Aprenda a criar realidades com palavras

O que torna um personagem inesquecível?

Por Diego Schutt em 14/01/2014 Tópicos: dicas, escrita criativa, storytelling, técnicas
10
280

Para que o leitor se interesse em emoergulhar no universo de ficção do seu texto na companhia do seu protagonista, sua narrativa precisa ir além da apresentação de suas características, nos permitindo conhecer sua personalidade e, principalmente, sua identidade.

Qual a diferença entre características, personalidade e identidade?

Características

Características são atributos físicos externos, observáveis, superficiais. Alto, baixo, gordo, magro, loiro, moreno, bonito, feio, formal, informal, criança, adulto, bem vestido, mal vestido etc. Ao compartilhar as características físicas de um personagem em uma história, ajudamos os leitores a criar uma imagem dele em suas mentes.

Personalidade

Personalidade é nosso corpo social, são as qualidades e defeitos que outras pessoas associam a nós, baseadas na forma como elas interpretam nossas falas e comportamentos. Pró-ativo, metido, flexível, manipulador, simpático, interesseiro, humilde, esnobe, confiante, inseguro etc.

Desenvolvemos nossa personalidade com base nas interações que tivemos com outras pessoas e nas experiências concretas que vivenciamos. Ou seja, nossa personalidade define a forma como respondemos às demandas do mundo externo. Concretamente, existimos no mundo e criamos nossa realidade através das nossas ações e reações recorrentes. Ao darmos pistas sobre a personalidade de um personagem em uma história, influenciamos os leitores a criar certas expectativas em relação ao tipo de pessoa que ele é.

Identidade

Identidade é a imagem que temos de nós mesmos, são as qualidades e defeitos que associamos a nossa personalidade, os rótulos que usamos para descrever quem somos (e quem não somos), as referências que consideramos relevantes para julgar nosso valor como pessoas. É através das nossas múltiplas identidades que criamos um senso de pertencimento a certos grupos sociais e, simultaneamente, um senso de distinção que, acreditamos, nos torna seres humanos individuais, únicos e especiais. Introvertido, extrovertido, atraente, inteligente, burro, paciente, irritadiço, criativo, exibido, médica, professora, publicitário, faxineiro, astronauta, escritora etc. Desenvolvemos nossa identidade a partir dos tipos de validação e repreensão que recebemos ao longo dos anos, e do significado que damos para nossas memórias e experiências passadas, dentro do contexto de nossa vida presente e nossos desejos para o futuro.

Nossas memórias são os pilares da nossa identidade. O que nos lembramos do nosso passado é o que nos dá um senso de constância e continuidade que nos permite construir uma narrativa coerente de quem fomos, somos e desejamos ser. Mas além de registrar eventos passados, outra função importante e reveladora das nossas memórias é servir como referencial para nos ajudar a prever eventos futuros. Isso significa que a forma como lembramos, interpretamos e compartilhamos um evento está totalmente relacionada à imagem que temos de nós mesmos no momento de vida em que nos encontramos no presente. Não vemos o mundo como ele é, mas sim como nós somos. Em outras palavras, nossa identidade define a forma como respondemos às demandas do nosso mundo interno. Subjetivamente, existimos no mundo e criamos nossa realidade através dos nossos pensamentos e emoções recorrentes. Ao revelarmos a identidade de um personagem em uma história, indicamos para os leitores o tipo de pessoa que ele deseja ser.

Como tudo isso se aplica à histórias de ficção?

Vamos usar como exemplo o início do livro “Extraordinário”. Veja como a escritora R.J. Palacio escolheu nos apresentar o personagem August nas primeiras linhas do texto.

“Sei que não sou um garoto de dez anos comum. Quer dizer, é claro que faço coisas comuns. Tomo sorvete. Ando de bicicleta. Jogo bola. Tenho um Xbox. Essas coisas me fazem ser comum. Por dentro. Mas sei que crianças comuns não fazem outras crianças comuns saírem correndo e gritando no parquinho. Sei que os outros não ficam encarando as crianças comuns aonde quer que elas vão.

Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria para ter um rosto comum, em que ninguém prestasse atenção. Pediria para poder andar na rua sem que as pessoas me vissem e depois fingissem olhar para o outro lado. Sabe o que eu acho? A única razão de eu não ser comum é que ninguém além de mim me enxerga dessa forma.

Mas agora meio que já me acostumei com minha aparência. Sei fingir que não vejo as caretas que as pessoas fazem.”

Nessas poucas linhas, a escritora nos dá pistas sobre as características físicas do personagem (um menino de 10 anos com um rosto incomum), sua personalidade (ele aparenta ser um garoto calmo, que decidiu se acostumar aos olhares assustados de outras pessoas ao invés de reagir agressivamente) e sua identidade (ele se acha um garoto comum e gostaria que seu rosto fosse diferente do que é).

