Dicas e técnicas para escrever livros e roteiros para cinema e tv.

O que torna um personagem inesquecível?

Por Diego Schutt em 14/01/2014 em dicas, storytelling, técnicas
1
19

As engrenagens que movimentam nossas vidas são nossas motivações. O que são motivações? São as explicações que inventamos para justificar nossas ações.

Não existe ação sem motivação.

Ainda que você não tenha consciência sobre o porquê pensou, falou e agiu de um certo modo, existe uma explicação que você se deu para justificar esse comportamento. A parte consciente dessa explicação está relacionada a qualidades que você deseja desenvolver. A parte inconsciente dessa explicação está relacionada a um medo.

Minha motivação para escrever este texto foi articular o processo que uso para caracterizar meus personagens. A explicação consciente para essa motivação é que eu reli o texto que escrevi anos atrás sobre este tópico, achei ele confuso e gostaria de ser mais claro e preciso na forma de apresentar meu raciocínio. A explicação inconsciente para essa motivação talvez esteja relacionada ao meu medo constante de não fazer sentido e não ser compreendido.

Para entender essas motivações, precisei refletir por alguns minutos, em especial sobre minha motivação inconsciente. É esse mesmo exercício que você precisa fazer ao criar personagens para suas histórias de ficção.

Para criar um personagem original e complexo, você precisa entender as justificativas conscientes e inconscientes dele para vestir as roupas que veste, andar do jeito que anda, arrumar o cabelo do jeito que arruma, se relacionar com as pessoas com que se relaciona, desejar o que deseja, dizer o que diz, não dizer o que não diz, fazer o que faz, não fazer o que não faz.

Considere as seguintes perguntas sobre o protagonista da sua história:

  1. Que opinião você quer que o leitor tenha desse personagem? Que características você quer associar a sua personalidade? Como ele vai se comportar para que o leitor o veja desta forma? Por quê você quer que o leitor o veja desta forma?
  2. Qual a opinião dos outros personagens da história sobre o protagonista? Que características eles associam a sua personalidade? Que comportamentos do personagem vão fazer eles pensar desta forma? Por que você quer que os outros personagens vejam o protagonista desta forma?
  3. Quem é esse personagem de verdade? Que características ele não tem mas gostaria de ter, ou tem mais gostaria de não ter? Que comportamentos ele precisa manter e quais precisa eliminar para se tornar a pessoa que deseja? Por que ele quer ter certas características que não tem e não ter certas características que tem?

O primeiro grupo de perguntas é o mais fácil de responder. O último grupo é o mais difícil e é a chave para você criar personagens originais. Quanto mais detalhadamente você tentar responder a essas perguntas, mais profundo será o seu conhecimento sobre o seu personagem e, consequentemente, mais fácil será contar a história dele com mais propriedade.

Seu primeiro impulso vai ser responder a essas perguntas de forma bastante superficial, ao invés de trilhar o caminho mais trabalhoso que implica em mergulhar na mente do seu protagonista e conhecer os cantos obscuros da sua personalidade. O resultado disso serão personagens comuns e esquecíveis.

Para criar personagens originais, você precisa encontrar explicações peculiares e únicas no passado do personagem para a forma como ele sente, pensa e age. Como fazer isso? Apresentando, ao caracterizá-los na história, seus sentimentos, pensamentos e comportamentos que vão contra o que é comum e previsível.

Caracterizar personagens é basicamente guiar a percepção do leitor para desenvolver uma determinada impressão e opinião sobre eles.

Digamos que a primeira imagem que você deseja passar sobre a sua protagonista é que ela está de bom humor. Considere: Como uma pessoa bem humorada se comporta? O que ela diz? Como ela interage com outras pessoas? O que especificamente motivou ela a ficar bem humorada?

O caminho mais curto é dizer com todas as letras o que a personagem está sentindo e pensando. “Bruna está bem humorada. Ela sorri ao pensar no seu plano para matar os colegas de trabalho que riram dela”. Aqui o escritor caracteriza a personagem de uma forma genérica e literal.

O caminho mais envolvente é caracterizar a personagem através dos seus comportamentos e sua motivação. “Bruna distribui sorrisos no caminho para a porta de saída do escritório. Elogia a blusa da Renata. Assopra um beijo para o Tales. Quando a bomba detonasse, nos milésimos de segundos de lucidez que os colegas teriam antes de explodirem para todos os cantos, ela queria que lembrassem que foi ela quem riu por último.” Aqui o escritor é mais específico em sua narração e molda a percepção do leitor sobre a personagem de uma forma mais visual e verossímil.

O que caracteriza essa personagem nessa pequena cena? Seu bom humor e sua perversidade. O que nos deixa curiosos para saber mais sobre ela? A motivação peculiar, inesperada e surpreendente para ela se sentir dessa forma. Qual a origem dessa motivação? O que seus colegas fizeram para deixar ela tão irritada ao ponto de explodir o escritório onde trabalha? Como ela vai fazer isso exatamente? Seguimos lendo para descobrir as respostas para essas perguntas.

Mas quais informações são as mais importantes? Como decidir que características sobre o personagem você deve incluir em cada parte do texto e quais deve deixar de fora?

Inclua apenas as características necessárias para fazer o leitor pensar o que você quer que ele pense sobre o personagem em cada cena da história.

Em certos momentos da narrativa, conhecer a maior frustração que o personagem teve na vida é importante para o leitor entender porque ele tomou uma atitude extrema. Em outros momentos, conhecer o histórico do relacionamento do personagem com a mãe talvez seja imprescindível para o leitor compreender porque ele foi grosseiro com ela.

Tudo isso está mais relacionado aos comportamentos e às características psicológicas do personagem. E sua aparência física? Sua postura? A cor de camisa que ele usa? O jeito como ele arruma o cabelo?

Pense em todas as informações associadas à imagem do personagem como a manifestação externa de suas características psicológicas. Como a expressão facial, a postura, a cor da camisa, o jeito como arruma o cabelo podem revelar o que o personagem está pensando e sentindo? Como isso revela a imagem que ele quer que os outros tenham dele, a imagem que ele tem de si e quem ele é de verdade?

Priorize sempre compartilhar o que seu personagem tem de mais fascinante, surpreendente, único, excitante, estranho e peculiar. Essas são as qualidades das pessoas de verdade que as tornam inesquecíveis e fazem a gente sentir curiosidade para saber mais sobre elas. E não é exatamente isso o que você quer que seus leitores sintam sobre os seus personagens?

Sobre o Autor

Diego SchuttVer todos os artigos por Diego Schutt
Diego Schutt é escritor e especialista em storytelling e criação de universos de ficção. Estudou escrita criativa na Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e até mesmo no Brasil. Há 5 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português, que oferece serviços de consultorias individuais, além de cursos e oficinas de formação de escritores.

1 Comentário

  1. dan 19/12/2014

    Obrigado, seu texto me ajudou muito.

Adicionar comentário

Deixe um Comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Copyright 2014 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos ®