Aprenda a criar realidades com palavras

Você conhece o lado negro da sua história?

Por Shawn Coyne em 31/10/2014 Tópicos: escrever, storytelling, técnicas
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Como você escolhe o tipo de história que quer contar?

Talvez você use a técnica do “E se… + Enredo”. E se terroristas atacassem durante os jogos do campeonato de futebol?

Talvez você use a técnica do “E se… + Personagem. E se o herói da minha história fosse um objeto inanimado?

Obviamente, você não terá uma história sem um enredo ou um protagonista. Mas existe alguma outra forma de gerar ideias e se inspirar para começar a escrever? Alguma técnica que ajude você a terminar seu primeiro rascunho?

Meu conselho para quem está quebrando a cabeça tentando desenvolver uma ideia de história é deixar o enredo e o protagonista de lado. Especialmente no início do processo de criação. Você vai ter tempo o suficiente para se angustiar com esses dois elementos no futuro. Enquanto você está explorando seu universo de ficção, esqueça disso.

Foque no lado negro da sua história.

O elemento mais importante de qualquer história de ficção são as forças antagônicas. Se você criar forças antagônicas bastante específicas, terá mais facilidade para decidir que gênero literário vai permitir a você explorar o potencial dramático do enredo.

A grande verdade é que os antagonistas e os tormentos subconscientes do protagonista determinam o sucesso ou fracasso da sua história.

Os leitores querem testemunhar a vida do protagonista nos limites mais extremos da experiência humana e isso só é possível quando ele enfrenta obstáculos que provocam seus medos internos e externos mais profundos.

Sim, eu sei que você vem se imaginando com o protagonista da sua história (provavelmente uma versão velada de você) desde que estava no jardim de infância. Não tem problema. Todos nós já fizemos isso. Mas agora é hora de deixar esses pensamentos de lado e fazer o trabalho sujo necessário para tornar sua história envolvente e interessante.

A verdade é que seres humanos adoram maldade. Somos fascinados por perversidade em todas as suas formas maravilhosas e aterrorizantes. Seu trabalho como escritor é criar um inferno original para seu protagonista, um que ninguém poderia imaginar. Quanto mais sinistro e poderoso for esse inferno, melhor.

Ninguém lê ou assiste “O Mágico de Oz” para ver a Dorothy. A gente quer ver a Bruxa Má do Leste. É ela quem não leva desaforo para casa. É ela quem tem domínio total sobre o seu mundo e faz o que for preciso para conseguir o que quer e manter-se no poder.  Se o L. Frank Baum, escritor desta história, tivesse criado uma bruxa mais ou menos má, ninguém se importaria. “O Mágico de Oz” certamente não teria se tornado um filme clássico.

Uma vez que você desenvolver o lado negro da sua história, o enredo vai praticamente se escrever sozinho.

Aceite todos os pensamentos ruins que você já teve, todas as frustrações que você enfrentou na sua vida, todas as fantasias sórdidas e mesquinhas que já passaram pela sua cabeça. Você consegue criar um plano envolvente a partir de uma delas? Um plano que um manipulador profissional poderia executar sem ser descoberto?

Foque e delimite essa fantasia, e dê vida a ela. Se você está escrevendo um livro de horror, você precisa de um monstro original. Se você está escrevendo um drama doméstico, você precisa de um membro na família que seja subversivo de uma forma original. Se você está escrevendo um mistério, pense no pior momento da sua vida, quando você literalmente quis matar alguém. Como você faria isso sem ser descoberto? Fantasie essa vingança na sua mente. Se lhe oferecessem um milhão de dólares por um plano perfeito para matar alguém e não ser descoberto, o que você recomendaria?

Faça seu protagonista enfrentar as piores coisas que você puder imaginar. Não use ideias que você já viu em seriados de tv ou em filmes. Use maldades que você pensou em  momentos de ira. Deixe seu lado negro ganhar vida na narrativa. Uma vez que você desenvolver o antagonista da história, o protagonista vai, por necessidade, ganhar importância e ficar mais forte. Se ele conseguir enfrentar e superar o pior que você puder imaginar, esse personagem vai ser inesquecível.

Lembre-se que as forças de antagonismo tem duas dimensões, externa (concreta, visível) e interna (abstrata, invisível). As melhores histórias, aquelas que levamos para toda vida, fazem o protagonista enfrentar tanto obstáculos externos quanto demônios internos. Vai levar bastante tempo para você encontrar as forças de antagonismos certas para sua história, mas uma vez que você as encontrar, todo seu esforço vai valer a pena.

 

Shawn Coyne autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

 

Sobre o Autor

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Shawn Coyne é editor e co-fundador da editora Black Irish Books. Em seu livro “The Story Grid” ele apresenta técnicas desenvolvidas nos seus 25 anos de carreira para ajudar escritores a se tornarem seus próprios editores. O escritor autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Gabriel 13/11/2014

    Incrível, nunca tinha pensado por esse lado. Mas meio que tem sentido com a vida real.
    Nós, protagonistas de nossas vidas, não devemos nos limitar ao nosso mundinho, temos que compreender os desafios, tormentos internos e as dificuldades que passamos todos os dias.
    Precisamos entender que somos apenas um grão de areia frente ao sistema que nos é imposto através de leis e decretos, para poder superar os desafios da vida.

    Quando lia este artigo, identifiquei muitas similaridades com a vida real. Ótimo texto!
    Muito bom voltar aqui. Fazia tempo que não visitava seu blog.

  2. Karoline 15/11/2014

    Você não faz ideia do quanto esse texto me ajudou.
    Muito obrigada, cara.

  3. Wlange Keindé 19/11/2014

    Adorei o artigo! Foi muito útil para mim, me fez refletir sobre as histórias em geral e sobre os acontecimentos que ainda vou escrever no meu romance atual.
    Realmente, meus romances e contos favoritos são aqueles que de algum modo exploram a dor, seja física ou psicológica. Tem algo na dor, no sofrimento, na angústia, tem algo aí que inexplicavelmente nos atrai. Isso me lembra Heidegger.

  4. Nelly Ramos 04/03/2015

    Gente amei a dica! Pra mim ficou mais facil agora!

  5. miriã 14/08/2015

    legal demais

  6. Luiz Carlos 01/05/2016

    Uma vez eu cheguei a essa mesma conclusão. Jogos vorazes se tornou um sucesso porque Katniss Everdeen enfrenta um verdadeiro inferno que são os jogos pois sempre queremos ver como ela vai escapar de tal situação. Forças antagônicas tornam os protagonistas interessantes.

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