Aprenda a criar realidades com palavras

Suas histórias fazem perguntas importantes?

Por Diego Schutt em 22/06/2015 Tópicos: dicas, escrever, inspiração
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Acredito que todo texto que nos marca vai além de contar uma história. Narrativas memoráveis nos envolvem porque seus autores conseguem expressar alguma coisa sobre o mundo ou as pessoas que reconhecemos como verdade, ainda que nunca tenhamos encontrado as palavras certas para expressar tais pensamentos e emoções.

Seus textos lhe parecem superficiais, desinteressantes e sem graça? Talvez você precise desenvolver a grande habilidade que filósofos e bons contadores de história têm em comum: saber formular boas perguntas. No texto abaixo, traduzido livremente por mim do artigo “What is philosophy for?, algumas dicas para você começar a olhar para o mundo em busca de sabedoria.

As pessoas sem dúvida confundem o que é filosofia. De longe, parece algo estranho, irrelevante, chato e, ainda assim – mesmo que apenas um pouco – intrigante. Mas é difícil definir o que é realmente interessante sobre essa disciplina. O que são filósofos? O que eles fazem? Por que precisamos deles?

Por sorte, a resposta está contida na própria palavra filosofia. Em grego, philo significa amor – ou devoção – e sophia significa sabedoria. Filósofos são pessoas devotadas à sabedoria.

Ainda que sejam termo relativamente abstrato, o conceito de “sabedoria” não é misterioso. Ser sábio significa tentar viver e morrer bem, levando uma boa vida, quando possível, dentro das condições complicadas da existência humana. O objetivo da sabedoria é a realização. Poderíamos dizer felicidade, mas felicidade é ilusória porque sugere euforia e alegria constantes, enquanto realização parece mais compatível com a grande quantidade de dor e sofrimento pela qual precisamos passar para que nossa vida tenha algum significado.

Então o filósofo, ou uma pessoa devotada à sabedoria, é alguém que se esforça sistematicamente para se tornar um especialista em descobrir a melhor forma de encontrarmos realização pessoal e coletiva.

Em seus esforços em busca de sabedoria, filósofos desenvolveram uma série de habilidades específicas. Eles se tornaram, ao longo dos séculos, especialistas em identificar muitas das coisas que nos impedem de nos tornarmos mais sábios. As seis principais são:

1. Não fazemos grandes perguntas

Qual é o sentido da vida? O que eu devo fazer com meu trabalho? Para onde estamos indo como sociedade? O que é o amor? Muitos de nós tivemos essas perguntas em nossas mentes em algum momento de nossas vidas (geralmente no meio da noite), mas nos desesperamos em nossas tentativas de respondê-las. Essas perguntas têm status de piada na maior parte dos círculos sociais. Por isso, ficamos tímidos de expressá-las (exceto durante um momento muito curto durante adolescência) por medo de sermos vistos como pretensiosos.

Mas essas perguntas são muito importantes porque somente com respostas sólidas para elas que podemos direcionar nossas energias de forma significativa. Filósofos são pessoas que não têm medo de grandes perguntas. Eles vêm ao longo dos séculos perguntando as maiores perguntas que já foram perguntadas. Eles têm consciência de que essas perguntas podem sempre ser quebradas em porções menores e mais administráveis. Eles sabem que pretensiosos são os que pensam estar acima de se preocupar com tais perguntas que parecem inocentes, mas não são.

2. Somos vulneráveis a erros e senso comum

A opinião pública – que comumente é chamada de senso comum – é sensata e lógica em muitas áreas. É o que você escuta dos seus amigos e vizinhos, as coisas que você assume serem verdade, as coisas que você aceita sem nem pensar sobre elas. A mídia nos bombardeia diariamente com esse tipo de informação. Mas em alguns casos, senso comum também está repleto de maluquices, erros e os preconceitos mais lamentáveis.

Filosofia nos força a submeter todos os aspectos do senso comum à razão. Ela quer que pensemos com nossas próprias cabeças, que sejamos mais independentes. É realmente verdade o que as pessoas dizem sobre amor, dinheiro, filhos, viagens, trabalho? Filósofos estão interessados em perguntar se uma ideia é lógica, ao invés de simplesmente assumir que ela deve estar certa porque é popular e há muito tempo estabelecida.

3. Nossas mentes estão confusas

Não somos muito bons em entender o que está se passando em nossa mente. Sabemos que gostamos uma determinada música, mas temos dificuldade em dizer exatamente porque. Ou alguém que conhecemos é muito irritante, mas não sabemos articular qual é o problema. Ou perdemos a paciência, mas não conseguimos expressar com precisão o que colocou o dedo em uma de nossas feridas. Não temos consciência sobre nossas próprias satisfações e aversões.

É por isso que precisamos examinar nossas próprias mentes. Filosofia está comprometida com autoconhecimento, e seu preceito central, articulado pelo maior e mais antigo filósofo, Sócrates, é composto de apenas duas palavras. Conheça-se.

