Aprenda a criar realidades com palavras

Projeto reúne depoimentos sobre a rotina de produção de escritores

Por Diego Schutt em 14/08/2014 Tópicos: dicas, escrever
0
89

O escritor (e querido ex-aluno do Jardineiro de Ideias) André Timm lançou recentemente o “2 mil toques”, um projeto super bacana que, a cada semana, compartilha três depoimentos sobre a rotina de produção de escritores iniciantes e profissionais.

O objetivo do projeto é mostrar um pouco dos bastidores do fazer literário, mostrar que inspiração é uma ideia romântica e que boa literatura resulta de muito trabalho, e mostrar que não estamos sozinhos no barco da procrastinação.

O projeto tem rendido textos inspiradores. Abaixo, os trechos dos meus três favoritos até agora. Clique no nome do autor para ler o texto completo.

“Uma vez me disseram uma coisa que fez muito sentido: os músicos praticam todo dia. Os bailarinos praticam todo dia. Artistas plásticos, desenhistas… Em geral, os artistas que eu conhecia praticavam diariamente seu ofício, mesmo que não estivessem num dia muito bom. Tinham que praticar para não ‘perder a forma’. Por que com o escritor haveria de ser diferente?”
Débora Ferraz
“A inspiração então é um cuidado, algo se instala como resultado de um esforço – de uma espera, uma demora, um risco. Ouvir vozes deste mundo. Ver o que está aí. Captar o ruído, a brisa, palavras que entram pelas frestas da janela, a respiração da cidade. Na página sonora tudo se torna nome, letra, imagem.”
Susana Fuentes
“Como uma espécie de indústria subjetiva, a rotina de escrita ocorre dentro do corpo. Eu escrevo internamente por dias, às vezes por meses; aí, numa noite, coloco fones de ouvido e escolho músicas de que não entendo a letra. A todo volume, dou início à expedição do que estava acumulado. Escrevo no ritmo do que estou ouvindo. De alguma maneira, essa tentativa de estourar meus tímpanos me isola do mundo.”
Patrícia Galelli

 

Leia a minha participação no projeto clicando aqui.

Confira o site do projeto clicando aqui.

 

Abaixo, uma pequena entrevista com o André Timm, criador do “2 mil toques”.

Como surgiu a ideia para o projeto?

Ler sobre as rotinas e processos de outras pessoas ligadas a produções intelectuais e/ou artísticas sempre me fascinou, porque acabam sendo realidades inspiradoras para mim. Nunca consegui solucionar minha dificuldade completamente, mas conhecer os métodos de outras pessoas já me trouxe aprendizados valiosos que consigo aplicar em momentos pontuais da minha produção. E a ideia para o 2 mil toques surgiu daí. Se essa é uma dificuldade que eu tenho e que sei que muitas outras pessoas também têm, porque não fazer um projeto onde eu, ao mesmo tempo, possa conhecer a realidade de outros escritores e, de quebra, tornar isso público?

De onde vem o nome “2 mil toques”?

2 mil toques tem um duplo sentido. Primeiro, “toques” faz menção a uma expressão utilizada para se referir ao tamanho de um texto datilografado, naturalmente, algo usado no tempo das máquinas de escrever. Com a chegada dos computadores, o “número de caracteres” se popularizou como a unidade de medida vigente para se referir à extensão de um texto.

O “2 mil” não tem uma explicação muito precisa, é apenas uma medida média de tamanho de texto que sugiro a todos aqueles que participam do projeto, pois não é longo a ponto de ser cansativo para se ler na internet, mas também não é tão breve a ponto de ser insuficiente para que o escritor consiga expressar suas ideias de maneira confortável. O outro significado de “toque” se refere a dicas ou conselhos mesmo, já que essa é a intenção do projeto.

Qual o seu objetivo com esse projeto?

Quero investigar as rotinas e processos do máximo de escritores que eu conseguir. Minha intenção é vasculhar a cena literária brasileira, dos mais desconhecidos até os nomes publicados por grandes editoras. Com isso, espero encontrar ideias que eu possa acolher e adaptar ao meu método, além de tornar isso público e beneficiar outras pessoas.

Segundo, quero desmistificar o processo criativo. Quem escreve (ou pinta, ou desenha, ou compõe, ou…) sabe que inspiração nada mais é do que o resultado de muito trabalho bruto. Todos os textos que postei até agora só reforçam essa concepção. Então, para o público leigo, meu objetivo é proporcionar esse vislumbre dos bastidores do fazer literário. Para os aspirantes ou iniciantes, mostrar que inspiração é uma ideia romântica, pois boa literatura resulta de muito trabalho. Finalmente, para escritores com uma certa trajetória, o objetivo é solidarizar e mostrar que não estamos sozinhos no barco da procrastinação.

Qual é a sua rotina de produção?

Eu não tenho uma rotina de produção estabelecida. Esse é um dilema e um dos motivos que levou à criação do 2 mil toques. No entanto, tenho rotinas pontuais que surgem mediante projetos específicos. Mas isso em relação à rotina. Agora, falando de processos ou métodos, gosto sempre de partir de um outline da história, seja um romance ou um conto. Defino pontos estruturais principais e aí vou desenvolvendo a narrativa a partir deles.

Qual foi a contribuição que mais surpreendeu você positivamente?

De maneira geral, minha maior surpresa é ir percebendo como nós, escritores, somos parecidos. Dividimos os mesmos dilemas e embora alguns tenham mais sucesso em burlar ou transpor a procrastinação, parece que a maioria sofre dos mesmos males. Em termos específicos, sua participação, Diego, me surpreendeu bastante pelo fato de você usar um aplicativo que induz certos estados mentais a partir de frequencias específicas. Gostei porque o tema me interessa bastante e porque nenhum escritor, até então, tinha falado sobre isso no 2 mil toques.

Como o projeto se tornou tão popular em pouco tempo?

A audiência do projeto está sendo muito melhor do que as minhas expectativas e acredito, olhando agora para o 2 mil toques, que isso se deve, basicamente, a três motivos:

A temática, por diferentes razões, interessa a diferentes pessoas. O 2 mil toques trata especificamente das rotinas de escritores, mas o que relatam ali tem significação muito mais ampla e aplicável a diferentes áreas;

Dou muita atenção ao quesito estético. Do cuidado com a diagramação das citações/teasers até o layout da marca e da imagem de capa e mesmo em relação à padronização das fotos de perfil, procuro estabelecer uma unidade gráfica e primo pela aparência do projeto porque, primeiro, isso atrai mais as pessoas e, segundo, torna mais estimulante o consumo das informações;

Finalmente, acredito que a rotina de postagens é importante. Em algo próximo de 2 meses de projeto, raramente quebrei o calendário. Então, domingos, terças e quintas tem teaser anunciando o escritor do dia seguinte. Segundas, quartas e sextas, são os textos na íntegra. Manter-se fiel a esse esquema de postagens ajuda a fidelizar a audiência, porque as pessoas já sabem o que e quando esperar. Além, é claro, da frequência de conteúdo (que é diária no facebook e de três vezes por semana no site) o que ajuda a tornar tudo mais dinâmico.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

Seja o primeiro escritor a comentar sobre este texto

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Copyright 2010-2017 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos