Aprenda a criar realidades com palavras

Convenções e cenas obrigatórias em gêneros de ficção.

Por Shawn Coyne em 01/11/2013 Tópicos: dicas, escrever
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Se eu entrego meu livro para você e digo que ele pertence ao gênero crime e mistério, que expectativas você cria sobre a história antes mesmo de começar a ler?

  • Você espera que alguém vai morrer no início do enredo, ou mesmo na primeira página.
  • Você espera que haverá um investigador que será chamado para resolver o crime.
  • Você espera um certo personagem estereótipo desse tipo de gênero aparecer durante a história. O Watson da série Sherlock Holmes, por exemplo.
  • Você espera receber pistas falsas no enredo, também conhecidas como red herrings.
  • Você espera um eventual confronto entre o investigador e o assassino.
  • Você espera um final que resulte em justiça (o assassino é descoberto e paga pelo seu crime), injustiça (o assassino se safa) ou ironia (o investigador captura o culpado, mas perde alguém ou alguma coisa no processo).

Então o que acontece se eu falhar em corresponder suas expectativas sobre algum dos tópicos da lista acima? Eu não escrevi um livro de mistério. Eu decepcionei você e desperdicei seu tempo. Você poderá ou não dizer isso na minha cara (provavelmente não porque você é uma pessoa bacana e não quer ferir meus sentimentos), mas com certeza, você vai educadamente se recusar a ler meus outros livros.

“Como ele foi estúpido por não incluir a cena onde o investigador desmascara o criminoso. Isso é lição básica do Scooby-Doo” você vai pensar.

Arte é extremamente pessoal. Se você descobre que alguém próximo tem um gosto literário diferente do seu, é difícil evitar olhar para a pessoa com certa distância.

“Ela é uma pessoa ok, mas não entende Anna Karenina… dá para acreditar?”

Pior, se essa mesma amiga se considera escritora e diz entender de Literatura Russa Realista do século 19 e, ainda assim, tem aquela opinião, você não vai conseguir conter seu ódio. Woody Allen fez carreira explorando esse tipo de irritação. Assista Diane Keaton em “Manhattan” e a reação do personagem do Woddy Allen a sua insanidade sem sentido e você vai entender do que estou falando.

Não há nada mais irritante para profissionais do que escutar amadores que obviamente não se esforçaram para conhecer os princípios de sua arte. É impossível não perder o respeito por eles. É como seu primo Lou que faz “Pot-au-feu” sem carne ou legumes e se acha um Chefe de Cozinha francês.

Para escrever um livro profissionalmente, você precisa saber as cenas obrigatórias e as convenções do seu gênero. Se você não sabe nada sobre isso, aprenda. Como? Lendo os livros mais populares desse gênero (sim, aqueles que foram sucessos de venda) e anote o que todos eles tem em comum. E “livros literários” também são um gênero. Se você vai escrever uma história sobre perseverança e tenacidade, você deve ler “The Old Man in the Sea” e “Deliverance”.

Então o que são cenas obrigatórias?

Cenas obrigatórias são as mais difíceis de um escritor criar – a cena da descoberta do corpo, a cena do heroi a mercê do vilão, a cena do primeiro beijo, a cena do ataque do monstro, etc. Elas são difíceis de escrever porque podem facilmente cair em clichês. Elas foram escritas incontáveis vezes e, por isso, criar algo novo, surpreendente, e sem usar “deus ex machina” é uma tarefa extremamente difícil.

“Deus ex machina” é incluir algo ou alguém no enredo simplesmente para salvar o protagonista de uma situação de perigo, ou resolver um problema complicado da história. Esse conceito vem do teatro grego antigo, quando dramaturgos estavam autorizados a terminar seus shows com atores representando deuses que resolviam todos os problemas pendentes da história.

Muitos escritores desprezam a ideia de incluir as cenas obrigatórias do seu gênero pela mesma razão que descrevi acima. Eles as consideram piegas.

Insistem que o seu trabalho é tão estimulante intelectualmente e tão acima de qualquer gênero que suas técnicas revolucionárias os eximem de ter que cumprir essas obrigações. Eles dirão a você que suas histórias são homenagens a um gênero, não fazem realmente parte dele. Seja isso verdade ou não, pouco importa. Se o acontecimento inicial que dá início à história está associado a um gênero em particular, e o escritor não resolve o conflito de forma inovadora como o gênero demanda, o livro não vai funcionar. As pessoas não vão se envolver.

