Aprenda a criar realidades com palavras

Qual a pessoa mais indicada para criticar suas histórias?

Por Steven Pressfield em 07/10/2014 Tópicos: escrever, inspiração, storytelling
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Trabalhei para uma agência de propaganda em Nova Iorque chamada Ted Bates. A agência estava sempre procurando por novos clientes.

Funcionava assim. O departamento de criação inteiro, cerca de 150 pessoas, era responsável por criar novas campanhas para o Buger King ou Seven-Up ou qualquer que fosse o cliente que a Bates estava querendo ganhar. […] Essas reuniões eram chamadas de “surubas” porque todo mundo participava. Elas aconteciam em grande salas de reunião ao redor de uma mesa que parecia sentar cem pessoas. […]

Alternadamente, cada equipe de criação (um diretor de arte e um redator) se levantava, fixava sua campanha na parede e defendia sua ideia. Qualquer um na sala poderia fazer comentários, ainda que o veredicto final fosse dado pelo diretor de criação.

Que lições aprendi nessas sessões?

Ninguém sabe de nada (parafraseando William Goldman no seu livro Adventures in the Screen Trade).

O que quero dizer com isso é que quando as pessoas opinavam sobre as campanhas, suas percepções eram radicalmente diferentes (Odiei! Amei!) e quase sempre erradas. Ficava evidente para todo mundo. Ainda que as pessoas opinando fossem profissionais muito bem pagos e do mais alto calibre, quase todos eles eram incapazes de avaliar objetivamente o material criativo.

Participei de pelo menos vinte dessas sessões que duravam o dia todo. Minha conclusão foi que das oitenta ou noventa pessoas comentando, não mais do que duas ou três eram observações relevantes que demonstravam compreensão da ideia. Foi uma experiência muito decepcionante.

Mais tarde, quando fui para Hollywood e comecei a receber comentários e avaliações críticas do meu trabalho de produtores executivos e outros profissionais, testemunhei um fenômeno idêntico. Ninguém sabe de nada.

O Ron Shusett, escritor com quem eu fazia parceria naquele tempo (“Alien,” “Total Recall”) costumava dizer (e ele estava absolutamente certo) “é incrivelmente raro encontrar alguém que consiga articular o que há de errado com seu roteiro, e dez vezes mais raro encontrar alguém que consiga articular como consertá-lo”.

Mas e se você é o escritor? E se for o seu trabalho? O quão difícil é você mesmo, objetivamente, avaliar sua própria história?

A tarefa, podemos perceber, é extremamente difícil até mesmo para um crítico imparcial. O quão mais difícil é para o próprio escritor, que inevitavelmente tem uma visão subjetiva sobre seu trabalho, que está praticamente apaixonado por ele (ou pelo menos com o tema que está sendo abordado, caso contrário ele não teria conseguido trabalhar duro como trabalhou para completá-lo), e que tem esperança, medo, aspirações e emoções (conscientes ou inconscientes) associadas ao sucesso de sua obra.

Como saber se sua história é boa?

Se ela é boa, o que exatamente é bom nessa história? Ela funciona? Por quê? Que partes funcionam e que partes não funcionam? Por quê?

Se não está funcionando, o que há de errado? Está tudo uma porcaria ou só uma parte? Que parte? Por quê?

Agora adicione Resistência a tudo isso. Você talvez recém tenha terminado de escrever o próximo “E o tempo levou”, mas aquela voz na sua cabeça segue dizendo para você colocar tudo no lixo. Você é péssimo. Esse livro está uma porcaria.

Está mesmo? Ou é apenas sua Resistência falando?

Por favor, não mostre seu trabalho para sua esposa ou marido. Isso é garantia de divórcio. Eles não são treinados para esse tipo de tarefa. Não coloque esse tipo de pressão sobre eles.