Dar uma ideia sobre as características físicas e a personalidade do personagem é importante para criar um senso de veracidade na história, mas é através das pistas que a escritora nos dá sobre a identidade de August que o texto cria um senso de proximidade com o personagem, já que essas informações nos dão acesso ao que ele tem de mais íntimo e particular: o DNA do seu ego.

Nossa identidade é nosso corpo emocional, é a combinação única de experiências, crenças e desejos a qual nos referimos quando dizemos “eu”.

Assim como nosso instinto de sobrevivência nos compele a proteger nosso corpo de ameaças externas que coloquem nossa vida em risco, nosso instinto emocional nos compele a proteger nossa identidade de ameaças externas que coloquem nosso ego em risco.

Pense em sua identidade (e na do seu personagem) como os rótulos que você deseja que outras pessoas associem a sua personalidade. August, por exemplo, quer que outras pessoas o vejam como um garoto comum. Portanto, as decisões e ações do personagem durante a história terão como objetivo projetar a imagem de um garoto comum.

Se nossa identidade é o que fundamentalmente nos distingue de outras pessoas, de que forma podemos investigar a identidade dos personagens das nossas histórias de ficção para torná-los mais originais e envolventes? Um bom ponto de partida é investigar os desejos e motivações do personagem.

O que são desejos? São os vazios que sentimos e queremos preencher. Só desejamos aquilo que não temos. Essa sensação de falta é o motor que movimenta nossas vidas e que motiva o protagonista a agir em uma história de ficção.

August deixa seu desejo bastante claro: “Se eu encontrasse uma lâmpada mágica e pudesse fazer um desejo, pediria para ter um rosto comum, em que ninguém prestasse atenção. Pediria para poder andar na rua sem que as pessoas me vissem e depois fingissem olhar para o outro lado.”

Por trás de todo desejo, sempre existe uma motivação. O que são motivações? São as explicações que inventamos para justificar nossos desejos, decisões e ações. Não existe desejo, decisão ou ação sem motivação.

No início do livro “Extraordinário”, sabemos que o desejo de August de ter um rosto diferente é motivado por sua aparência incomum. Mas essa é apenas a ponta do iceberg, a explicação racional do personagem. Não sabemos porque verdadeiramente ele deseja isso. Para desenvolver essa história, a escritora R. J. Palacio precisou, em algum momento do processo de criação, considerar as motivações emocionais que despertaram em August esse desejo e, consequentemente, fizeram o personagem se tornar a pessoa que se tornou.

Como descobrir as motivações emocionais de um personagem? Considerando suas experiências passadas e a forma como elas moldaram suas crenças, seus valores, a forma como ele interpreta o mundo ao seu redor.

O quão incomum é o rosto de August? O que aconteceu para que o rosto dele ficasse assim? Por que ele parece ser tão paciente e compreensivo com a reação insensível das outras pessoas? Como ele lida com tamanho preconceito no seu dia a dia? Como sua família e amigos lidam com tudo isso? As respostas para essas perguntas são apresentadas ao longo da história. Elas aprofundam, pouco a pouco, nosso envolvimento com o personagem e nosso interesse em continuar lendo o texto.

Considere o primeiro contato que o leitor vai ter com o protagonista da sua história e se pergunte: qual é a primeira impressão que esse personagem deve causar? A de uma mulher corajosa? De um homem agressivo? De um adolescente deprimido? De uma criança impaciente? Na sequência, se pergunte: que falas e comportamentos causariam essa primeira impressão? A resposta para essa pergunta é um bom guia para você caracterizar seu protagonista.

Caracterizar personagens é basicamente guiar a percepção do leitor para desenvolver uma determinada impressão e opinião sobre eles.

Nossa opinião sobre qualquer pessoa é baseada na quantidade (medida em números) e na qualidade (medida em profundidade) das informações que conhecemos sobre ela. Em uma história de ficção, nossa opinião sobre os personagens são baseadas na quantidade e na qualidade das informações que o escritor nos apresenta sobre eles.

A escritora R. J. Palacio caracteriza August como um menino comum nas primeiras linhas da história. A narrativa do personagem demonstra a inocência de um garoto de 10 anos e sua maturidade para lidar com as reações de outras pessoas ao seu rosto incomum. O que nos deixa curiosos para saber mais sobre ele? O que nos impele a seguir lendo o texto? Nossa vontade de saber se ele vai alcançar seu desejo de ser visto como um garoto comum e como exatamente ele vai fazer isso.

Considerando tudo isso, quais informações são as mais importantes?

Como decidir que características sobre o personagem você deve incluir em cada parte do texto e quais deve deixar de fora? Inclua apenas as características necessárias para fazer o leitor pensar o que você quer que ele pense sobre o personagem em cada cena da história.

Em certos momentos da narrativa, conhecer a maior frustração que o personagem teve na vida é importante para o leitor entender porque ele tomou uma atitude extrema em uma cena anterior. Em outros momentos, conhecer o histórico do relacionamento do personagem com a mãe talvez seja imprescindível para que o leitor consiga dar sentido a um diálogo entre os dois.

