Aprenda a criar realidades com palavras

O que passou, queimou.

Por Diego Schutt em 31/12/2014 Tópicos: dicas
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Quando Tomás chegou em casa do trabalho, encontrou Natália sentada no sofá, hipnotizada pelo fogo na lareira.

“Oi linda. Como foi seu dia?”

Ela não respondeu. Permaneceu imóvel, as mãos sobre a caixa de sapatos preta em seu colo, os olhos fixos na madeira virando fumaça. Tomás virou o rosto para esconder o sorriso. Em seguida, sentou-se ao lado dela. Encarou a lareira por alguns segundos, curioso para entender o que atraía um olhar tão concentrado. Finalmente, virou-se na direção dela. A luz alaranjada das chamas piscava sobre a expressão comprimida de Natália. Era ainda mais linda irritada. Por isso mesmo, Tomás fingiu esquecer o aniversário de namoro.

Quando tentou lhe dar um beijo, ela tirou a boca para o outro lado e empurrou o rosto dele para longe, como um tapa em câmera lenta. 

Tomás sentiu o estômago queimar. Ela nunca havia o rejeitado daquele jeito. A possibilidade de Natália o amar um pouquinho menos embaçou sua visão. Era entusiasticamente absolutamente devotadamente apaixonado por ela. Se arrependeu por levar a brincadeira longe demais, mas estava seguro de que a noite romântica que havia planejado apagaria toda irritação queimando nos olhos dela.

“Feliz um ano de namoro amor,” ele disse em tom de desculpas.

Tirou do bolso do terno uma caixinha verde água e a sacudiu em frente ao rosto petrificado da namorada. Ela piscou macio e,  sem pressa, retirou a tampa da caixa preta sobre seu colo. Pegou um álbum de fotografias e começou a folheá-lo com delicadeza, ainda encarando o fogo na lareira.

“O que é que tem Natália? São fotos com uma ex namorada.” 

Tomás estica o braço para pegar o álbum, mas ela o atira no chão e pega outro de dentro da caixa. Agora folheava as páginas com tapas.

“É outra ex. Qual é o problema, Natália?”
“Eu sei que é uma ex. E aqui tem uma outra ex também,” ela disse lançando o álbum no chão e pegando outro. “E mais outra aqui. E mais outra aqui…”
“Amor, eu sei que você está irritada porque acha que esqueci nosso aniversário. Foi brincadeira. Eu só queria… desculpa.”
“Tá guardando essas fotos aqui pra que?”
“Como assim pra que? Sei lá, pra lembrar do passado. Esquece isso, amor. Vamos aproveitar nosso dia. Eu te amo, minha linda.”
“E pra que você quer lembrar do passado com suas ex-namoradas?”
“Não. É sério isso, Natália?”
“É sério que você me ama?”
“Lógico que é.”
“Então queima todas essas fotos. Agora.”
“Natália, amor, olha para mim. Você sabe que é a mulher da minha vida.”
“Será que sei mesmo?”
“Que diferença faz eu queimar ou não queimar essas fotos? Estou contigo agora. Só quero estar contigo.”
“A diferença é bem simples. Você queima, você tem uma namorada. Você não queima, não tem.”

Era o primeiro relacionamento de Tomás que havia durado um ano inteiro. Não sabia direito o que era amor, mas não podia ser aquilo. Natália estava exagerando. O que estava pedindo era um absurdo, um abuso. Exigindo que ele vandalizasse seu passado por ciúmes de tinta impressa em papel.

Qualquer outra namorada tivesse colocado ele contra a parede daquele jeito, escolheria as fotos sem pensar. 

Mas estava convicto que Natália era para vida toda. Nenhuma lembrança era valiosa o suficiente para colocar em risco a possibilidade de um futuro ao lado dela.

“Tá bom. Pode queimar. Queima tudo.”
“Não. Quero ver você jogar as fotos no fogo,” ela disse oferecendo a caixa com os álbuns.

Tomás não sabia se o que via nos olhos de Natália era paixão ou loucura. Fosse o que fosse, sentiu o ego enrijecendo. Era excitante ser desejado com tanta intensidade. Puxou a caixa das mãos dela, se aproximou da lareira e, um a um, jogou os álbuns no fogo. Janaína, Cristiane, Paula, Michele, Renata…

Natália levantou do sofá, pegou a bolsa e marchou em direção à porta.

“Onde você vai? To queimando tudo, como você pediu. O que mais você quer?”

Ela parou, ajeitou o cabelo para atrás das orelhas e se virou na direção de Tomás.

“Quero que você queime todas as nossas fotos também. Quero que você esqueça o que a gente viveu juntos. Quero recomeçar nossa história do zero todos os anos, nesse mesmo dia. Quero comemorar nosso aniversário de namoro com inquietação, ansiedade e tensão. Quero que você me encontre no bar onde a gente se conheceu em uma hora e me conquiste de novo.”

E saiu deixando abertas a porta do apartamento, a boca de Tomás e o final da história.

Sobre o Autor

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Fátima 03/01/2015

    Gostei muito do seu estilo… tão “clean!” e tão sensível e profundo ao mesmo tempo, além de engraçado na dose certa.

    Acehei por acaso o sitio ficção em tópicos – como se coincidências existissem! (risos).

    Acredito que procuro inspiração.
    Me sinto inspirada neste momento! Obrigada.

  2. S. 03/01/2015

    Confesso que quando comecei a ler, quis parar no mesmo instante. mas fiquei curiosa pelo diálogo q vi mais pro fim, e simplesmente me surpreendi pelo final haha, vc é ótimo, obrigada por salvar mais um dia cheio de nada.

  3. Decio Elias 24/02/2015

    Criativo, bastante criativo; inspirador: claro, conciso e eficiente.
    Muito bom o texto. Pode ser um conto ou pode ser o “gancho” para um romance. A leitura valeu a pena. Origado.

  4. haroldo flavio 01/03/2016

    porra, que legal cara, eu rir de verdade, criativo, bacana, parabens

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