Aprenda a criar realidades com palavras

Por que é tão difícil encontrar um final para sua história?

Por Diego Schutt em 12/03/2014 Tópicos: dicas, escrever
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Texto da escritora convidada Carol Prospero

Uma questão que sempre me angustia quando penso na criação de um texto é o final. Isso porque você, um provável leitor voraz como eu, não só tem que dar conta de terminar o seu texto, aquele bebezinho que vem sendo embalado nos seus braços há dias, meses ou anos, como tem que rivalizar com os finais incríveis que já leu nos textos da sua vida.

Por que aquele autor escolheu justamente um trem para ser o algoz da sua heroína adúltera? Como é que aquela autora conseguiu conduzir tão bem a sua mocinha orgulhosa ao altar? Ou, ainda, que melancolia de encher os olhos d’água é essa que o escritor nos provocou a partir de um capítulo recheado de negativas?

Finais memoráveis como esses, que fazem o leitor suspirar mesmo tanto tempo depois da leitura, parecem ter saído das profundezas de uma mente tão criativa que eu, escritor de quinta, fechado no meu apartamento com meu gato e uma pilha de trabalho para fazer, jamais seria capaz de produzir. Certo? Errado.

A primeira coisa a se perceber sobre o final de um texto é que ele angustia justamente porque… é o final.

Pense comigo: quando você está no meio das suas férias, barriga pro ar em cima de uma toalha de praia, drink colorido na mão, corpo levemente tostado pelo sol de verão, a possibilidade de que esse idílio venha a acabar não gera em você uma tristeza ou, no mínimo, um incômodo? Eu ficaria surpresa se ouvisse um “não”.

Vislumbrar o encerramento de algo é difícil, sobretudo de algo bom; isso significa que um processo que você conhece e no qual está investindo tempo, talvez dinheiro e, provavelmente, sentimentos, vai se encerrar. Você não sabe se o que virá depois desse encerramento vai ser legal. Você não sabe se vai conseguir se engajar no novo processo, qualquer que seja ele, com a mesma intensidade. Assim, é claro que toda essa incerteza póstuma gera uma ansiedade, quase que um luto antecipado.

O mesmo acontece com histórias – e vai acontecer com a sua história. Há grandes chances de que você tenha investido tudo isso que mencionei aí acima na confecção da sua narrativa. Portanto, não é de se estranhar que a ansiedade te pegue em algum momento e te force a pensar como encerrar com dignidade aquele texto com que tanto você tem convivido e que, mais cedo ou mais tarde, terá que abandonar. Seu cachorrinho lindo e peludo, solto por aí. Latindo em outros quintais.

O uso da palavra “dignidade” não é gratuito. Ele tem a ver com a outra parte da sua angústia, que envolve a criação não apenas de um final, mas de um bom final. Um que seja lembrado, como o dos grandes autores que você leu e admira. Um que seja reflexivo, para que o leitor sinta que não perdeu tempo lendo a sua história. Um que seja conclusivo e não deixe pontas soltas que venham te assombrar depois à noite. Um que faça sentido.

O segundo problema está aí, meu camarada.

Você já colocou tanta expectativa nesse final, já definiu que ele precisa ser tanta coisa e alcançar um êxito tão grande em tantas categorias diferentes, que nem um exército de russos atormentados vai ser capaz de escrever essa incrível conclusão no seu lugar. É muita pressão.

As manobras para desenrolar esses nós passam muito mais pelo seu estado de espírito do que pelas suas habilidades. A primeira delas é aprender a conviver melhor com a ansiedade do fim, já que ele sempre vem. É um fato: tudo acaba. O estágio acaba. O jantar acaba. O décimo terceiro acaba. A vida acaba. E para todos esses finais há uma continuidade – no caso da vida, depende das suas crenças; no caso dos outros, eu garanto, existe sim uma continuidade. É claro que você nunca vai saber se o que vem em seguida será bom ou ruim, mas para que acreditar que vai ser ruim? É uma questão de positividade, pura e simplesmente.

