Aprenda a criar realidades com palavras

Qual o potencial de leitores da sua história?

Por Shawn Coyne em 22/02/2015 Tópicos: escrever, storytelling, técnicas
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Se criássemos um gráfico para representar visualmente todas as histórias que já foram contadas, como ele seria?

Isto é o que penso. Esse gráfico teria uma aparência muito parecida com outros fenômenos naturais, tais como a distribuição de alturas entre seres humanos, ou tipos sanguíneos, ou o tamanho do sapato das mulheres.

O gráfico teria a aparência de uma Curva de Gauss, em estatística o que é chamado de Distribuição Normal (ou Distribuição Gaussiana). Acredito que isso faz sentido porque histórias são tão naturais para ser o humano quanto ar e água.

Para que possamos mapear histórias, entretanto, a primeira coisa que precisamos definir é como avaliá-las, correto? […] [Para este propósito], vamos apenas considerar dois critérios. Que tal avaliarmos a popularidade geral e o apelo comercial da história ao longo do eixo vertical, ou eixo Y, contra a variedade de estruturas narrativas no eixo horizontal, eixo X?

Quanto mais acima do eixo Y você vai, mais apelo a história terá para um grande número de pessoas. Ou seja, o eixo Y reflete a popularidade relativa de uma estrutura de história particular. Quanto mais alta a dimensão vertical, mais pessoas irão comprar/assistir/ler a história. Simples.

Vamos fazer ou eixo X (horizontal) representar as três estruturas principais de histórias: Arco Dramático, Minimalista e Antiestrutura.

No meio, vamos colocar a estrutura clássica mais antiga, a que existe desde os tempos em que nós começamos a desenhar nas paredes das cavernas caçadores perseguindo suas presas: a estrutura de Arco Dramático. No lado esquerdo do eixo X, vamos colocar a estrutura Minimalista e no lado direito, a Antiestrutura. Da esquerda para a direita no eixo X, uma história muda suas características de puramente minimalista para puramente de Arco Dramático para puramente Antiestrutura.

Quanto mais você se movimenta da esquerda para a direita […], mas se afasta das características das histórias da estrutura anterior.

Veja uma representação visual desta ideia abaixo.

potencial-leitores-historia

Recomendo que você considere onde sua história se localiza nesta curva. Uma vez antes e uma vez depois de escrever um primeiro rascunho da sua história.

Sua narrativa é puramente de arco dramático? Ou seja, seu protagonista enfrenta principalmente forças externas de antagonismo, sem nenhum conflito interno atormentando ele? Algo como o filme “Matar ou Morrer”? Ou a narrativa é puramente minimalista? Ou seja, o conflito interno que atormenta o protagonista é tão intenso que ele se nega a lidar com mundo real? Algo como o filme “Leaving Las Vegas”?

Você poderia alterar o foco da sua história para encontrar um meio termo entre suas ambições literárias de mergulhar nas profundezas das angústias humanas e um enredo externo que poderia alcançar uma audiência maior? Algo como o filme “O Silêncio dos Inocentes”?

É importante considerar o apelo potencial da estrutura de história que você está escrevendo. Entender onde sua narrativa se localiza na Curva das Histórias vai ajudar você a encontrar um espaço no mercado editorial onde você se sinta confortável.

Conhecer a diferença entre gêneros de conteúdo e gênero de estrutura vai tornar o processo muito menos dolorido mais tarde.

Se você sabe de antemão que a audiência potencial da sua história é pequena, não vai se desesperar se o seu livro não entrar para uma lista de mais vendidos. Ao invés disso, você vai ficar satisfeito se encontrar um pequeno grupo de pessoas que se apaixonem pela sua história. Um grupo seleto que entendeu suas intenções literárias e aprecia a forma como você as executou no texto.

[…]

Geralmente, os gêneros de conteúdo externo (ação, horror, crime, triller, amor, performance, sociedade, guerra,western) se localizam no meio da Curva das Histórias, enquanto os gêneros de conteúdo interno (visão de mundo, moralidade, status) tendem a se mover para as partes mais baixas da curva, onde se encontram a estrutura Minimalista e a Antiestrutura.

