que vai acontecer se o personagem C conseguir executar seu plano maquiavélico?

Quando você assiste um filme ruim ou lê um livro chato até o final, geralmente é porque está curioso para saber o que vai acontecer. Você não está envolvido com a história, está apenas intelectualmente curioso para saber como o escritor vai resolver certos pontos do enredo.

Escrever para envolver

Envolver é apelar para as emoções das pessoas, que estão preocupadas em encontrar paralelos entre o mundo externo e seu mundo interno. Além de chamar a atenção e despertar a curiosidade, você precisa ajudá-las a enxergar a relevância do que você está falando para suas vidas.

Quando estamos envolvidos com o que alguém está falando, nosso instinto, nosso intelecto e nossas emoções estão focadas. Sentimos conexão, identificação, empatia e, acima de tudo, um senso de que essa pessoa consegue expressar com precisão certos detalhes, informações, pensamentos e emoções que reconhecemos como verdadeiros, mas jamais conseguimos encontrar as palavras certas para articulá-los. Esse reconhecimento de algo que é nosso, algo que sentimos ser verdade, vindo de outra pessoa, é uma das emoções mais profundas e poderosas.

Em textos de ficção, você envolve o leitor quando usa sua história como um veículo para expressar dramaticamente como você se sente e o que você pensa sobre o tema da história. Existe amor sem sofrimento? Qual a melhor forma de morrer? Quem tem poder de decidir o que é certo e errado? Inteligência racional é mais importante que inteligência emocional? Qual é o valor de uma vida?

Textos envolventes levantam perguntas importantes relacionadas às angústias, medos e dúvidas que todo ser humano tem sobre si, sobre suas relações sociais e sobre a forma como nossa sociedade está organizada. O envolvimento com essa dimensão temática da narrativa muda a interpretação da sua história de uma simples sucessão de acontecimentos que o leitor acompanha para saciar sua curiosidade, e a eleva para o status de mediadora de uma reflexão sobre sua vida e sobre o mundo.

A escrita de histórias envolventes passa pela reflexão do escritor sobre as perguntas que ele considera importantes e relevantes, por mais estranhas, vergonhosas ou inocentes que elas pareçam. Essa motivação para entender melhor certos aspectos do mundo e da vida e expressar esse entendimento na forma de uma história é o caminho árduo, mas recompensador que o escritor precisa percorrer para criar narrativas originais.

 

O mundo já está cheio de histórias superficiais escritas por pessoas em busca de atenção, aprovação, reconhecimento e aplauso. Pare de escrever para agradar sua professora de português, seus pais, seus amigos escritores, sua namorada ou marido, e comece a escrever para si mesmo.

Escrever para si mesmo não é desconsiderar quem vai ler o texto, mas sim criar histórias motivado pelo que chama a SUA atenção, desperta a SUA curiosidade, envolve as SUAS emoções.

Escrever tentando adivinhar o que vai chamar a atenção, despertar a curiosidade e envolver outras pessoas vai tirar dos seus textos o que você tem de mais original: a combinação única entre sua forma de experimentar o mundo, seus interesses, conhecimentos, personalidade, identidade e a forma como você organiza e dá sentido para tudo isso ao contar uma história.

O vídeo abaixo (em inglês) fala sobre a ciência de captar a atenção das pessoas em três níveis: atenção imediata, atenção concentrada e atenção de longo prazo.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

Um escritor tem algo a dizer sobre este texto

  1. jonas maracajá de morais 24/08/2015

    Sensacional. Bastante esclarecedor. Já estou escrevendo meu terceiro livro e acredito que o livro perfeito, se é que existe, teria que englobar os três tópicos, obviamente o último seria a cereja do bolo. Primeiro, no início do livro, acredito que temos que realmente chamar atenção do leitor, seja com o início da história em sim, ou com a forma de conduzir a sua narrativa, o que despertaria, inicialmente, o interesse do leitor, principalmente se você não é conhecido.O importante é, após chamar a atenção e despertar o interesse, envolver o leitor ao ponto de ele não conseguir parar de ler, ansioso por saber o quão inteligentemente o autor conseguirá finalizar a sua história.

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