Aprenda a criar realidades com palavras

O primeiro passo para se tornar um escritor profissional

Por Steven Pressfield em 21/02/2014 Tópicos: dicas, escrever, inspiração
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Estou ciente que existe uma definição oficial sobre narcisismo no Manual de Psiquiatria. O que segue é minha definição não-oficial e uma teoria de como o narcisismo se desenvolve.

Uma forma de lidar com nossos medos e insegurança é erguendo um ícone em nossas mentes. Esse ícone talvez seja um mentor, um modelo, um guru. Talvez seja um amante ou um pai, um professor ou um técnico. Eu já fiz isso. Todos nós já fizemos isso. Às vezes é saudável termos alguém como referencial do que consideramos perfeição. É um estágio importante no processo de independência e autonomia individual.

Quando damos para alguém o status de ícone, dizemos para nós mesmos: “Bem, talvez eu não consiga lidar com meus problemas sozinho, mas tal pessoa é forte e inteligente e corajosa. Essa pessoa pode ser minha guia”. Isso é transformar alguém em um ícone.

Narcisismo é quando a gente se imagina como ícones. Decidimos (inconscientemente) que somos o centro do universo. Em nossas mentes – e em nossos closets, garagens e contas bancárias – começamos a criar um sistema de crenças para adorar esse novo Deus: nós mesmos. Nos convencemos de que somos mais inteligentes, mais malvados, mais descolados, mais na moda que todo mundo (ou pelo menos que somos inteligentes o suficiente, bonitos o suficiente e malvados o suficiente para lidar com qualquer problema).

De certa forma, esse é um mecanismo de defesa saudável. Na sua forma positiva, narcisismo é simplesmente autoconfiança e, normalmente, as crenças narcisistas que temos sobre nós mesmos são razoavelmente válidas. Normalmente, o narcisista é, de fato, corajoso, inteligente, forte, experiente.

O que está realmente acontecendo por trás do narcisismo?

O que está acontecendo é Resistência. Em um nível, normalmente inconsciente, o indivíduo sabe que tem um dom único e especial. Ele é potencialmente muito bom em alguma coisa e isso é bastante importante para sua vida. Ele também está apavorado com o esforço, a dor e a possibilidade de erro que ele sabe serem necessários para colocar seu dom em prática. Como se proteger desse terror e da sua vergonha de enfrentá-lo? Uma possível resposta é se idealizar. O indivíduo imagina como ele seria uma pessoa realizada se enfrentasse esse terror, essa autosabotagem, essas inseguranças, e decide que ele já é essa pessoa.

Não é realmente correto, na minha opinião, rotular alguém como narcisista. Na verdade, narcisismo é a solução que uma pessoa aterrorizada usa diante do medo de realizar seus sonhos. Narcisismo funciona. Se não funcionasse, não existiriam zilhões de pessoas dependentes dele em cada minuto das suas vidas. 

O problema aparece quando outras pessoas entram na equação. O narcisista precisa desesperadamente acreditar na versão idealizada de si e, por isso, ele insiste que outras pessoas também adotem essa versão. Elas precisam aceitar isso. Elas precisam assumir um papel na história que o narcisismo criou. Você já se sentiu como um ator no filme de outra pessoa? A “estrela” é o narcisismo. O outro problema com narcisismo como solução para Resistência é que ele é muito frágil. O narcisista pode enlouquecer tentando defender suas crenças.

O que pode salvar o narcisista? Existe uma forma de seguir em frente? A resposta, na minha opinião, é se profissionalizar. Estou falando por experiência própria. Chega de besteiras, de jogos e de manipular os outros com charme e ameaças. Esqueça este filme criado pela sua cabeça, liberte todos os coadjuvantes, dublês e figurantes, e comece a enfrentar os problemas reais da sua vida. [Desça do pedestal em que você se colocou, abandone a síndrome do escritor incompreendido e comece a desenvolver suas habilidades de escritor.]

“Ao se comprometer com seu crescimento como artista, você precisa refinar suas habilidades técnicas para dar suporte aos seus instintos.” Joni Mitchell

A melhor descrição que já li sobre profissionalizar-se é da biografia de Rosanne Cash, “Composed”. Eis a versão curta: “Eu acordei do sono de sucesso, banhada em morfina, para a vida de um artista.”

Narcisismo não é incurável. Não é uma condição irreversível. Nós podemos acordar dele se estivermos dispostos a pagar o preço por isso.

 

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Rafael 21/02/2014

    Quase chorei com isso!
    Que porrada na minha cara.

    Ainda zonzo. Nem sei oq escrever aqui.

    MUITO OBRIGADO Diego!

  2. yussara 23/02/2014

    eu com certeza precisava disso acho que minha vida era um puro narcisismo então espero que eu acorde finalmente ñ quero mais continuar nesse filme

  3. Alan 09/04/2014

    Steven é uma das pessoas mais sábia que já li.
    Continue divulgando o trabalho dele por favor, Diego.
    Ele não ajuda a facilitar o trabalho. Ele ajuda a enriquecer a humanidade do artista. E isso não tem preço.

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