Tudo isso está mais relacionado aos comportamentos e às características psicológicas do personagem. E sua aparência física? Sua postura? A cor de camisa que ele usa? O jeito como ele arruma o cabelo?

Pense em todas as informações associadas à imagem do personagem como a manifestação externa de suas características psicológicas. Como a expressão facial, a postura, a cor da camisa, o jeito como arruma o cabelo podem revelar o que o personagem está pensando e sentindo? Como isso revela a imagem que ele quer que os outros tenham dele, a imagem que ele tem de si e quem ele é de verdade?

Priorize compartilhar somente o que seu personagem tem de mais fascinante, surpreendente, único, excitante, estranho e peculiar. Essas são as qualidades das pessoas de verdade que as tornam inesquecíveis e fazem a gente sentir curiosidade para saber mais sobre elas. E não é exatamente isso o que você quer que seus leitores sintam sobre os seus personagens?

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

10 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. dan 19/12/2014

    Obrigado, seu texto me ajudou muito.

  2. Thiago Bordignon 13/03/2015

    Otimo artigo

  3. julia 03/05/2015

    me ajudou muito, mas o que leva um escritor a normalmente criar personagens-tipo

  4. Ana Langa 07/05/2015

    A maior dificuldade que tenho é a caracterização dos personagens, algumas vezes sinto que falta um “Q” neles. O seu artigo me ajudou muito. Agradeço!

  5. Joey 05/12/2015

    Estava em dúvidas sobre as personalidades da minha futura história, e, isso me ajudou muito!
    Ótimo texto bem detalhado

  6. Franciscco 11/02/2017

    Gostei muito de vc ressaltar o lado psicológico das personagens. Após expor o que já escrevi num projeto de uma distopia a um crítico literário, uma dos apontamentos que ele me pontuou foi o de tentar melhorar as características das falas dos personagens principais da trama.
    Um dos caminhos que comecei a buscar foi assistir séries; na verdade estou vendo apenas uma, Smallville e focando em dois personagens desta série que tem um pouco haver com meus personagens.
    Mas preciso de mais, vc teria alguma sugestão tanto de mais alguma série um até mesmo um livro.
    Na verdade depois que expus os meus escritos ao crítico, parei de escrever para seguir alguns conselhos dele, preciso retomar o quanto antes.
    Abraços, peguei boas dicas suas por aqui.

  7. Author
    Diego Schutt 06/03/2017

    Oi Francisco

    Recomendo a leitura do seguinte artigo sobre diálogos: http://ficcao.emtopicos.com/estrutura/escrever-dialogos-historias-ficcao/

    Acredito que esse texto pode ajudar você a melhorar as falas dos personagens da sua história.

    Espero que ajude. Boa sorte.

    sds
    Diego

  8. Olá! meu nome é Alexia tenha 15 anos e eu to querendo criar varias Histórias Legais e malucas.

  9. Bianca 20/10/2017

    Não sou escritora, na verdade a escrita nunca foi minha praia e tenho minhas dúvidas de que algum dia isso mude, porém, tive um bebê há 3 meses e na procura de um tema para seu aniversário e por não me interessar por nenhum em particular, decidi eu mesma criar uma história rsrs. Claro que o João é a personagem principal e já até criei personagens secundários baseados em seus priminhos, criei uma avó com poderes mágicos, um objeto q o leva para qualquer lugar do universo, q permite até viagem no tempo, um vilão e tudo mais, enfim criei personagens, universos e conflitos mas, preciso aprender a colocar tudo isso no papel, de forma clara e organizada, escrever um pequeno livro infantil para distribuir no aniversário dele que terá o tema do livro… A minha dúvida é;Por onde começo? Gravar a história contada pra digitar depois é mais fácil?
    preciso de ajuda.

  10. Author
    Diego Schutt 24/10/2017

    Oi Bianca

    Tudo bem?

    Achei ótima sua ideia de criar um universo de ficção e torná-lo o tema da festa de aniversário do seu bebê. Gostei mais ainda da ideia de escrever um pequeno livro para distribuir para os convidados.

    Acredito que estes textos podem ajudar você a organizar sua ideia de história:

    Como transformar suas ideias em histórias? http://ficcao.emtopicos.com/escrever/desenvolvendo-ideias/

    7 dicas para escrever histórias infantis que encantam http://ficcao.emtopicos.com/2014/05/escrever-historias-infantis/

    Cada escritor tem seu próprio método para desenvolver suas ideias. Alguns preferem escrever à mão, outros preferem digitar direto no computador, e outros, como você mencionou, gravam suas histórias em áudio para depois digitá-las. Então, simplesmente escolha o método que lhe parece mais atraente.

    Boa sorte com sua história. Espero que os artigos que recomendei ajudem você.

    abs
    Diego

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Copyright 2010-2017 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos