Aprenda a criar realidades com palavras

Por que é tão difícil terminar de escrever um livro?

Por Steven Pressfield em 06/01/2014 Tópicos: escrever, inspiração
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Vou apresentar minhas razões para você considerar autodepreciação como algo positivo. E não apenas como um recurso de criação de material para comédia, onde autodepreciação vem sendo usada há anos por Woody Allen, Howard Stern, Richard Lewis e o avô de todos eles, Philip Roth em “Portnoy’s Complaint”.

O que é autodepreciação exatamente? Ela se manifesta quase sempre como uma voz desagradável e grosseira dentro da nossa cabeça. “Você é um idiota, um preguiçoso, um desperdício de oxigênio. Olhe para você. Imagina se alguém assim poderia produzir alguma coisa original, alguma coisa de qualidade, alguma coisa que despertaria o interesse de outras pessoas. Que ideias você teve que ainda não foram usadas milhares de vezes antes e de uma forma melhor que você jamais poderia sonhar em concretizá-las?”

Soa familiar? Isso, logicamente, é a voz da Resistência.

Mas autodepreciação modifica a Resistência. Ela adiciona uma dimensão pessoal. Ela nos informa que nós como indivíduos, especificamente nossas características externas – nosso peso, nossa aparência, nossa cor, nossa etnia, nossa preferência sexual blá blá blá etc – são ruins, nojentas, corruptas, desprezíveis, sem valor. Autodepreciação ataca nosso caráter. “Você não tem autodisciplina, respeito por si próprio.” Autodepreciação é tão esperta que nos acusa por estarmos nos menosprezando. “O simples fato de você estar pensando isso é prova do idiota que você é!”

Eis o erro que cometemos ao escutar essa voz autodepreciativa: nós interpretamos de forma equivocada uma força que é universal e impessoal, e transformamos ela em individual e pessoal.

Aquela voz na nossa cabeça não somos nós. É Resistência.

Aqueles pensamentos não são nossos pensamentos. São Resistência.

Resistência é uma força imparcial da natureza, como gravidade e as leis de termodinâmica. Resistência é inteligente. Ela sabe que se personalizar suas manifestações, pode nos enganar e ultrapassar nossas defesas. É como o software que possibilita que as mensagens de marketing direto que recebemos pelo correio e por email digam “Prezada Susie”. É bobagem. Resistência não sabe quem nós somos e ela não se importa.

Recebo centenas de emails de pessoas que leram “The War of Art” e “Turning Pro” e me descrevem, geralmente em detalhes de partir o coração, suas lutas de décadas com sua Resistência. Acredite em mim, a voz na cabeça delas é a mesma que eu ouço na minha e você ouve na sua. Todo mundo escuta aquela mesma voz e ela provoca exatamente a mesma sensação ruim em todos nós.

Ainda que pareça ultrapessoal, essa voz autodepreciativa é na verdade universal. Ela é impessoal.

Agora  vamos às notícias boas sobre autodepreciação.

Como já falei, ficar se menosprezando é uma forma de Resistência. A aparição de Resistência é intrinsecamente um bom sinal, porque ela nunca aparece exceto quando precedida por um sonho. Por “sonho” eu me refiro à visão criativa e original que você ou eu talvez iremos criar ou produzir – um filme, uma pintura, um novo negócio, uma obra de caridade, um ato político ou pessoal de integridade e generosidade.

Um sonho surge na sua mente (ainda que a gente negue, ainda que a gente falhe ou se recuse a reconhecê-lo) como uma árvore crescendo em direção ao sol. Simultaneamente, a sombra do sonho aparece – a Resistência – da mesma forma como uma árvore fisicamente cria uma sombra.

Essa é a lei da natureza.

Onde há um sonho, há Resistência. Ou seja, onde encontramos Resistência, em algum lugar por perto existe um sonho.

