Aprenda a criar realidades com palavras

Os 2 enredos das histórias de ficção envolventes.

Por Diego Schutt em 22/11/2013 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Se alguém pedisse para você contar a história da sua vida em cinco minutos, que acontecimentos você incluiria? Em função do limite de tempo, você seria forçado a mencionar apenas o que considera mais relevante.

Essa escolha de que acontecimentos são relevantes incluir na narrativa da sua vida não é aleatória. No contexto de uma entrevista de emprego, por exemplo, você vai focar sua narrativa nas suas experiências profissionais e educacionais, que provem para seu entrevistado que você é um bom candidato para a vaga. Mas se você está contando sobre sua vida para alguém em quem você está interessado em namorar, você vai focar em compartilhar experiências que ilustrem o que você considera aspectos positivos da sua personalidade, e convençam a pessoa que você é um ótimo partido.

Em ambos os casos, você filtra o que incluir na narrativa com base no que deseja (nos exemplos anteriores, convencer alguém a lhe empregar ou lhe namorar) e no contexto social em que se encontra (nos exemplos anteriores, uma entrevista de emprego ou um jantar romântico). Ao desenvolver o enredo de uma história de ficção, considere esses mesmos filtros para avaliar que acontecimentos incluir no texto: o desejo do protagonista e o contexto criado pelo conflito da história.

O conflito da história levanta na mente do leitor a pergunta “O que vai acontecer daqui para frente?”. A partir desse ponto, a narrativa vai desenvolver e aprofundar esse conflito, revelando, pouco a pouco, informações sobre o universo da história e aspectos mais profundos da personalidade, identidade e caráter dos personagens.

Os principais obstáculos que o protagonista encontra ao longo da história têm como objetivo fundamental revelar a forma peculiar como tal personagem usa suas habilidades físicas e psicológicas para resolver conflitos.

Enredo é uma sucessão de acontecimentos, interligados por uma relação de causa e consequência.

O acontecimento A causa o acontecimento B que resulta no acontecimento C que causa o acontecimento D que resulta no acontecimento E e assim por diante.

A frase “O marido de Angela morreu e ela voltou a dançar salsa.” não tem a promessa de um enredo porque um acontecimento não está conectado ao outro e, portanto, não desperta nossa curiosidade. “O marido de Angela morreu PORQUE ela voltou a dançar salsa.” tem a promessa de um enredo porque um acontecimento causa o outro e nos deixa curiosos para entender a relação entre eles.

Essa sucessão de acontecimentos pode ocorrer em dois níveis: no nível concreto, focando nos comportamentos dos personagens (enredo de fora), e no nível abstrato, através das emoções dos personagens (enredo de dentro).

Enredo de Fora

O enredo de fora está relacionado à linha de ação da história. Ele é desenvolvido a partir dos comportamentos de cada um dos personagens que influenciam ou tem impacto direto no conflito do protagonista. O enredo de fora é a espinha dorsal da narrativa que define tudo o que vai acontecer concretamente.

Sua estrutura tem como objetivo ajudar o leitor a organizar a cronologia da história dentro da sua cabeça e, progressivamente, complicar e intensificar o conflito do protagonista, para manter tensão na narrativa e criar expectativas sobre as consequências desses acontecimentos.

Enredo de Dentro

O enredo de dentro está relacionado à ideia-chave da história. Ele é desenvolvido a partir das mudanças na personalidade e na identidade do protagonista ao longo da narrativa. O enredo de dentro contextualiza essas mudanças de caráter a partir do impacto emocional dos acontecimentos externos no protagonista e em sua tentativa de reconciliar sua identidade (a pessoa que ele deseja ser) com a pessoa que ele acredita estar se tornando em função das ações e decisões que se viu obrigado a tomar para tentar resolver o conflito da história.

Sua estrutura tem como objetivo criar um arco dramático para o protagonista que envolva o leitor, fazendo ele enxergar os acontecimentos do enredo de fora do ponto de vista do personagem e, assim como ele, chegar ao final da história transformado pela experiência.

 

Observe abaixo o enredo de fora e de dentro da série de tv Breaking Bad. texto abaixo contém informações básicas sobre o enredo das primeiras temporadas da série.

Enredo de Fora de Breaking Bad

O professor de química Walter White descobre que tem um tumor incurável nos pulmões. O personagem decide estabelecer uma parceria com um ex-aluno para produzir e vender metanfetamina. Seu objetivo inicial é fazer dinheiro rápido para pagar pelo seu tratamento e deixar uma herança para sua família.