Outros escritores amam gêneros porque acreditam que podem simplesmente reciclar cenas antigas de clássicos para cumprir essas obrigações. Mas se você reusar alguma coisa que você viu em um episódio de “Mannix” nos anos 70, você vai decepcionar imensamente seus leitores. Talvez eles não tenham assistido a esse episódio em particular, mas eles serão facilmente capazes de perceber que o que você escreveu não é original. Se você está reusando isso, grandes chances que outros escritores fizeram o mesmo.

Lembre-se que os primeiros leitores de um gênero em particular são especialistas. Quando facilitei cursos sobre o gênero mistério em grandes editoras, sempre mantive em mente os milhares de leitores fanáticos de crime. Eu sempre me deparava com eles em convenções e livrarias especializadas. Esses leitores estão desesperados por novidades.

Essa base de 2.000-4.000 leitores está disposta a dar uma chance para novos escritores. Se você criar algo único, esses leitores vão esperar ansiosos pelo seu próximo livro também. E o próximo depois desse.

Mas se um escritor está requentando enredos velhos e consegue ser publicado por uma grande editora sem ser descoberto, tenha certeza que essa base de leitores vai saber. Eles tem orgulho do seu conhecimento, e se eles considerarem que você não fez um bom trabalho, vão dizer para seus amigos viciados em livros de mistério não lerem sua história. “É meia boca. Não vale a pena perder seu tempo”.

Eles não vão se gabar de ter a primeira edição do seu primeiro livro. Eles não vão esperar ansiosos pelo seu próximo lançamento. Eles não vão dar uma outra chance para você.

Mas e aqueles livros de grande sucesso que vão contra tudo isso que estou dizendo? E aqueles livros que não incluem cenas obrigatórias inovadoras?

Algumas vezes, um grupo de leitores influente (normalmente críticos) se apaixona por um livro ou seu estilo e elogiam a obra incessantemente. A multidão metropolitana sofisticada, leitora do New York Times, ouve falar da badalação. Como querem estar por dentro, repetem o burburinho, e um grande número de livros são comprados e exibidos como enfeite em mesas de café no país inteiro. Muitos nem são lidos.

Escrever para obter esse tipo de atenção não vai preencher o vazio na sua alma. Isso definitivamente não é um plano de negócio. É quase como comprar um bilhete de loteria. Ao invés disso, escreva para nerds dos gêneros que desesperadamente querem novas histórias. Eles não vão abandonar você mesmo se suas histórias forem pouco usuais.

Para escrever gêneros é preciso inovar. E essa inovação está na forma como um escritor lida com cenas obrigatórias.

Esse pré-requisito é exatamente a mesma coisa que Steve Jobs e a Apple enfrentaram quando decidiram criar um novo celular. Jobs sabia que o iPhone tinha que ser compatível com as redes de telefone, ou pelo menos com uma delas. Ele sabia que o aparelho tinha que “tocar”. Ele sabia que as ligações tinham que ser claras, além de outras milhares de obrigatoriedades que precisavam ser incluídas.

Então a pergunta que Jobs se fez não foi “como eu crio algo completamente único para mudar a forma como as pessoas se comunicam?”, mas sim “como eu construo ou reinvento aquelas coisas que usuários de telefone precisam e, ao mesmo tempo, dando a eles uma experiência original?”. Jobs trabalhou dentro do “gênero” telefone, e então o desenvolveu e inovou.

Como você deve se lembrar, a primeira geração de iPhones costumava desconectar no meio das ligações. A “antena obrigatória” do telefone não funcionava bem. Somente quando a Apple consertou esse problema que o iPhone deixou de ser usado apenas pela base de usuários fanáticos por novas tecnologias (os especialistas no gênero), e passou a ser usado por pessoas que precisavam de mais funcionalidades no seu telefone, como os usuários de Blackberry.

Os fanáticos pela Apple perdoaram os erros da empresa na primeira versão do iPhone, mas eles não divulgaram o aparelho até que os problemas foram resolvidos.

