Aprenda a criar realidades com palavras

Como a Musa das Ideias vê você

Por Steven Pressfield em 01/11/2013 Tópicos: escrever, inspiração
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O que segue é meu modelo pessoal de experiência metafísica sobre como o processo de escrever (e fazer qualquer tipo de arte) funciona. Você talvez me ache maluco. Talvez eu seja mesmo maluco.

A Musa“, como eu a imagino, é a identidade coletiva de nove deusas irmãs, filhas de Zeus e de Mnemosyne (Memória), cuja responsabilidade é inspirar artistas. Outros nomes dados para essa força misteriosa é Inconsciente, Ego, Sopa Quântica. Seja lá o que for, isso representa a dimensão invisível do potencial que está dentro de nós ou além de nós. É de onde as ideias vêm.

A cena que você escreveu ontem entre o Príncipe Mordrapal e o Avatar dos Elfos: ela veio da Musa. Assim como a ideia para seu próximo álbum pós-cripto-punk de rap, e para seu bar-restaurante mangoliano.

A Musa funciona assim: a cada dia ela faz suas rondas (eu gosto de imaginar ela percorrendo o mundo em um veículo espacial pequeno de teto aberto, uma cruza entre os Jetsons e os seriados antigos do Flash Gordon), carregando sua sacola cheia de ideias.

Ela é meio como o Papai Noel, mas ao invés de dar presentes para crianças, ela dá ideias para artistas. Para o Bethoven ela deu tãn-dãn-dãn-dãn. Para o Stephen King ela ofereceu Carrie.

Quando a Musa chega onde você está, ela olha para baixo do seu pequeno veículo espacial. Você está no estúdio? Em frente ao cavalete? Em frente ao teclado?

Você não está? Tudo bem. A Deusa dá uma folga para você nesse dia ocioso. Ela volta amanhã.

O que? Você não está lá trabalhando novamente? Nem no dia seguinte? A testa da Musa começa a franzir. Você está a decepcionando. Ela está começando a ficar puta da cara. Será que você não quer a ajuda dela?

Seu nome agora está na lista negra da Deusa. Como ela vai punir você? Ela não vai fazer nada cruel ou violento. Ela é uma dama. A Musa vai simplesmente guardar seus favores. Aquele problema no Ato 2 que você está com dificuldades para resolver? Você está sozinho. Resolva você mesmo.

Mas vamos olhar pelo outro lado, o lado feliz. Vamos imaginar a Musa passando por onde você está na segunda-feira. Lá está você, trabalhando duro. O mesmo na Terça. Quarta também. Ah, agora você fez a Deusa sorrir! Ela gosta do seu estilo, ela aprecia a forma como você se esforça. (Aliás, a Musa não guarda rancor se você só pode dedicar a ela uma hora por dia, ou até mesmo se você não escreve por dias porque teve que trabalhar para sustentar sua família. A Deusa consegue ver suas preocupações).

Por isso ela reconhece e dá valor a suas boas intenções. Contanto que você mostre respeito a ela, você permanecerá na sua lista de preferidos. Como ela recompensa você? Ela ajuda a desempacar aquele Ato 2. Ideias vem a sua mente enquanto você está no chuveiro, ou no metrô, ou caminhando seu doberman.

Você acha que a ideia é sua. Não é. É dela. Ela deu para você.

Isso é mágica? Um milagre? Não, é algo comum. É como a criatividade funciona. A gente se esforça. A gente dá o melhor de si. Boas coisas acontecem. Essa é a intersecção entre trabalho duro e inspiração.

Quando falamos “coloque sua bunda onde seu coração quer estar”, é isso o que queremos dizer. Isso é ser profissional. É a razão pela qual desenvolvemos disciplina, motivação, respeito pelo processo criativo. É por isso que treinamos para superar a Resistência interna que nos impede de escrever.

Devemos nos tornar mestres em todas essas habilidades por um motivo: para que possamos estar sentado em nosso local de trabalho quando a nave da Musa passar. É assim que os dois lados funcionam juntos. Trabalho duro e disciplina.

Esforço disciplinado produz inspiração porque mostra o respeito à Deusa. Genialidade e brilhantismo não ganham seus favores. Ela prefere suor.

Vá para seu estúdio. Sente-se no piano. Reinicie seu computador. Se veja como a Musa vê você, e ficará mais claro o que você precisa fazer.

 

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

 

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

8 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. vitor 02/11/2013

    Realmente, ele é doido de pedra.

  2. Jeferson 03/11/2013

    Doido?… Para mim ele se mostrou eficiente.
    Redigiu um texto que cumpriu a mensagem q ele desejava passar. Foi um excelente post e tenho certeza q motivou vários a colocar a bunda onde o coraçao deseja estar.

  3. Daniel 09/11/2013

    É verdade.

    A musa me fez uma visita recentemente, após uma semana quebrando a cabeça num conto para um concurso.

  4. Má Matiazi 10/11/2013

    A Deusa não pode reclamar de mim porque estou de prontidão para a criação em todo meu tempo “ocioso”. E eu sinto que também não posso reclamar de sua generosidade. Às vezes ela esquece de mim, confesso, e fico esperando ela aparecer enquanto rabisco coisas inúteis no computador. Mas não me aflijo, pois cedo ou tarde ela vem. Somos uma boa dupla…

  5. Adriano 11/01/2014

    Que texto sensacional…

  6. Nikolas 11/01/2014

    É como mergulhar em sua mente e se deixar afogar pela profundeza dela sem medo de errar, inventar metáforas, analogias inesperadas, loucuras geniais, e trazer ao topo uma representação da realidade redesenhada, como você fez nesse seu texto incrível!

  7. Quintiliano 04/04/2014

    Que explicação maravilhosa! Senti um arrepio ao ler isto! É tal e qual ,sem tirar nem pôr. Sinto-me muito mais forte e confiante depois de ler este texto e ter percebido algumas coisas novas. Melhor site para escritores!! Sem duvida…

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