Aprenda a criar realidades com palavras

7 dicas para escrever histórias infantis que encantam

Por Diego Schutt em 23/05/2014 Tópicos: escrever, técnicas
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Texto da escritora convidada Ronize Aline

A escritora Ruth Rocha já comentou em várias entrevistas o quanto autores de livros para crianças costumam ser subestimados. Muitos se referem a eles como os que “escrevem aquelas historinhas”, menosprezando o valor e o trabalho envolvido na criação de textos pensados especificamente para o público infantil.

Talvez por acreditarem que criança aceita qualquer coisa, muitos acham que escrever para elas é tarefa fácil. No entanto, crianças são extremamente exigentes e críticas. Abaixo, algumas dicas para você escrever histórias infantis que encantam.

1. Leia livros infantis

Parece óbvio, mas é surpreendente o número de pessoas que dizem ter passado da idade de ler livros infantis e insistem em querer escrever histórias para crianças. Como escrever um gênero se não se está familiarizado com ele? Como reconhecer o que atrai, o que interessa, o que motiva aquele leitor se não se conhece suas referências? Se você pretende se aventurar na escrita para crianças o primeiro passo, sem dúvida, é ler muitos livros infantis.

2. Identifique seu tipo de leitor

Você pode escolher escrever para crianças em fase de alfabetização ou para crianças já alfabetizadas. O formato que você vai dar para sua narrativa depende dessa escolha. Se sua opção é escrever para o primeiro grupo, a história deve ser pequena, ter estrutura simples, usar frases curtas e muitas ilustrações (que ocuparão a maior parte do livro). Se você quer escrever para crianças alfabetizadas, você pode equilibrar a quantidade de ilustrações e texto, pode usar frases mais longas, enredos mais elaborados, além de um número maior de personagens.

3. Não menospreze a criança

Explicar demais o que não precisa ser explicado é um erro comum de muitos livros infantis. Um outro erro é subestimar a capacidade dos pequenos leitores de aprender novas palavras. Há quem limite o vocabulário do texto por acreditar que está tornando a leitura mais fácil. Esses autores se esquecem que o volume de palavras aprendidas durante os primeiros anos de vida é maior do que nos anos posteriores.

4. Faça da criança o personagem principal

Crianças gostam de histórias em que elas possam se identificar com os personagens, em especial com heróis que vivem grandes aventuras. Se esses heróis forem crianças, ainda melhor. Os pequenos leitores não querem ser apenas coadjuvantes em uma história de adultos. Eles querem sentir que são os protagonistas porque isso reforça a fantasia de que se o personagem é capaz de fazer alguma coisa, eles também são.

5. Use personagens secundários

Fazer parte de um grupo é muito importante para as crianças. Compartilhar suas aventuras com amigos torna tudo mais excitante. Além disso, isso reforça a ideia de companheirismo, de que é muito mais fácil enfrentar desafios acompanhado de outras pessoas. Então não deixe seu protagonista sozinho na história. Dê para ele amigos em quem ele possa confiar e que sirvam como contraponto narrativo, mostrando crianças com características e papéis diferentes, como ela pode observar na vida real.

6. Inclua conflitos e obstáculos

Há quem acredite que histórias infantis não devem apresentar conflitos. Mas crianças são ávidas por aventuras e obstáculos porque elas adoram testar seus limites. Histórias sem conflito são muito superficiais e pouco envolventes. Inclua no texto situações de desafios para o protagonista da história que sejam coerentes com a idade do leitor. É uma forma de estimular a criança a pensar em formas de superar obstáculos e resolver problemas.

7. Não dê lição de moral

Literatura não é lugar para didatismos. É claro que, inevitavelmente, histórias defendem certos valores e visões de mundo do autor, mas passar uma lição de moral não deve ser o objetivo principal do texto. Essa é a função dos livros didáticos e paradidáticos. Se concentre em divertir as crianças que decidirem ler seus livros. Dessa forma, você ajuda elas a associar a leitura com uma atividade prazeiroza, e contribui para criar pequenos grandes leitores.

 

Sobre a autora: Ronize Aline é escritora, tradutora, jornalista, crítica literária e professora universitária. Autora dos livros infantis “O Dono da Lua” e “Anete, nariz de chiclete”, participou com dois contos da coletânea Nouvelles du Brésil, lançada em 2013 na França, pela Éditions Reflets d’ailleurs. Trabalha com produção de textos para plataformas diversas, copidesque, leitura crítica e coaching literário, além de produzir críticas literárias para o jornal O Globo e ministrar cursos e palestras. É criadora do blog da Ronize Aline, especializado em criação literária.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

5 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Luiz Carlos 25/05/2014

    Olá Diego, estou escrevendo para sugerir que você fale sobre como usar o elemento surpresa, como criar uma revelação surpreendente para o leitor.

  2. Alexandre 05/07/2014

    Gostei!

  3. BielX 07/07/2014

    Ronize e Diego, seus posts são muito bem fundamentados. Gostei muito, leitura leve e dicas bem explicadas.
    Pretendo ler regularmente seus posts ^^

  4. Tamires 27/08/2014

    Lembro de uma dica do C.S. Lewis, que acho genial. A melhor forma de escrever para crianças é não tentando escrever para elas, mas fazê-lo simplesmente porque essa é a melhor forma – e talvez a única – de contar a história que se pretende.

  5. Nathália Corrêa 23/06/2015

    Achei muito legal esse artigo ^^ realmente, não só os livros infantis como também os desenhos infantis atuais estão tratando as crianças como se ela não fossem capazes de perceber coisas óbvias… Dá um pouco de aflição.

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