Mas vamos voltar à autodepreciação por um momento. Qual é a origem deste fenômeno? Psicólogos as vezes localizam ele em abusos na infância, verbais ou de outras formas, de pais, professores, irmãos mais velhos, rivais no parquinho. Esses indivíduos geralmente nos dizem que somos feios, estúpidos, etc. Outras fontes de autodepreciação são os motores da socialização como escolas e igrejas. “Sente no cantinho, cale a boca, não ouça seu coração, ouça o que estou dizendo a você.”

Essas ideias provavelmente tem alguma validade. Sem dúvidas, você e eu internalizamos ideias negativas que pessoas jogaram em nós e, sem dúvidas, nossos gravadores internos reproduzem essas ideias novamente, e nós as identificamos como autodepreciação.

Não é. É resistência. É resistência recrutando aquelas vozes internas para evitar que a gente faça nosso trabalho.

Então da próxima vez que você escutar aquela voz autodepreciativa na sua cabeça, se lembre de duas coisas.

Um, aquela voz não é você. Não são seus pensamentos. É Resistência.

E dois, é um bom sinal porque isso está dizendo a você que há um sonho poderoso e original por perto.

A solução? Identifique esse sonho e tome uma atitude para começar a realizá-lo.

Eis a parte final e complicada. Mesmo quando reconhecemos essa voz autodepreciativa como falsa, o desafio de realizar nosso sonho não fica nem um pouco mais fácil. A Resistência não vai embora. A autosabotagem não desaparece. Nós ainda temos que enfrentá-la e superá-la.

O que fizemos, no entanto, foi tirar sua máscara e encontrar seu lado positivo.

Tudo o que precisamos fazer agora é sentar e fazer nosso trabalho.

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Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

 

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Calebe Sagaz 07/01/2014

    Para mim, essa tal de Resistência é essencial. Tenho certeza que é a voz dela que faz com que escritores editem mais de uma vez as páginas, que releiam várias e várias vezes e se esforcem cada vez mais para com suas histórias. Essa Resistência é a insegurança. Não saberemos o que dirão do nosso livro, e por isso damos nosso melhor. Na minha opinião, graças a Resistência.

  2. Quintiliano 04/04/2014

    Este site é qualquer coisa de fantástico. Não tenho palavras suficientes para demonstrar a tamanha graditão que sinto pelo vosso trabalho. Um dia, quando escrever o meu livro (reparem que mudei o “se escrever” para o “quando escrever” ) nos agradecimentos finais, o vosso site estará lá referênciado com toda a certeza. Obrigado de coração!

  3. Davi Cavalhieri 17/11/2014

    Quer superar a autodepreciação? Fácil! Não sonhe!

    Não apenas pela lógica contida por trás do ‘algoritmo’ ‘resistência nasce do sonho’, mas pq, por natureza, o ser humano tende a viajar tanto nas ideias das coisas que estão por vir que acaba não fazendo o que deve ser feito. Quer terminar um livro? Tenha metas, não sonhos, e cumpra-as!

  4. Marlene 14/01/2015

    Excelente texto, palavras de quem vivenciou, experimentou o que enfrentamos na brecha entre os nossos sonhos e o que deve ser feito para realizá-los, entre a ideia e a ação.

  5. SAULO 17/02/2015

    No mundo das ideias, hoje, passamos muto tempo, a merce desta formações ladrônicas; por falta de conhecimento estamos vendo os milhares ou milhões sofrendo deste mal. Precisamos entrar com estes conhecimentos dentro dos lares para formar no seio das famílias. As informações são muitas mas não estão chegando nos seios da coluna chefe ou seja no lugar mas sagrado da raça humana “família”. Ajude a quem precisa, os menos esclarecidos.
    Parabéns gostei muito de seus conhecimento. Gostaria de mas informação para que eu pudesse transformar em conhecimento aos lares de minha comunidade.
    Sou pr Saulo Sousa estado de Goias.

  6. Diego Schutt 18/02/2015

    Obrigado pelo comentário Paulo. Fico feliz que você tenha gostado do conteúdo do site. Que informações você está buscando?

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