Aprenda a criar realidades com palavras

Escritores, continuem roendo

Por Steven Pressfield em 04/04/2014 Tópicos: escrever, inspiração
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Às vezes me perguntam “Você não se sente culpado por encorajar pessoas a persistir em alcançar seus sonhos artísticos quando as chances de sucesso são tão pequenas?”. Minha resposta é que essa não é a pergunta certa.

Sim, as chances de fracasso são altíssimas. Você e eu provavelmente não vamos ganhar um Oscar ou um Pulitzer. […] Devemos nos considerar sortudos se formos publicados por um site de literatura obscuro. Mas a pergunta segue errada. Ela está olhando para o problema do ângulo errado.

A pergunta certa é “O que acontece com a gente se não perseguimos nossos sonhos?” […] E se eu não fizer nada? O que acontece comigo? O que acontece com meus filhos ou meus futuros filhos? O que acontece com o planeta?

A Resistência é uma serpente extremamente desonesta e uma de suas manobras mais diabólicas […] é pegar carona em negatividades, particularmente em negatividades que são objetivamente verdadeiras, como as chances de sucesso de um artista.

Sim, as chances de sucesso são pequenas. Sim, os obstáculos são assustadores. Mas Resistência, não se esqueça, está sempre tentando nos [desestimular] […] E de qualquer forma, o que é sucesso? A gente precisa ganhar um Grammy ou entrar para a lista de mais vendidos do New York Times? E o que acontece no resto da nossa carreira? […]

Quando eu penso nos meus trinta anos [de carreira], fico feliz ao lembrar dos meus constantes fracassos. Foram eles que fizeram eu me fazer a pergunta mais fundamental: “Porque, [apensar de tudo, eu sigo escrevendo]?”

Sim, eu estava fazendo isso no início por fama e reconhecimento e dinheiro e mulheres e para provar que certas pessoas estavam erradas. Mas depois de uma década ou duas não conseguindo nada disso, essas motivações começaram a desaparecer. Comecei a escrever porque gosto do processo em si. É por isso que sigo escrevendo.

Meu grande amigo e mentor Norm Stahl, o avô do Método Foolscap, tem uma forma bastante objetiva de olhar para esse problema. “Steve, os dentes de um rato crescem em duas direções: os de cima em direção ao queixo, e os de baixo na direção do cérebro. Se o rato não fica roendo alguma coisa o dia inteiro, todos os dias, gastando seus dentes que seguem crescendo rapidamente, eles acabam por perfurar o cérebro dele e matá-lo. […] Você e eu somos como esses ratos, Steve. A gente precisa seguir roendo. A outra alternativa é inimaginável.”

Então, meus ratos companheiros, respirem fundo e continuem roendo. A gente não tem escolha.

 

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

 

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Tales Gubes 04/04/2014

    Muito boa a metáfora do rato. Eu senti o dente roçando o cérebro, recentemente, e foi isso que me trouxe de volta às letras. Não escrever tornou-se algo intolerável. =)

  2. Rose Elizabeth 08/04/2014

    Oi tudo bem?

    Adorei o texto.
    Também senti algumas vezes os dentes prestes a atacarem, mas consegui me proteger…e me libertar à tempo.
    Muitas portas se fecharam em meu caminho. Mas não desisti em nenhum momento. Cada vez que chegava um envelope de uma editora, sem abrí-lo já conhecia o conteúdo da mensagem. Foram muitas.
    Mas por que continuei escrevendo? Pela mesma razão, ou razões, mencionadas no texto: o processo me encanta, sinto uma felicidade imensa, sensação de estar inteira em cada palavra escrita.
    Escrevo porque sinto uma enorme paz, um grande amor pela vida quando um leitor me diz: “valeu!O que você escreveu foi bom para mim.”
    Escrevo porque a minha escolha foi aceitar, de peito aberto, que eu não tinha escolha.

    Grande abraço e sucesso para todos nós.

    PS. Ficção em Tópicos…valeu! Conhecer vocês foi bom para mim.

  3. Rodrigo Rahmati 09/04/2014

    Muito bom, de verdade! Continuarei roendo, tenho muito amor ao meu cérebro, hehe.

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