Aprenda a criar realidades com palavras

Storytelling e a arte de navegar informações em busca de sabedoria

Por Diego Schutt em 26/09/2014 Tópicos: escrever, inspiração, storytelling
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Qual é o papel dos storytellers (contadores de histórias) no mundo? Com essa pergunta em mente, Maria Popova, do Brain Pickings, nos mostra a diferença entre informação, conhecimento e sabedoria, examinando o trabalho importante das pessoas que nos ajudam a navegar um mundo cada vez mais confuso e intimidante. Artigo original em inglês disponível aqui. Abaixo, minha tradução livre.

Após o texto, um vídeo com uma animação super bacana do ensaio da Maria Popova (também em inglês).

Vivemos num mundo inundado de informação, mas parecemos estar enfrentando uma escassez de sabedoria. E o que é pior, nós confundimos as duas. Acreditamos que ter acesso a mais informação resulta em mais conhecimento, que resulta em mais sabedoria. Mas o oposto é verdadeiro – mais e mais informação sem um contexto adequado e sem interpretação somente confunde nosso entendimento do mundo ao invés de enriquecê-lo.

Esse constante bombardeamento de informação criou um ambiente onde um dos piores pecados é parecer desinformado. Em nossa cultura, é extremamente vergonhoso não ter uma opinião sobre alguma coisa, e para parecermos informados, formamos nossas ditas opiniões apressadamente, baseados em fragmentos de informações e impressões superficiais, ao invés de um verdadeiro entendimento.

“Conhecimento”, Emerson escreveu, “é saber que não podemos saber”.

Para compreendermos a importância disso, primeiro precisamos definir esses conceitos como uma escada de compreensão.

Na base dessa escada estão as informações, que simplesmente nos passa algum fato básico a respeito do mundo. Acima disso está o conhecimento – o entendimento de como diferentes informações se encaixam para revelar alguma verdade sobre o mundo. Conhecimento depende inteiramente do ato de correlação e interpretação. No topo da escada está sabedoria, que tem um componente moral – é a aplicação de informações importantes e de conhecimento de valor para compreender não apenas como o mundo funciona, mas também como ele deveria funcionar. E isso requer uma estrutura moral [que aponta] o que deve e o que não deve importar, além de um ideal de como o mundo poderia ser no seu potencial máximo.

É por isso que os storytellers são ainda mais valiosos hoje em dia.

Um grande storyteller – seja ele um jornalista ou editor ou cineasta ou curador – ajuda as pessoas a descobrir não apenas O QUE importa no mundo, mas também PORQUE isso importa. Um grande storyteller tem energia para subir a escada da compreensão, da informação para o conhecimento para a sabedoria. Através de símbolos, metáforas e associações, o storyteller nos ajuda a interpretar informação, integrá-la com nosso conhecimento atual e transmutar isso em sabedoria.

Susan Sontag uma vez disse que “ler impõe padrões de qualidade”. Contar histórias não só impõe padrões de qualidade, mas quando feito com competência, nos faz querer honrá-los, transcendê-los.

Uma grande história, então, não tem como objetivo fornecer informações, ainda que ela possa certamente informar – uma grande história convida uma expansão da compreensão, uma transcendência pessoal. Mais do que isso, ela planta a semente dessa expansão e torna impossível evitar o crescimento de uma nova compreensão – do mundo, do nosso lugar nele, de nós, de algum aspecto sutil ou monumental da existência [humana].

Em tempos onde informação é cada mais barata e sabedoria cada vez mais cara, nessa lacuna [entre os dois extremos] é onde vive o storyteller moderno.

Eu penso desta forma.

Informação é ter uma biblioteca de livros sobre construção naval. Conhecimento aplica isso na construção de um navio. Acesso à informação – aos livros – é um pré-requisito para o conhecimento, mas não uma garantia dele.

Uma vez que você construir seu navio, sabedoria é o que permite a você navegar sem afundar, a proteger o navio de tempestades que avançam do horizonte no final da noite, a posicionar o navio no lugar preciso onde o vento dá vida para as velas.

Sabedoria moral ajuda você a entender a diferença entre a direção certa e a direção errada na condução do navio.

Um grande storyteller é o capitão gentil que conduz seu navio com tremenda sabedoria e coragem infinita, que aponta o navio na direção de horizontes e mundos escolhidos com idealismo e integridade resolutos, que nos aproxima da resposta, nossa resposta individual, para a grande questão: por que estamos aqui?

 

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Diogo 27/09/2014

    Olá Diego!

    Primeiramente quero parabenizar o seu site!!!
    Está me ajudando muito para escrever o meu primeiro livro.

    Este comentário não tem relação com o texto, pois o que eu gostaria de saber é se há algum livro, texto, material que fale sobre como estruturar uma trama. Digo isso porque os capítulos iniciais da minha história tem muita ação e até consigo justifica-los, mas gostaria de tentar criar algo mais inteligente, com reviravoltas, surpresas, intrigas, suspense, mistério e etc (não sei se essa dificuldade é só minha).

    Para tentar fazer algo estou lendo livros de estratégias e a própria história de civilizações mais antigas, além de filmes (como os pilares da terra) e talz…

    Mas neca, não me vem nadica de nada.

    Se tu tiveres alguma dica para passar eu ficarei muito feliz.

    Valeu!!!

  2. Author
    Diego Schutt 17/10/2014

    Oi Diogo

    Eu sugiro que ao invés de pensar e reviravoltas, surpresas, intrigas, suspense e mistério, que você se concentre em pensar na história que você quer contar. Quem é o protagonista desta história? O que ele quer alcançar? O que está impedindo ele de alcançar o que deseja? As respostas para essas perguntas vão ajudar você a desenvolver sua ideia de história. A partir daí, as reviravoltas, surpresas, intrigas, suspense e mistério vão aparecendo com mais naturalidade, baseadas na trajetória do personagem para alcançar seu objetivo.

    Dá uma olhada nestes artigos:
    Dica 100: Estabeleça a linha de ação da história.
    O eixo central de toda história de ficção
    Como usar a Jornada do Herói para escrever histórias de ficção?

    Eles vão ajudar você a estruturar sua história.

    Espero que ajude.
    Boa sorte com seu livro.
    sds
    Diego

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