Mas nem tudo é tão simples quanto ele imaginava. Ele aos poucos percebe que precisa enfrentar uma série de obstáculos para que possa atingir seu objetivo. Como consequência, ele se vê obrigado a se envolver mais e mais no submundo das drogas, o que complica ainda mais a situação e o deixa ainda mais longe de alcançar seu objetivo.

Quando ele descobre que seu câncer começou a diminuir e que ele não corre mais risco de morte iminente, sua visão sobre o conflito inicial da história muda. Walter White agora não precisa mais se preocupar em deixar dinheiro par a família. Ele agora quer encontrar uma forma segura de fazer parte do submundo das drogas, e manter as pessoas que são importantes para ele fora de perigo, para que ele possa seguir produzindo e vendendo metanfetamina e ganhando milhões de dólares no processo.

Enredo de Dentro de Breaking Bad

Walter White viveu grande parte da sua vida se sentindo fracassado, pequeno, medíocre. Desenvolveu sua identidade ao redor da imagem de bom pai, bom marido, bom empregado. No dia em que completa 50 anos, ele descobre que está com câncer e sente que não tem mais nada a perder.

Quando prova o sabor do sucesso e do poder ao produzir a metanfetamina mais pura do mercado, ele se sente vivo, no controle da sua vida pela primeira vez. Sua preocupação inicial é aliviar a culpa moral que sente por estar envolvido no submundo das drogas, e se convencer de que tudo o que está fazendo é para o bem de sua família.

A medida que ele vai ganhando status e poder como traficante, sua ambição passa a ser controlar a tudo e todos que estão ao seu redor, para que nada ou ninguém ameace a única fonte de sua autoestima: o império que ele criou no submundo das drogas. É sua tentativa desesperada de provar para si mesmo que não é fracassado, pequeno e medíocre.

 

Como manter o interesse do leitor no que acontecerá na sequência da sua história?

Introduzindo acontecimentos no enredo que provoquem perguntas em sua mente, que o motivem a continuar lendo para descobrir as respostas. Essas perguntas podem estar focadas em criar mistério ou suspense na narrativa. Esses são os ingredientes que mantém o leitor interessado no que acontecerá na sequência da história.

Qual a diferença entre mistério e suspense? Mistério apela para o intelecto, escondendo de nós informações importantes para entendermos certos aspectos da história e, assim, nos deixando curiosos sobre o que está acontecendo. Suspense apela para as emoções, revelando algo para nós que um personagem não sabe e, assim, criando expectativas sobre o que estar por acontecer.

Certos pontos da história levantam perguntas que nos deixam curiosos para entender O QUE está acontecendo. Observe o seguinte exemplo. O banco onde o protagonista trabalha como segurança é invadido por um grupo de pessoas armadas vestidas de palhaço. Por que eles estão vestidos de palhaço? Nem o personagem nem o leitor sabe. Resultado: mistério focado no enredo de fora.

Considere a mesma história, mas um contexto um pouco diferente. O narrador do texto menciona que, antes de entrar no banco, a líder do grupo decidiu que é melhor matar todas as testemunhas depois do assalto. Como o protagonista vai escapar dessa situação? O personagem não sabe da motivação dos bandidos, mas o leitor sabe. Resultado: suspense focado no enredo de fora.

Outros pontos da história levantam perguntas que nos deixam curiosos a respeito do PORQUÊ certos personagens estão se comportando de uma forma inesperada. Ainda usando a mesma história como exemplo, considere o seguinte contexto. O protagonista estava no banheiro quando o grupo armado invadiu o banco e ele poderia, se quisesse, ligar para a polícia, mas decidiu não ligar. Por quê? O personagem sabe, mas o leitor não sabe. Resultado: mistério focado no enredo de dentro.

Considere este outro contexto. Sabemos que a líder do grupo de assaltantes é irmã do protagonista, que ele não a vê há cinco anos e, por isso, não ligou para a polícia. Ele escuta o plano dela de matar todo mundo ao final do assalto do banheiro e decide tentar convencê-la a não machucar ninguém. Por que eles passaram tanto tempo sem se ver? Como será esse reencontro entre os dois irmãos? Como ela reagirá ao pedido dele? O personagem e o leitor criam certas expectativas sobre o que vai acontecer, mas não sabem quais serão as consequências dessa situação. Resultado: suspense focado no enredo de dentro.

A grande diferença entre mistério e suspense é o grau de envolvimento do leitor. Mistério desperta curiosidade para saber o que vai acontecer no enredo. Suspense nos envolve para saber o que vai acontecer com o personagem. 

