Aprenda a criar realidades com palavras

Como evitar que o prazer de escrever vire frustração de existir?

Por Diego Schutt em 22/04/2014 Tópicos: escrever, escrita criativa, inspiração
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Não há nada que me deixe mais feliz do que uma sessão de escrita produtiva. É indescritível o que sinto quando as palavras começam a cair na página exatamente como eu imaginava ou, se a minha musa for generosa, de uma forma ainda melhor do que eu poderia ter antecipado.

Meus dedos fazem sapateado no teclado. Meus personagens aparecem imponentes e confiantes na página. Sei exatamente para onde a história está indo.

Os passarinhos cantam. Meu coração se enche de sentido. Viver vale a pena.

Mas muito mais vezes do que eu gostaria, vivo o outro extremo desse paraíso. Releio o pouco que consegui colocar na página e, depois de horas lutando corpo a corpo com um único parágrafo, me pergunto como é possível alguém escrever algo tão ruim com tão poucas palavras.

Meus dedos se agarram em prece. Meus personagens não passam de caricaturas mal acabadas. Não tenho a menor ideia de como continuar a história.

Pelo amor de Deus, alguém faz esses passarinhos calarem a boca! Meu coração está prestes a explodir. Qual é mesmo o sentido da vida?

Você também já sentiu essa montanha russa de emoções na mesma sessão de escrita? Então seja bem-vindo ao clube. Você não está sozinho. Abaixo, três motivos que podem ser responsáveis por transformar seus prazer de escrever em frustração de existir.

1. Escrever uma história que exige habilidades que você não tem

Sua ideia de história é tão complexa que você não consegue imaginar como poderia desenvolver o enredo em apenas um livro usando a estrutura clássica. Então você toma a única decisão possível: escrever a história em uma série de 3 livros, estruturando o texto de uma forma totalmente original, nunca antes usada por nenhum escritor.

Sua coragem é admirável, mas o seu objetivo é ambicioso demais para suas habilidades. Não é por acaso que você está perdendo o prazer em trabalhar na sua história.

Antes de investir tanto tempo em uma ideia que você não sabe se vai funcionar na prática, que tal começar escrevendo um conto ambientado no cenário que você imaginou para sua trilogia? É uma boa forma de ajudar você a investigar seu universo de ficção e testar se a sua ideia de história faz sentido fora da sua cabeça.

2. Medir o seu talento para escrever baseado no seu primeiro livro

Você é corajoso. Você não tem medo de arriscar. Você nunca termina suas histórias de três páginas, mas você está seguro que vai terminar esse livro. Porque essa ideia é genial e a história vai ficar sensacional. Ela tem que ficar sensacional. Caso contrário, isso será a grande prova do que você sempre desconfiou: você não tem talento nenhum para escrever.

O seu entusiasmo merece aplausos, mas olhar para os seus projetos com essa mentalidade de tudo ou nada só vai criar expectativas irrealistas sobre a sua história e suas habilidades de escrita.

Se você decidir escrever um livro, saiba que não existe garantia nenhuma de que o resultado final vai agradar outras pessoas ou mesmo você. Ao invés de desistir por se convencer de que não escreve bem, estude e pratique cada uma das habilidades necessárias para se tornar um escritor melhor.

3. Se isolar de tudo e de todos para trabalhar em um livro

Nada mais importa nesse mundo a não ser terminar o seu livro. Você dispensa convite dos amigos para sair. Você parece sempre distraído e desinteressado quando conversa com outras pessoas porque está sempre pensando na sua história. Você existe para dar voz aos personagens que vivem na sua cabeça. Esse é o seu principal objetivo e você não vai sossegar enquanto não colocar o derradeiro ponto final na sua história.

Sua dedicação e comprometimento mostram que você não está de brincadeira. Você quer terminar seu livro e vai fazer o que for preciso para realizar seu sonho. Mas ao se isolar de tudo e de todos, você dá para sua história a responsabilidade de dar sentido para sua vida.

Eu concordo com o Henry David Thoreau quando ele diz “Como é vão se sentar para escrever quando você ainda não se levantou para viver”. Seu livro não é sua vida. Saia de casa. Conheça pessoas novas. Faça um passeio fora da sua zona de conforto. Crie pequenos objetivos de escrita para cada semana e se concentre neles, ao invés de passar noites em claro e fins de semana a fio escondido no seu quarto escrevendo que nem um condenado, eliminando qualquer resquício de prazer do processo.

 

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Hélio 22/04/2014

    Dicas pro texto e pra vida!

  2. Calebe Sagaz 22/04/2014

    Afinal, o que é um escritor sem experiência? O segredo é aventurar-se; sair com os amigos, conhecer gente nova, trilhar novos caminhos e ler diferentes histórias. Uma mente fechada não conta de boa forma uma história, nem mesmo se ela for brilhante.

  3. vitor 03/06/2014

    Estou vivendo uma tremenda frustração de existir na minha vida de aspirante a escritor. Há uns três anos, estava iludido cegamente quando pensei em escrever meu primeiro livro, que eu engavetei mais tarde, mas isso não vem ao caso. Há um ano mais ou menos percebi o que já sabia: minha paixão não é a escrita, e sim o cinema. Eu gosto do visual, das sensações que só o cinema proporciona. A escrita é mais crua, preto no branco, definitivamente não tem graça pra mim. Odeio escrever!

  4. VAGNER 07/02/2015

    Já faz um ano que comecei a escrever, comecei com crônicas, frases, contos. Ainda tenho muito o que melhorar, publicava meus textos sem revisar, o que é um erro para um escritor.
    Faz um mês que comecei a trabalhar de uma forma diferente, escrevo um texto, guardo, uma semana depois releio o mesmo texto, edito, guardo e depois de uma semana releio novamente, edito se precisa e então se estiver bom, publico.
    Tenho aprendido mais, tenho tido mais calma para escrever, e agora tenho um projeto de publicar um livro, não agora, quem sabe daqui a alguns anos.

  5. Author
    Diego Schutt 10/02/2015

    Legal Vagner. Esse é o processo. Escrever, reescrever, revistar, editar. 🙂

  6. valente Lima 22/12/2015

    Sou um escritor iniciante, já fui compositor de músicas há algum tempo atrás, mas percebe que aida não alcancei o meu ponto central, passei a ler mas livros de filosofia e descobri uma maneira brilhante de expresar os meus pensamentos em frases curtas e, depois, as desenvolvo.

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