Aprenda a criar realidades com palavras

O passado, o presente e o futuro dos seus personagens.

Por Diego Schutt em 27/05/2015 Tópicos: escrever, storytelling, técnicas
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Texto da escritora convidada Neo Laveroni

Não é segredo nenhum que personagens são a alma de toda história. Nem mesmo o melhor enredo do mundo é capaz de envolver os leitores se os seus personagens forem simples estereótipos sem profundidade.

Dentre todos os participantes da sua história, o protagonista é o mais importante. Ele é o personagem que define a linha de ação do enredo. Por esse motivo, ao nos apresentar esse personagem, o escritor precisa nos ajudar a enxergá-lo como uma pessoa única, individual, peculiar, interessante, intrigante, complexa.

Personagens são pessoas, mesmo quando não são humanos. É por isso que nos interessamos em conhecê-los. O ser humano é programado para se importar e se conectar com outras pessoas. Formamos famílias, criamos grupos de amigos, vivemos em comunidades, nos organizamos em sociedade. É o que fazemos há milhões de anos e o que faremos pelos milhões que hão de vir.

Criar um bom personagem é criar uma pessoa. E como toda pessoa, seu personagem tem experiências passadas, um contexto de vida presente e desejos para o futuro.

Experiências Passadas

A forma com pensamos, sentimos, nos relacionamos, nos comportamos, julgamos e interpretamos o mundo foi moldada por tudo que nos aconteceu no passado. O mesmo se aplica aos seus personagens. Suas experiências passadas definem a essência de quem eles são no momento em que a história começa. Mas é importante lembrar que não definem tudo.

Por exemplo, digamos que personagem A e personagem B tiveram uma infância muito difícil. O personagem A se tornou recluso e negativo, enquanto o personagem B se tornou extrovertido e otimista. Pessoas diferentes reagem de modos diferentes à mesma situação. Decidir se seu personagem será como A ou B (ou C ou D) é um dos primeiros passos para começar a desenvolver sua personalidade e identidade.

Para ajudar você nesse processo, use seu próprio passado como referência. Pense na pessoa que você é hoje, na forma como você pensa, sente, se relaciona, se comporta, julga e interpreta o mundo, e reflita sobre como você foi influenciado por acontecimentos e pessoas do seu passado.

Depois, faça esse mesmo exercício com seu personagem. Tente pensar nos momentos e relacionamentos mais importantes de sua vida. Pense em como isso transformou ele na pessoa que ele é hoje.

Contexto de Vida Presente

Quem o seu personagem é no momento presente é o ponto de partida da história e define como o enredo vai se desenvolver. Se você imaginá-lo em uma linha do tempo, ele se encontra precisamente entre suas experiências passadas e seus desejos para o futuro.

Ou seja, o personagem é no presente diferente do quem foi no passado, de quem deseja ser no futuro, e de quem ele será no final da história. Este personagem do presente é o que dá uma dimensão para o leitor de como interpretar as experiências de vida do personagem e seus desejos e objetivos durante a narrativa.

Não existe uma única forma de se criar um protagonista, mas há certos pontos que, quando ignorados, possivelmente resultarão em um personagem clichê e inverossímil.

Lembre-se que personagens são pessoas e não existe absolutamente ninguém que consiga agradar a todo mundo. Seu objetivo, portanto, não é criar um protagonista que agrade a todo e qualquer leitor, mas sim criar um personagem que se pareça com uma pessoa de verdade, com qualidades e defeitos, assim como você e qualquer outra pessoa.

Muitos escritores, na tentativa de despertar no leitor admiração pelos protagonistas de suas histórias, só lhe dão qualidades. Como resultado, não empatizamos ou nos identificamos com esses personagens.

É importante que você atribua certos defeitos e limitações para seu protagonista. Esses defeitos e limitações precisam ter consequências reais na sua vida, pois são essas inabiliades e inadequações do personagem que servirão de contexto para o desenvolvimento de conflitos  na história.

Desejos para o Futuro

Sabe aquele enredo mal desenvolvido que você escreveu há milênios e não sabe como continuar por não conseguir imaginar o que pode acontecer na sequência? Grandes chances de que seu problema está no fato de você não ter considerado os desejos para o futuro do seu personagem.

Quando comecei a escrever meu livro, há mais de seis anos, confesso que não fazia a menor ideia para onde a história estava indo. Fui escrevendo e, ao mesmo tempo, rezando por um milagre que me indicasse que rumo dar para a narrativa.

Esse milagre, obviamente, não aconteceu. A falta de planejamento fez com que a primeira versão do meu projeto chegasse a apenas cinco capítulos. Só dois anos depois, quando analisei o enredo, foi que percebi o que estava me impedindo de continuar.

Ainda que eu soubesse qual era o conflito da história, minha protagonista não tinha um objetivo. Ela tinha sido literalmente arrastada para uma aventura pela vontade de outros personagens. Só depois que entendi a motivação dela para se envolver com o que estava acontecendo com esses outros personagens que consegui desenvolver o enredo. Essa consciência do objetivo da protagonista transformou a história por completo, me ajudando na criação de novos personagens e subenredos.

Não entender os objetivos e as motivações dos seus personagens é não entender o motor da sua história. E sem entender o motor da sua história, você não conseguirá desenvolver um personagem complexo e, como consequência, um enredo envolvente.

 

Sobre a autora: Neo Laveroni cria histórias desde que se lembra e as espalha pela internet desde que tinha 14 anos. Nas (várias) horas vagas que tem escreve para seu blog literário Chimeriane e para sua versão do Tumblr, Ápice de Pandora. Fã de fantasia, ainda tem que terminar seu primeiro livro.

Sobre o Autor

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Hermes 30/10/2016

    Excelente texto, obrigado por disponibilizar este site, no qual, me ajudou muito! 🙂

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