4. Temos idéias confusas sobre o que vai nos fazer felizes

Estamos determinados a tentarmos ser felizes, mas a forma como normalmente buscamos alcançar isso é errada. Supervalorizamos o poder de certas coisas para melhorar nossas vidas e desvalorizamos o poder de outras. Em uma sociedade de consumo, fazemos as escolhas erradas porque, guiados por falso glamour, seguimos imaginando que um tipo particular de férias, ou carro, ou computador fará uma grande diferença.

Ao mesmo tempo, desvalorizamos a contribuição de outras coisas, como sair para uma caminhada, arrumar um armário, ter uma conversa estruturada ou ir para cama cedo. Essas são atividades de pouco prestígio, mas que podem contribuir profundamente para uma vida melhor. Filósofos buscam sabedoria tentando ser mais precisos sobre as atividades e atitudes que realmente podem ajudar nossas vidas a ficarem melhores.

5. Nossas emoções podem nos levar em direções perigosas

Somos inescapavelmente seres emocionais, mas regularmente esquecemos desse fato desconfortável. Ocasionalmente certas emoções, certos tipos de raiva, inveja e ressentimento, nos criam problemas sérios. Filósofos nos ensinam a pensar sobre nossas emoções, ao invés de simplesmente senti-las.

Ao compreendermos e analisarmos o que sentimos, aprendemos a ver como emoções impactam nossos comportamentos de formas inesperadas, contraintuitivas e às vezes perigosas. Filósofos foram os primeiros terapeutas.

6. Nos apavoramos e perdemos perspectiva

Estamos constantemente perdendo o senso do que é importante e do que não é. Nós estamos constantemente perdendo perspectiva. É por isso que filósofos são tão importantes. Ao escutar a notícia de que ele perderia tudo que possui em um naufrágio, o filósofo estóico Zeno disse simplesmente: “Fortuna me incentiva a ser um filósofo menos livre.” São respostas como essa que fizeram o termo ‘filosófico’ um sinônimo para calma, pensamento de longo-prazo e mente aberta, em resumo, para perspectiva.

O que chamamos de “história da filosofia” é composta de tentativas constantes, ao logo dos séculos, de lidar com nossa falta de sabedoria em certas áreas. Por exemplo, antigamente em Atenas, Sócrates prestou atenção especial ao problema da falta de claridade que as pessoas têm sobre seus pensamentos. Ele ficou surpreso que as pessoas não sabiam realmente o que pensavam sobre ideias importantes, como coragem, justiça e sucesso, ainda que essas fossem as ideias principais que eles usavam para falar sobre suas próprias vidas.

Sócrates desenvolveu um método (que ainda tem seu nome) através do qual você pode aprender a ganhar claridade sobre o que você pensa fazendo o papel de advogado do diabo com qualquer ideia. O objetivo não é necessariamente mudar de opinião, mas sim testar se as ideias que guiam sua vida fazem sentido.

Algumas décadas mais tarde, o filósofo Aristóteles tentou nos deixar mais confiantes diante de grandes perguntas. Ele acreditava que as melhores perguntas eram aquelas que questionavam para que servem as coisas. Ele fez isso extensivamente e em muitos livros. Para que serve o governo? Para que serve economia? Para que serve dinheiro? Para que serve a arte? Hoje em dia, ele estaria nos encorajando a fazer perguntas como: Para que servem as mídias de notícias? Para que serve casamento? Para que servem as escolas? Para que serve pornografia?

Também muito ativos na Grécia antiga foram os filósofos estóicos, que estavam interessados em pânico. Os estóicos perceberam uma característica fundamental do pânico: ficamos em pânico não apenas quando alguma coisa ruim acontece, mas quando acontece inesperadamente, quando assumimos que tudo terminaria bem. Então eles sugerem que devemos nos armar contra o pânico nos acostumando com a ideia que perigo, problemas e dificuldades tem grandes possibilidades de acontecer a todo momento.

O objetivo principal de se estudar filosofia é absorver essa e muitas outras lições e colocá-las em prática no mundo de hoje. Não basta apenas sabermos o que esse ou aquele filósofo disse, mas procurar exercitar a sabedoria no nível individual e coletivo, começando agora.

A sabedoria da filosofia é – em tempos modernos – principalmente compartilhada na forma de livros. Mas no passado, filósofos sentavam em praças de mercados e discutiam suas ideias com compradores, ou iam até os escritórios do governo e palácios para dar conselhos. Não era bizarro se ter um filósofo como um funcionário. Filosofia era considerada como uma atividade básica e normal, ao invés de algo incomum, esotérico, opcional, extra.

Hoje em dia, o problema não é tanto que negamos esses pensamentos – estamos sempre tendo insights de sabedoria aqui e ali – mas não temos as instituições corretas para configurar e promulgar sabedoria com coerência no mundo. No futuro, no entanto, quando o valor da filosofia for mais claro, podemos esperar conhecer mais filósofos em nossas vidas cotidianas. Eles não estarão presos, vivendo em departamentos universitários, porque considerando o nível de confusão em que nos encontramos agora, existem muitas perguntas que precisam de nossa atenção imediata.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. kaike brito 22/06/2015

    MUITO Bom .. 🙂

  2. Bruno Alves 22/06/2015

    Excelente vídeo! Um convite pra sair da caixinha…

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