Aprenda a criar realidades com palavras

Nenezinho da mamãe, princesinha do papai.

Por Diego Schutt em 11/03/2014 Tópicos: dicas
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“Senta aí que eu tô mandando”, Nicole diz apontando para a cadeira, com a soberania de irmã mais velha.

Bruno obedece ao comando em silêncio, assustado com a cara amassada da menina. Ela veste o abrigo azul com o símbolo do colégio, ainda que fosse sábado. Uniformes eram sinônimo de autoridade na sua casa. O pai policial e a mãe enfermeira tornaram a associação clara desde cedo. Nicole decide usar isso a seu favor, na esperança que Bruno não questionasse o que ela estava para dizer.

Enquanto o menino se acomoda na cadeira, Nicole confere as pontas do corredor do apartamento, confirmando que não haviam testemunhas por perto. Em um movimento rápido, ela fecha a porta da cozinha e se vira em direção a Bruno com as mãos segurando firme na cintura.

“Um piu sobre isso pro pai ou pra mãe e eu furo tua bola de futebol e quebro teus brinquedos todos.”

Metade das palavras ficam presas no aparelho ortodôntico que pressiona o céu nublado da boca da menina. Bruno está visivelmente assustado, não pela ameaça, que nem entendeu direito, mas pela linguagem corporal ofensiva da irmã. Nicole testa sua autoridade com dez segundos de sobrancelhas altas, olhos arregalados e silêncio. O queixo colado no peito e as mãos grudadas nas coxas confirmam que ela tem a atenção do irmão.

“O pai acabou de ligar. O novo neném vai ser menina. Eu sei que tu ainda nem sabe contar, mas deixa eu te dizer que esse apartamento só tem três quartos. Um para mãe e pro pai, um pra mim e outro pra ti”, ela diz pontuando cada quarto com um dedo.

“E tu sabe o que vai acontecer, né? Eles vão querer colocar essa fulana para dividir o quarto comigo. E eu é que não vou dividir meu quarto com uma estranha!”

Bruno olha para a irmã confuso, tentando entender o que uma frase tinha a ver com a outra. Percebe tensão no tom de Nicole, mas não consegue dar sentido às palavras nervosas que caiam da boca da menina.

“Tu é o nenezinho da mamãe, o queridinho do papai, mas isso vai acabar.”

“Eu também já fui a bebezinha da mamãe e a princesinha do papai, até tu nascer e estragar tudo. Agora vem essa guria e não tem jeito. Tu vai ser deixado de lado. Vou te dar o conselho que eu gostaria que tivessem me dado quando tu nasceu. Foge de casa. Parece uma ideia maluca agora, mas tu vai me agradecer depois. Eu não tive essa chance. Agora to presa aqui, cheia de obrigações. É colégio, é balê, é jazz, é natação…”

Os olhos de Bruno se esforçam para segurar as lágrimas acumuladas. O polegar da mão direita em sua boca é como uma rolha de champanhe prestes a explodir com a pressão do choro contido. Com medo de perder o controle da situação, Nicole muda o tom da conversa.

“Ai guri, não se preocupa. Tu não vai ter que morar na rua. Eu tenho uns colegas de colégio que são filhos únicos. Vários moram em casas com quarto sobrando.” Ela pega o álbum de fotos do seu último aniversário que estava sobre a mesa da cozinha e o coloca no colo de Bruno. “Tá vendo esse guri aqui” ela pergunta apontando para um menino loiro que aparece na primeira foto. ”Esse é o Tiago. Mora sozinho com os pais numa casa de cinco quartos.” Ela avança duas páginas e coloca o indicador sobre uma garota magricela. “Essa é a Nanda. Apartamento de quatro quartos, nenhum irmão.”

O telefone da casa toca. Nicole corre até a sala para atender. Bruno encara as fotos imóvel, até o momento em que Nicole volta para a cozinha com a cara coberta de irritação e nervosismo. Ela se aproxima do irmão, fecha o álbum e o arranca do colo do menino.

Mudança de planos. Vão ser gêmeos. Agora é cada um por si.”

Sobre o Autor

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Kyanja Lee 17/03/2014

    Ah, que texto delicioso!

    Terno, com a tensão característica da infância, que nos faz mais sorrir do que nos afligir. E o final… Não deu para evitar de rir alto…Hehehe! Parabéns!

  2. Rosa Flor 06/05/2014

    Amei, lindo demais o jeito de escrever, e claro que sorri no final!

  3. Loisse Rodrigues 14/10/2014

    Poxa, Diego, que ótimo texto! Confesso que me prendi em cada linha.
    O final foi muito bem pensado.

    Adorei!

    Parabéns pelo texto e pelo trabalho desenvolvido no blog!

    Abração!

  4. Renata 31/08/2017

    Adorei!! Que plano da menina…. e o final, inesperado!
    Prendeu mesmo, cada palavra!
    :-)))

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