O mesmo vale para livros. Impressione os especialistas e mostre que você sabe o que está fazendo. Quando você criar algo extraordinário, eles vão bater na porta dos vizinhos para recomendar seu livro.

Uma coisa é certa. A Apple abriu cada celular que encontrou no mercado para ver como eles funcionavam antes de começar a trabalhar no protótipo do iPhone. Escritores não deveriam fazer o mesmo?

Você não precisa ter vergonha por não saber como escrever seu gênero. A única coisa vergonhosa é ignorar propositalmente conhecimento disponível, e depois culpar os outros pelos seu fracasso.

 

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Shawn Coyne autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

 

 

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Sobre o Autor

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Shawn Coyne é editor e co-fundador da editora Black Irish Books. Em seu livro "The Story Grid" ele apresenta técnicas desenvolvidas nos seus 25 anos de carreira para ajudar escritores a se tornarem seus próprios editores. O escritor autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

5 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Piscies 06/11/2013

    Li o texto inteiro indignado. O autor seguiu uma linha de raciocínio que odeio: seguir clichês bem sucedidos para ser bem sucedido também.

    Os últimos parágrafos foram os que me impediram de soltar toda a minha fúria (eu já estava preparando um texto de comentário, que foi desbancado quando li a conclusão).

    Ao meu ver, o autor está parcialmente correto e parcialmente errado. Eu diria que ele até entra em conflito: no início ele apóia clichês, e no final, os abomina.

    Eu trocaria “cena obrigatória” por “conceito obrigatório”. Na verdade, é quase isso que o autor sugere no final do texto (lidar com cenas obrigatórias de forma original). Fazer parte de um gênero exige que a história apresente alguns conceitos básicos para tal. Uma história de “Crime e Mistério” deve ter um crime e muito mistério, mas para mim pouco importa se existe um investigador a lá Sherlock Holmes ou um ajudante como o Watson. Por mim, a investigação pode ser feita até mesmo por um grupo de pessoas. A história pode ser até medieval ou futurista, desde que tenha Crime e Mistério.

    Eu vou além e digo que gosto muito mais quando leio algo BEM DIFERENTE do que o usual do que quando leio uma história padrão: alguém morre, um investigador é chamado, ele tem um companheiro, o mistério e desvendado, etc.

    O que eu sempre falo é o seguinte: não escreva pensando em gênero nenhum. Pense, no máximo, no seu público-alvo (afinal, escrever um texto adulto para um público infanto-juvenil não é aconselhável). Sua história será fatalmente classificada mais tarde e catalogada em algum gênero, mas escrever pensando nisto limita demais a imaginação… e não é ela nossa ferramenta mais poderosa?

  2. Calebe Sagaz 06/11/2013

    Eu sempre fui de analisar todos os gêneros, independente de quais fossem eles. Cada livro é uma forma de ganhar experiência e lhe ajudar (para com a escrita).

    A chave é criar, ou pelo menos fazer o mesmo de modo original.

  3. Jenny Rugeroni 22/02/2014

    Olá! Estou visitando o site pela primeira vez, e achei as dicas bem interessantes! Há poucos dias estive escrevendo uma cena para meu novo livro sobre a primeira relação sexual da protagonista, aos 14 anos, com um garoto de 16. O ano era 1984, e o foco é na falta de jeito dos dois adolescentes, que não sabem muito bem o que fazer…

  4. ballah01 02/01/2015

    Concordo contigo,Piscies, convém sabermos em que género estamos a escrever, mas não convém fazer o puro dos clichés (também não exagerar na originalidade, pois muitas vezes o editor e público não aceitam bem por não ser vendável e muito diferente do normal).

    Pena é só encontrar as cenas obrigatórias dos géneros mais vistos como Suspense, romance, horror… Não encontro nada de fantasia e ficção científica, ou esses géneros estão “livres” de tais cenas (o que duvido) ?

  5. 1arikK 08/08/2016

    Compartilho do pensamento do usuário ‘Piscies’ a respeito desse artigo e também a dúvida do usuário ‘ballah01’: afinal de contas, quais são os exemplos de cenas obrigatórias para gêneros como ficção e fantasia épica, gêneros que fazem parte do livro que estou tentando escrever? Ou, como ele escreveu, esses gêneros estão livres de tais cenas?

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