Aprenda a criar realidades com palavras

5 habilidades fundamentais de um bom escritor de ficção

Por Diego Schutt em 19/09/2014 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling
15
292

Dentre as centenas de textos que meus alunos produziram no curso/oficina Jardineiro de Ideias, muitos se destacaram porque o escritor demonstrou pelo menos uma das habilidades mais importantes que todo desbravador de universos de ficção precisa desenvolver.

Abaixo, descrevo essas habilidades, digo para que servem na prática e dou sugestões de como desenvolver cada uma delas.

1. Intenção

Escrever livremente para dar vazão a pensamentos, sensações e ideias é um exercício excelente de expressão e autoconhecimento. Para contar uma boa história, no entanto, você precisa ir além do registro dos seus impulsos criativos. Em algum momento do processo de criação, pense sobre sua intenção e sobre que ideias você está tentando expressar com seu texto.

  • Para que serve na prática

Decidir que informações são importantes incluir na história e quais são dispensáveis.

  • Como desenvolver essa habilidade

Releia sua história e procure entender que impressão sobre os personagens você está causando em cada passagem do texto. Revise e edite o que escreveu tendo em mente a reação/pensamento/atmosfera/emoção que você espera evocar em cada cena. Considere como a forma que você desenvolveu a narrativa está ajudando e atrapalhando você a alcançar seu objetivo.

2. Improvisação 

Escrever tendo consciência da sua intenção para incluir cada frase pode resultar em um texto engessado demais. Encontre um equilíbrio entre escrever com um objetivo específico em mente, para intensificar a dramaturgia da história, e escrever de improviso, deixando seu impulso criativo livre para explorar possibilidades dentro do contexto do universo de ficção que você está criando.

  • Para que serve na prática

Escrever de forma mais espontânea e encontrar rumos inesperados para o enredo da sua história.

  • Como desenvolver essa habilidade

Desapegue da ideia de escrever um texto pronto na primeira tentativa. Encare suas sessões de escrita como exercícios de investigação. Não julgue o que você está escrevendo ao mesmo tempo em que escreve. Use suas ideias e inspirações como ponto de partida para começar a desenvolver um texto e mantenha a mente aberta para levar sua história por caminhos que você não havia considerado.

3. Mente Perceptiva

Para escrever histórias originais, o escritor precisa aprender a olhar para o óbvio e ver algo diferente, desenvolver sensibilidade para interpretar comportamentos, falas e situações, indo além do que é superficial e senso comum. Aprenda a navegar na área cinza entre os extremos do certo e errado, justo e injusto, moral e imoral, amor e ódio, bom e mau, normal e bizarro.

  • Para que serve na prática

Escrever textos menos superficiais, que ofereçam uma perspectiva original sobre o tema da história.

  • Como desenvolver essa habilidade

Investigue o que está por trás das aparências, do que é visível, do que está sendo dito. Considere as motivações ocultas e secretas das pessoas para dizer o que dizem e fazer o que fazem. Esqueça temporariamente das suas certezas absolutas sobre a vida. Considere como certas situações poderiam ser interpretadas de uma forma menos crítica, radical e definitiva.

4. Empatia

Para criar personagens que não sejam apenas variações sutis de sua própria personalidade, o escritor precisa aprender a compreender a perspectiva de pessoas de quem ele discorda. Sempre considere diferentes pontos de vista sobre uma situação e procure entender como outras pessoas pensam e se sentem. Empatizar é experimentar o mundo com a realidade, as motivações e as emoções de uma outra pessoa. É o que a gente faz como leitor e é o que você precisa aprender a fazer como escritor.

  • Para que serve na prática

Criar personagens mais humanos e verossímeis.

  • Como desenvolver essa habilidade

Procure escutar com a mente aberta os argumentos de pessoas de quem você discorda e tente entender lógicas de raciocínio diferentes da sua. Ainda que você discorde fundamentalmente de alguém, aprenda a dar sentido aos comportamentos e opiniões dessa pessoa dentro do contexto da vida dela.