Qual é minha política quando pessoas me obrigam a ler suas histórias? Eu minto. Não 100% das vezes, mas eu minto muito. É necessário. Eu digo que a história delas é ótima. Elas sabem que estou mentindo? Claro que não. Elas estão tão desesperadas para escutar um elogio que acreditam em qualquer coisa.

Por que eu minto? Porque vou perder um amigo se eu falar a verdade. E francamente, eu, como todo mundo nas “surubas” da Ted Bates, sou um crítico de ideias cheio de defeitos. Eu também não sei de nada.

O que isso significa?

Significa que eu e você, como escritores, devemos ser extremamente cuidadosos ao avaliar os materiais de outras pessoas, e ainda mais meticulosos ao avaliar nosso próprio trabalho. Devemos ter consciência das nossas limitações e das limitações dos outros.

Parece tão fácil criticar, não é mesmo? Leia alguma coisa e me diga o que achou. Mas na verdade, é inacreditavelmente difícil e pouquíssimas pessoas conseguem fazê-lo.

Se você encontrar uma pessoa assim, leve ela com você para o resto da vida.

 

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

 

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. W.Watson 15/10/2014

    Muito bom. E eu que estava pensando em fazer minha mulher revisar meu futuro livro…

  2. Joelio Santos 15/10/2014

    Olá Diego, prazer em adicionar um comentário aqui… Diego, faz alguns meses que estou escrevendo uma história, acredite, nunca pensei que fosse tão “difícil”. Às vezes tenho medo de escrever – um medo esquisito de estragar a história. Mas o que mais me preocupa é se o que estou escrevendo é legal, muitos escritores falam que escrevem para “si mesmo”, bem, não sei que estarei sendo genuíno ao falar o mesmo, na verdade, quero mostrar para outras pessoas minhas histórias… Com objetivo de saber se o que estou escrevendo é legal, mostrei para para dois amigos a primeira parte do rascunho. Eles disseram que gostaram, no entanto, receio que tenham dito isto para não me deixar triste, embora eu os tenha perdido legitimidade na crítica. Obrigado, Diego Schutt. Seus textos são simplesmente indescritíveis!

  3. Diego Schutt 17/10/2014

    W. Watson, não há nada de errado em pedir que sua mulher revise sua história. Mas tenha em mente que, em função da natureza da relação de vocês, talvez ela não consiga ser objetiva na sua crítica. Também acredito ser importante que a pessoa quem vai comentar seu livro goste de ler o gênero que você está escrevendo. Se você escreveu um triller, o ideal é que você peça para alguém que se interessa por esse tipo de história para avaliar seu texto.

    Obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  4. Diego Schutt 17/10/2014

    Oi Joelio

    Minha interpretação do “escreva para si mesmo” é que você é o primeiro leitor da sua história, ou seja, você é a primeira pessoa que precisa gostar do que escreveu. Se você ficar satisfeito com seu texto, muito provavelmente outras pessoas parecidas com você também vão ficar.

    Obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  5. jonas maracajá de morais 22/10/2014

    Olá Diego,

    Descobri o Ficção em Tópicos recentemente e achei muito interessante. Sou um escritor iniciante, já inclusive publiquei um livro “Desejo Sombrio”, pelo sistema on demand. Há alguns dias li um post e se não me engano, escrito por uma senhora que revisava textos. acontece que não anotei o nome dela e nem o email. Estou com um livro pronto para ser revisado e analizado e gostaria muito de entrar em contato com ela. Se vc puder me informar esse contato eu agradeço.

    Um abraço e parabéns pelo site.

  6. Lilia 01/12/2014

    Olá ótimo texto, acredito que antes mesmo de você amostrar para alguém seu texto, é preciso você gostar do que escreveu primeiro. Se ficar satisfeito com seu trabalho com certeza muitos ficaram também. O importante é acreditar no que escreveu.

    Eu gosto de revisar textos de qualquer tipo, se quiserem uma revisão e opinião é só entrar em contato pelo meu email: liyy07@yahoo.com

    Obrigada!

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