Aprenda a criar realidades com palavras

O anti-herói e nosso medo de monstros

Por Diego Schutt em 14/08/2014 Tópicos: escrever, escrita criativa, inspiração
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Neste vídeo super bacana do TED-Ed, Tim Adams nos mostra o que um anti-herói pode nos ensinar sobre as características – às vezes nada heróicas – que moldam o protagonista da história. Abaixo, minha tradução do conteúdo do vídeo, que tem áudio original em inglês.

O crítico literário Northrop Frye observou que no passado primitivo, nossos heróis literários eram quase deuses. Conforme a civilização se desenvolveu, eles desceram da montanha dos deuses e se tornaram mais humanos, menos perfeitos, menos heróicos.

Além de heróis divinos, como Hércules, descendo essa montanha dos deuses encontramos heróis extraordinários, ainda que mortais, como Beouwulf, grandes líderes como o Rei Artur, e os grandes, mas imperfeitos, heróis como Macbeth ou Otelo. Mais abaixo na montanha, encontramos até mesmo heróis improváveis como Harry Potter, Luke Skywalker ou Hiccup. Até que chegamos à base da montanha, onde  encontramos o anti-herói.

Contrário ao que parece, o anti-herói não é o vilão ou o antagonista. O anti-herói é na verdade o personagem principal em alguns trabalhos de literatura contemporâneos. 

Guy Montag em “Fahrenheit 451. Winston Smith em “1984” que, sem querer, acabou desafiando aqueles que estão no poder e abusam dessa posição para alienar a população e fazê-la acreditar que todos os males da sociedade foram eliminados.

Idealmente, aqueles que desafiam o estabelecido deveriam ser sábios, confiantes, corajosos, fisicamente fortes, com um tipo de carisma que inspire seguidores. O anti-herói, no entanto, na melhor das hipóteses demonstra uns poucos traços subdesenvolvidos e, na pior das hipóteses, é totalmente inepto.

A história do anti-herói geralmente se desenvolve da seguinte forma. O anti-herói inicialmente está conformado e aceita cegamente o estabelecido. Ele é um típico membro não-questionador e alienado da sociedade. O anti-herói luta para se conformar, mas como não consegue ele começa a se opor, talvez encontrando outras pessoas que reconheçam algum valor em suas críticas. Ingenuamente e imprudentemente, ele também compartilha essas críticas com uma figura de autoridade.

O anti-herói desafia abertamente a sociedade e tenta lutar contra as mentiras e táticas usadas para oprimir a população. Este passo, para o anti-herói, raramente é uma demonstração de coragem, sabedoria ou oposição heróica.

Talvez o anti-herói lute e consiga destruir o governo opressor, resultado de coincidências e muita sorte. Talvez ele fuja e escape para adiar a luta para um outro dia. Com muita frequência, no entanto, o anti-herói é morto ou sofre lavagem cerebral para voltar a se conformar, como o resto da sociedade.

Nenhum triunfo heróico, nenhum levante individual corajoso contra as instituições impessoais do mundo moderno que vá inspirar outros a lutar ou engenhosamente burlar e derrotar o enorme exército do império do mal.

Nossos contadores de histórias ancestrais acalmaram nosso medo de impotência nos dando Hércules e outros heróis fortes o suficiente para lutar contra demônios e monstros que nós suspeitávamos que assombravam a noite nos arredores da nossa fogueira.

Mas eventualmente, percebemos que os monstros não estão lá fora. Eles estão dentro de nós. O maior inimigo de Beowulf foi sua mortalidade. De Otelo, o ciúme. De Hiccup, a insegurança.

E nas histórias dos anti-heróis fracassados, nas histórias de Guy Montag e Winston Smith, estão os alertas dos contadores de histórias contemporâneos que invocam medos muito primitivos. O medo de que não somos fortes o suficiente para vencer os monstros. Mas nesse caso, não os monstros afugentados pelas fogueiras, mas os próprios monstros que construíram essas fogueiras.

Para ler mais sobre anti-heróis, leia Vilão, O Herói da História.

Para ver a animação original, assista ao vídeo abaixo. Áudio em inglês.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Ivy 16/08/2014

    Agora que percebi que minha personagem principal, embora pareça heroína e seja cercada de heróis, na verdade está mais pra anti-herói que qualquer outra coisa… Pelo menos por enquanto

  2. Estou trabalhando com um anti-herói com cara de vilão… kkk

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