Quando você mistura gêneros externos e internos, e quando você faz isso bem, vai perceber que sua história atrai audiência dos dois lados do gráfico. Você também vai criar sinergia na narrativa, fazendo o todo exceder a soma de suas partes.

Entretanto, não importa o quão incrivelmente bizarra uma história com Antiestrutura seja, seu potencial de audiência é pequeno.

Isso não é um problema, contanto que você esteja consciente desse fato antes de começar escrever. Charlie Kaufman não escreve roteiros que ele espera que vão fazer mais de 100 milhões de dólares na primeira semana de exibição. Então quando seu filme não faz essa quantidade de dinheiro, ele não se decepciona.

Se você está escrevendo histórias buscando revelar idiossincrasias e você percebeu que muitos dos leitores do seu trabalho simplesmente não entendem, não se preocupe. Mas também não espere aparecer no topo da lista de mais vendidos do The New York Times.

Além de administrar suas próprias expectativas, entender onde sua história se localiza na Curva das Histórias vai dizer para você para quem seu trabalho será eventualmente vendido e porque. Esse conhecimento também vai preparar você para vender sua história para uma editora ou um grupo selecionado de leitores. Mas acima de tudo, saber isso vai ajudar você a encontrar a melhor forma de expressar o que você quer expressar com seu texto.

Por exemplo, a princípio você talvez pense que o gênero terror seja o que melhor vai ajudar você a expressar sua ideia-chave e tema sobre a natureza traiçoeira das mídias de massa. Mas depois de repensar sobre o que realmente é necessário para esse tipo de história ter impacto, talvez você decida que, ao invés disso, sua história seria melhor beneficiada se você a estruturasse como um romance político social. […]

Conhecer as possibilidades e as limitações de cada gênero vai focar sua energia e apontar exatamente onde sua história tem mais potencial de se desenvolver.

Vale ressaltar que nenhuma história nunca está alinhada perfeitamente com a estrutura de apenas um gênero e, como diz o princípio de incerteza de Heisenberg, quanto mais você analisar e tentar classificar uma história, mais difícil será compreendê-la.

Lembre-se também que as estruturas e seus gêneros de conteúdo correspondentes com potencial para alcançar grandes audiências são também as mais difícil de inovar. É por isso que histórias de ação são tão cobiçadas em Hollywood. É quase impossível reinventá-las […].

 

Shawn Coyne autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

 

Sobre o Autor

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Shawn Coyne é editor e co-fundador da editora Black Irish Books. Em seu livro "The Story Grid" ele apresenta técnicas desenvolvidas nos seus 25 anos de carreira para ajudar escritores a se tornarem seus próprios editores. O escritor autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Um escritor tem algo a dizer sobre este texto

  1. Patricia 10/08/2016

    Oi, estou adorando o seu site e dissecando tudo! Parabéns e obrigada pelo excelente trabalho.

    Pode me dar a sua opinião, por favor?

    Eu comecei a escrever agora, mas já penso nesse personagem há muito tempo, já preenchi mais de trinta páginas, mas sempre que releio penso em mudar várias coisas e não consigo ter ideia do que outra pessoa acharia da forma como estou escrevendo.

    Então agora eu tenho feito assim, na tentativa de não deixar a história maçante, eu tenho escrito as cenas isoladamente, quando vou tendo uma ideia, vou desenvolvendo aquela cena, sendo que muitas delas foram baseadas nas suas explicações, como por exemplo, elaborar um conflito para o personagem, muito obrigada por isso! Porque eu sabia o que queria escrever, mas não sabia como seguir, como fazer ele superar( ou não aquilo) e sua ideia de criar um conflito me ajudou a dar continuidade. Enfim, minha dúvida atual é, escrever assim, cenas aleatórias à medida que as ideias vão surgindo e só depois contextualizar tudo( claro, fazendo modificações para encaixar na historia ou até mesmo eliminando algumas cenas) está errado? Eu devo escrever seguindo a ordem cronológica?

    Muito obrigada, mesmo!

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