É preciso ter um naco de esperança para continuar. No entanto, avanço ainda mais na ideia: e se o que vier depois for mesmo ruim? Pois, amigo, me escute: é assim que a coisa funciona. Com tantos términos de tudo na existência, você ainda não se acostumou com um ou outro desdobramento inesperadamente negativo? Faz parte do processo. Um processo que precisa ser vivido inclusive para a sua literatura.

Atualmente impera um culto meio chato da felicidade, como se o sujeito infeliz fosse um pária social e devesse ficar longe do seu Facebook enquanto não estiver pronto para soltar fogos de alegria. O problema é: qual o grande autor que lidou apenas com boas sensações na sua obra? É basicamente impossível.

O fazer literário implica conflito, desestabilização. Uma obra em que há apenas personagens felizes e sorridentes não tem graça – e, de quebra, soa absolutamente irreal. É claro que não precisamos sofrer por tudo e experimentarmos todos os tipos de dissabores para escrever. Mas um pouco de tristeza na vida ajuda. Sentir a desesperança valoriza o objetivo conquistado; sentir a traição valoriza o amor honesto.

Um escritor que não sente nada dificilmente conseguirá engajar seus leitores no que escreve. Para produzir emoção, é preciso senti-la.

O desespero em afastar todo o sofrimento pode acabar prejudicando o seu fazer literário, além da sua resistência às intempéries naturais que virão.

A segunda manobra é lidar com as suas expectativas para o fim. E fazer isso é entender que, conforme a sua história avança, o término dela vai, também, começar a se delinear na sua mente. As personagens vão se tornando mais tridimensionais; as ações delas vão fazendo sentido; um acontecimento vai levando a outro e integrando as partes que vão ficando pelo caminho.

Nessa trajetória, quando você menos esperar, vai encontrar o seu final. Ele vai se apresentar a você. Um pouco torto, é verdade; um tanto nublado, possivelmente. Mas vai aparecer. Você vai então construir uma versão inicial dele e, na sua próxima revisão, já conseguirá definir melhor os seus traços. O que a sua personagem precisa fazer. O que a vida precisa fazer com ela.

Você vai chegar a um ponto em que perceberá que, para esse moço ou essa moça, não existe mais saída; vai reconhecer que, para o seu protagonista, não há outros caminhos. É aí que vai estar o seu final. 

A partir dessa revelação, resta lapidar o texto para que o seu encerramento forme um todo coerente com o resto. Afinal, ninguém disse que ele vai surgir redondinho, pronto para a impressão. A montagem de uma narrativa é um processo, e você sabe disso.

Um certo autor bastante conhecido, lá no começo de uma das suas obras mais famosas, coloca uma morte nos trilhos de um trem bem diante da sua protagonista. Quando o fim chega, percebemos o que ele fez, identificamos o presságio. A dúvida é: o texto foi planejado assim, desde o início? Não temos como afirmar com certeza, mas eu chutaria que não. E minha hipótese se baseia no simples entendimento de que nada impediria o autor de ter estabelecido a morte da moça lá pelo meio da obra, considerando o desenvolvimento de suas ações e, na sequência, ter definido o formato dessa morte, para só então ter retornado e inserido ali no início aquela brincadeirinha com o leitor.

Existe lógica nesse processo criativo, assim como existe lógica no texto desse autor. Por isso, não há vergonha nenhuma em assumir essa forma de composição como válida. Sua narrativa não precisa surgir tão bem acabada quanto você esperava que ela o fizesse – basta que você esteja atento às próprias pistas que ela for lhe oferecendo para definir o seu encerramento e esteja disposto a lapidá-la depois, com calma, o quanto for preciso.

Faz sentido? Espero que sim. E agora, por favor, me deixem acabar com esse texto. Já estou à beira da morte com essa expectativa insuportável…

Sobre a autora: Carol Prospero é professora de Redação para alunos de Ensino Médio e escritora-no-armário. É graduada em Letras pela Unicamp e fez lá também o seu mestrado, em que trabalhou com uma das maiores escritoras brasileiras: Clarice Lispector. Atualmente, tem testado o Medium, publicando alguns textos. Um deles pode ser encontrado aqui.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

Um escritor tem algo a dizer sobre este texto

  1. Ana 21/06/2014

    Tem razão.

    Obrigada ajudou. =)

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