5. Consciência Emocional

Um escritor com consciência emocional entende a conexão e inter-relação entre suas emoções e comportamentos, mesmo quando eles parecem contraditórios. Raros são os momentos em que dizemos para outras pessoas a verdade sobre o que estamos realmente sentindo e pensando. Ao invés disso, expressamos nossas emoções de forma indireta. Consciente disso, você pode criar personagens que reagem de forma mais humana.

  • Para que serve na prática

Criar personagens menos melodramáticos e mais imprevisíveis.

  • Como desenvolver essa habilidade

Releia sua história e preste atenção aos momentos onde os comportamentos dos personagens estão perfeitamente alinhados com o que eles estão dizendo. Choro não é a única forma de demonstrar tristeza. Grito não é a única forma de expressar raiva. Não entregue tudo mastigado para o leitor. Inclua uma camada de subtexto na sua história, encontrando formas peculiares de mostrar o que os personagens estão realmente pensando e sentindo. Instigue a curiosidade do leitor criando contraste entre as ações e emoções dos personagens.

 

E você? Qual dessas habilidades você mais precisa desenvolver? Deixe um comentário.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

15 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Alexandre 20/09/2014

    Cada vez mais tenho vontade de me tornar um aluno seu, Diego! Um dia ainda farei o curso do Jardineiro de Ideias, mas enquanto esse momento não chega, continuou tentando desenvolver minha escrita por conta própria.
    Uma das formas que achei de conseguir fazer isso é escrevendo contos. Eu tinha uma ideia muito limitada do que era escrever e só me focava em histórias longas, como se elas fossem ser mais gratificantes do que uma curta. A partir do momento em que deixei essa inferência de lado e escrevi meu primeiro conto, percebi que produzir uma história curta é igualmente tão prazeroso.
    Não deixando o texto da página de lado, acho que ainda tenho dificuldade principalmente no quinto ponto.

  2. Author
    Diego Schutt 20/09/2014

    Oi Alexandre

    Muitas pessoas compartilharam comigo uma experiência parecida. Costumo recomendar para quem está dando seus primeiros passos como escritor a começar pequeno. Tentar escrever um livro antes de conseguir escrever um conto é receita para ansiedade e frustração. Fico feliz em saber que você descobriu o prazer das histórias curtas. 😉

    Fico ansioso aguardando a sua participação no Jardineiro de Ideias.

    Grande abraço
    Diego

  3. Lucas Rodrigues 23/09/2014

    Peco muito na descrição física tanto de personagens como de ambientes. Não sei como melhorar isso. Abraços

  4. Raquel 23/09/2014

    Estou navegando pelo site e cada vez mais me apaixonando pela ideia de escrever!

    Gosto muito de ler livros de ficção e já venho pensando em escrever um. Só que, ao tentar iniciar, me senti tremendamente perdida. Foi então que escrevi no google “como escrever um livro” e encontrei o ficção em tópicos. Estou acompanhando as dicas e, futuramente, pretendo iniciar o curso.

    Obrigada, Diego!

  5. Fabrício 25/09/2014

    A quinta habilidade é a que acho mais difícil.

  6. Raquel 26/09/2014

    Bem, Fabrício, esta 5ª habilidade vai exigir um pouco de prática da sua parte. Como eu amo psicologia e estou sempre antenada com tudo desta área já devo estar “meio caminho andado” nessa direção.

    Como o Diego falou, comece a ler livros e artigos de Psicologia. Conheça-se melhor e conheça melhor os outros. Aprenda a se compreender e compreender o próximo. É um exercício que você terá de fazer sempre, mas relaxa que depois de um tempo vira hábito 🙂

  7. Anna 16/10/2014

    Olá Diego!

