Aprenda a criar realidades com palavras

Como a neurociência pode ajudar você a escrever melhor.

Por Diego Schutt em 28/01/2014 Tópicos: escrever, técnicas
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Você já parou para pensar nas reações que suas histórias de ficção provocam nos seus leitores?

Não estou me referindo a um sorriso provocado por uma passagem engraçada, ou às lágrimas resultado da identificação com um drama do protagonista. Estou falando das áreas do cérebro do leitor que são estimuladas durante a leitura de cenas de ação, metáforas, e descrições de cenários.

Neurologistas ao redor do mundo vêm investigando este tópico há alguns anos. Suas descobertas podem ajudar você a escrever histórias que, literalmente, estimulem certas partes do cérebro e contribuam para um maior envolvimento do leitor com sua história.

O artigo “A neurociência do seu cérebro na ficção”, publicada no site do New York Times, apresenta as conclusões de estudos que usaram tomografias computadorizadas para investigar as reações cerebrais de uma pessoa durante a leitura de descrições detalhadas, metáforas, e diálogos entre personagens.

Uma das descobertas mais interessantes é que o impacto de certos tipos de frases e palavras vai muito além do simples prazer intelectual.

Inúmeras partes do cérebro são ativadas durante a leitura de uma história, mas não apenas aquelas relacionadas à linguagem, como se imaginava anteriormente. Palavras como lavanda, cinamomo e sabão, por exemplo, provocam respostas em áreas do cérebro relacionadas ao senso do olfato. Metáforas que evocam texturas (voz áspera, pele aveludada) ativam áreas do cérebro relacionadas ao senso do tato. Frases que sugerem ação (Paulo chutou a bola), despertam atividade cerebral na área que coordena os movimentos da perna.

Um estudo também analisou as reações provocadas pelo uso de figuras de linguagem. Os resultados mostram o impacto do uso de clichês em textos ficcionais.

Frases familiares que são comumente usadas (como por exemplo “o véu da noite”) são tratadas pelo cérebro como palavras comuns, e não contribuem para criar uma imagem na mente dos leitores. Outras metáforas mais visuais (“ele tinha mãos de couro”, “a voz de veludo do cantor”) despertam áreas do cérebro relacionada ao senso do tato, enquanto frases com um sentido similar escritas de forma mais literal (“ele tinha mãos fortes”, “a voz agradável do cantor”) não provocam a mesma reação.

Assim como o cérebro responde à representações de odores, texturas e movimentos como se eles fossem reais, as interações com personagens ficcionais também são processadas como algo parecido a encontros sociais.

Ao que parece, o cérebro não faz uma distinção clara entre ler sobre uma experiência e vivê-la de verdade.

Nos dois casos, as mesmas regiões neurológicas são estimuladas. Ler produziria então uma simulação vívida de realidade. É como se a leitura de uma história fosse o equivalente à instalação de um software na mente que, enquanto simula a realidade dos personagens, oferece ao leitor a oportunidade de pegar emprestado os pensamentos e sentimentos dos participantes da história.

Há uma série de áreas comuns do cérebro usadas tanto para entender histórias quanto para interagir com outras pessoas, em especial em situações onde tentamos compreender seus pensamentos, sentimentos, frustrações e motivações.

Alguns pesquisadores sugerem que histórias refinam nossas habilidades sociais e nos ajudam a navegar a complexidade da vida em sociedade. Quem lê ficção seria mais apto a empatizar com outras pessoas e ver o mundo a partir de suas perspectivas.

Todas essas descobertas da neurociência reforçam a importância da escolha cuidadosa de cada palavra usada para construir textos de ficção. 

A conclusão mais importante de todos esses estudos é a confirmação de um fato que já foi descoberto há séculos: as histórias têm o poder não só de nos entreter, mas também de transformar nossas vidas.

 

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Wellington Rodrigo Quitério 28/01/2014

    Ótima matéria, realmente faz sentido e foi muito útil ler isso. O poder das palavras é algo muito difícil de conseguir do dia pra noite, por isso é importante saber de como usá-las. Gosto muito da página-site, parabéns!

  2. Já há algum tempo eu havia topado com o artigo original de Annie Murphy, o qual foi publicado em Março de 2012, mas tenho que dizer que o texto do amigo Diego conseguiu passar a mensagem de forma bem mais interessante para este aprendiz de escritor.

    Cada vez mais acredito naquela velha máxima da filosofia Seicho-No-Ie: “palavra tem poder”. 😉

    Abraço.


    T. K. Pereira – Escriba Encapuzado

  3. Maria Helena Mota 02/03/2014

    Oi Diego. Como vai?
    Faz tempo que não passo por aqui por falta de tempo mas adoro este site.
    Também tenho um blog que estou a atualizar e gostaria que me enviasse a URL do seu, para poder juntar à minha lista e seguir os seus artigos.
    Com tanta sabedoria até me sinto ainda “mais pequenina” ao dizer-lhe que publiquei dois livros. Porém, não fiz curso superior.
    E, já agora digo-lhe que a sua última frase veio reforçar a minha ideia de que as histórias não servem só de entretenimento.
    Fico aguardando o endereço do seu blog.
    Obrigada e um bom final de domingo.
    Grande abraço.

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