Mistério coloca você dentro de um cenário. Suspense coloca você dentro de um personagem. Para criar mistério, você precisa esconder do leitor certas informações e explicações sobre certos aspectos da história. Para criar suspense, você precisa, primeiro, fazer o leitor se importar com o personagem, enxergar o mundo como ele para que, na sequência, o leitor viva os conflitos e dilemas da história na pele desse personagem.

Em que pontos da história é melhor focar no enredo de fora e no enredo de dentro? Quando você quiser dirigir atenção para os comportamentos dos personagens, foque no enredo de fora. Quando você quiser focar na experiência emocional dos personagens, foque no enredo de dentro.

Pense no enredo como um labirinto que dificulta a trajetória do protagonista, algumas vezes em função de obstáculos concretos, outras vezes devido a obstáculos psicológicos. Esses obstáculos que o protagonista enfrenta ao longo da história são como testes que forçam o personagem a sair da sua zona de conforto para ter a chance de alcançar seu desejo. Não existem garantias de que seu plano vai dar certo, mas assim como em nossas vidas, a experiência é o que nos transforma, nos faz amadurecer, não o resultado final.

E você? Costuma pensar nos dois tipos de enredo quando escreve histórias de ficção?

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais propósito, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 6 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

12 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Maria Eduarda 22/11/2013

    Uma coisa que acho muito interessante que acontece comigo é que, mesmo que de forma inconsciente, acabo seguindo todas as dicas do site =). É como se só estivesse descobrindo os “nomes” de tudo aquilo que tenho feito…

  2. Calebe Sagaz 22/11/2013

    O enredo de fora se baseia em fatos concretos, enquanto os de dentro são os motivos pelos quais as personagens fazem tal ato, e porquê.

  3. Laís Helena 23/11/2013

    Quando comecei a escrever minha história de fantasia, aos 13 anos, pensava apenas no enredo de fora. Contudo, com o passar dos anos, fui percebendo que apenas isto não era suficiente. Replanejei todos os meus livros e este ano estou reescrevendo a série inteira, agora também pensando no enredo de dentro. Percebi que, se além de desenvolver a trama também desenvolvermos os sentimentos dos personagens, o que os leva a tomar as atitudes que têm durante toda a história, a própria história se torna mais interessante, mais instigante, mais profunda (ou pelo menos um pouco mais profunda). Podemos, ao longo da história, discutir assuntos em paralelo com a trama principal, que muitas vezes tem a ver com os próprios questionamentos do leitor e do escritor, embora a princípio pareçam não contribuir para o enredo.

  4. Andresa 23/11/2013

    Ótimo post, como sempre.
    Sobre o “enredo de fora” e o “enredo de dentro”, eu nunca havia parado para pensar nisso. Para falar a verdade, acho que ao escrever minhas histórias penso majoritariamente no Enredo de Dentro, essa é uma coisa que preciso trabalhar…
    E mais uma vez, obrigada pelo Ficção em Tópicos, ele é sensacional XD!

  5. Marina 23/11/2013

    Tenho um livro na cabeça e em algumas primeiras páginas rascunhadas, e o que me moveu principalmente a criá-lo foi o mundo interno da personagem principal, que precisava de um choque existencial para se tornar mulher. A história de fora acabou surgindo a partir da história de dentro.

  6. Thamy 23/11/2013

    Ótima dica. Post pequeno, mas bastante esclarecedor e útil. Realmente é um pouco difícil desenvolver os dois lados, e mesmo em obras mais famosas e reconhecidas, já consegui notar deficiências nesse quesito. Obrigada!

  7. Arthur Quadra 12/12/2013

    Geralmente penso no enredo de dentro para escrever o de fora, mas no final acabo escrevendo o de fora.

  8. Dimaz 16/01/2014

    Tema bastante universal para pensar uma história!

  9. Renan Pereira 12/01/2016

    Parabéns pelo Ficção em Tópicos e muito obrigado por disponibilizar um material tão vasto e valioso.
    Sempre rascunhei inícios e trechos de livros, mas nunca dei sequência a um projeto.
    Com as dicas do Ficção vou tentar finalmente pôr em prática até o final.

  10. Isabela 03/02/2016

    Suas dicas são sempre esclarecedoras e muitíssimo enriquecedoras.
    Parabéns e muito obrigada pelo trabalho.

  11. MATEUS 07/08/2016

    Descobri esse site por acaso, o que me deu forças pra continuar escrevendo.

  12. Renan Pereira 14/08/2016

    Sempre grato pelos ensinamentos do Ficção em Tópicos! Excelente!

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