    Primeiramente, que artigo maravilhoso! Sucinto e objetivo. Acabo de descobrir seu site e estou encantada por ele 🙂

    Bom, minha maior dificuldade está no número 2. De fato, meus textos favoritos são os que eu escrevi despreocupadamente, mas raramente consigo desligar minha mente do perfeccionismo e deixar que a subjetividade fale por mim. A ânsia por escrever algo “fenomenal” acaba vencendo na maioria das vezes. Mas reconheço este deslize e estou trabalhando para corrigi-lo.

    Parabéns e obrigada por esse espaço! Abraços.

  8. Author
    Diego Schutt 17/10/2014

    Oi Anna

    Que bacana que você gostou do artigo. 🙂

    Entendo bem essa dificuldade de deixar o perfeccionismo de lado. É uma das reclamações que mais ouço de outros escritores e é uma dificuldade que também tenho. Eu acredito que quando a gente consegue passar por cima do nosso ego (que quer aplausos e reconhecimento dos outros), conseguimos escutar com mais clareza as histórias que nossos personagens querem contar e nos sentimos mais confiantes para deixar nosso instinto tomar conta do processo de criação.

    Muito obrigado pelo comentário e seja bem-vinda ao Ficção em Tópicos.
    abs
    Diego

  9. katiane 17/10/2014

    Olá Diego, é incrível como cada vez que leio seu site sinto vontade de deixar um comentário, é como se me sentisse acolhida por ainda não conseguir escrever ótimos textos mas saber que sentir isso é normal, afinal, todos aqui de certa forma estão passando pelos mesmos dilemas internos que eu. Seus textos são de ótima valia, ainda participarei de seu curso online com grande prazer.

  10. Author
    Diego Schutt 22/10/2014

    Oi Katiane

    Que bom que você se sente acolhida aqui no Ficção em Tópicos. Minha intenção com o site é exatamente essa. Nós, escritores, temos muitas dificuldades parecidas. Conversar sobre elas pode nos ajudar a abrir nossa mente para possíveis soluções, que nos permitam seguir escrevendo com prazer.

    Obrigada pelo comentário e espero jardinar algumas história com você em breve. 🙂

    abs
    Diego

  11. Edecildo 01/11/2014

    Ótimas e sinceras dicas! Parabéns pela sabedoria e generosidade.
    Me deu muita vontade de voltar a desenvolver minhas quase vinte sinopses, mesmo sem estar com tempo. (Trabalho, blogs, extremo consumo cultural/científico).
    Salvei em “Favoritos” para virar freguês…

  12. Jaleel Barroso 04/01/2015

    O 5 eu me esforço todo dia, mas aos poucos to me esforçando para escrever de improviso. Porque sempre que estou escrevendo tenho em mente que deve ser algo “incrível”, sei que auto-estima é bom, mas isso atrapalha.

  13. Natan Rodrigues 06/08/2015

    Olá Diego.Gostaria de saber sua opinião sobre suspense e terror juntos. Você acha que pode dar certo? Estou escrevendo uma história e nela coloquei os dois. Me de umas dicas do que posso fazer. Obrigado…

  14. Camila 24/08/2015

    Tô em vias de terminar meu primeiro livro e como exercício diário, mantenho um blog para treinar minha escrita. Lá publico pequenos contos e crônicas. Mas o bendito primeiro livro ficou um pouco de rosca nas últimas semanas. Enfim, retornei a ele ontem e confesso que fiquei surpresa com tudo o que escrevi. Hoje, já um pouco mais desapegada de tudo, consegui colocar em prática os itens 2 e 3, mesmo que de maneira bem básica e amadora.

    Descobri o site já há um tempo e desde então venho consumindo todo o conteúdo dele diariamente. Só tenho a agradecer pelo seu trabalho, Diego. É simplesmente fantástico.

  15. Penso que improvisar é a habilidade que mais preciso desenvolver. Eu escrevo fluído, mas muito centrado no tópico conceitual por traz da narrativa.
    Esse é um grande artigo. Parabéns!

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Copyright 2010-2017 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos