Aprenda a criar realidades com palavras

A importância de roteiros não produzidos e livros não publicados.

Por Diego Schutt em 04/10/2013 Tópicos: escrever, inspiração
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Abaixo você encontra minha tradução livre de trechos da entrevista que o Robert Mckee deu para o site Big Think. Ele fala sobre a importância de se escrever roteiros que não serão produzidos e livros que não serão publicados.

As palavras que você escreveu para colocar na boca dos personagens, os diálogos, talvez não chegue à tela da forma como você escreveu. Atores geralmente cortam, editores cortam, há improvisações etc.

Então você não deve confundir palavras com [histórias]. O que você escreve em termos de personagens, dos eventos na vida deles, do significado [da narrativa] e do impacto emocional do storytelling, isso corresponde apenas a 80% da história. Diálogos e descrições é uma parte relativamente pequena do processo criativo de televisão e cinema. […]

Se um roteirista realmente pensa que o maior dos seus esforços está na criação de diálogos, então ele deveria estar escrevendo para os palcos, onde cada palavra dos seus diálogos, por lei, deve ser falada pelos atores. […]

A grande maioria de todos os livros escritos nunca são publicados. A grande maioria de todas as peças de teatro escritas jamais são atuadas. A grande maioria das pinturas pintadas nunca são penduradas em uma parede. A grande maioria das músicas escritas jamais são cantadas em público. Essa é a natureza das coisas. […]

O grande número de [trabalhos] de qualquer ato de criação em qualquer forma de arte nunca chega ao mundo porque a grande maioria é uma merda. Também há casos em que coisas boas acabam sendo soterradas entre porcarias e um monte de merda acaba vindo ao mundo.

É injusto, mas se a questão é se escrever um roteiro que nunca chega a ser produzido tem algum valor, é claro que tem um valor enorme porque, para generalizar novamente, a maioria dos roteiristas, mesmo os mais talentosos, os primeiros 10 roteiros que eles escrevem nunca são produzidos. […]

Aquele roteiro não produzido ou livro não publicado traz um benefício enorme para o escritor porque você tem que falhar. Você tem que estar disposto a criar pelo menos 10 trabalhos completos de storytelling para aprender a dominar a [linguagem dessa arte] e crescer [como artista]. 

Eu escrevia quando estava na faculdade. Quando eu lia minhas peças, eu dizia “meu deus, esse é o trabalho de uma pessoa realmente imatura”. Mas eu era imaturo. Não havia nada que eu pudesse fazer sobre isso. Levou mais 15 anos de vida, quando eu voltei a escrever, para eu conseguir criar algo de qualidade.

Então enquanto você está escrevendo roteiros e livros que ninguém se interessa, você também está vivendo, recolhedo insights sobre você mesmo e tudo isso se torna material para seus [projetos de escrita] futuros.

Esses trabalhos não produzidos ou publicados são extremamente importantes. Eles devem ser criados para que o escritor possa finalmente atingir seu primeiro sucesso.

Às vezes, você lê no jornal sobre um escritor de 23 anos que teve seu primeiro livro publicado ou seu primeiro roteiro produzido. Essas coisas acontecem só para atordoar os escritores realmente bons que vão demorar 10 anos para [chegar naquele ponto]. E quando eles finalmente chegam, eles produzem trabalhos de real qualidade.

 

E você, quantos roteiros não produzidos ou livros não publicados já criou? Deixe um comentário.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

10 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. vitor 04/10/2013

    Muito bom esse texto. Tudo o que disse é verdade, porque eu já descartei inúmeros trabalhos imaturos, e iniciando outro em seguida que apresentava qualidade superior.

  2. José 23/10/2013

    A melhor maneira de aprender algo é errando, afinal.
    Ótima publicação.

  3. Bruno Gandin 27/10/2013

    Realmente. Hoje eu vejo a diferença de como escrevo se comparado há uns 4 anos atrás. Aprendemos errando, por isso é sempre bom ler diversas vezes o que você escreve.
    Vejo isso, quando escrevo em meu blog e depois faço a releitura, sempre corrijo algo…

  4. Lorena do Amaral Francisco 09/11/2013

    Até que ponto eu devo insistir num roteiro, que pessoalmente acho bom, mas que não consegue sair do papel?.

  5. Suzana Opatrny 28/11/2013

    Por anos venho sendo cobrada para contratar uma empresa para descrever os servicos que prestamos ao mercado. Digo que ninguém fará melhor do que nos que conhecemos a nossa verdadeira história e vinvenciamos o mercado nos mínimos detalhes. A cada passo que damos percebo que estamos longe do ideal, mas chegaremos la se houver dedicação e inspiração de todos..

  6. Carolina Hencklein 07/12/2013

    Quantos roteiros, contos, poemas não publicados ou produzidos?
    Nem parei para contar, apenas os releio – depois de um mês – vejo as falhas e o que falta.
    tenho algumas Fics publicadas em um site, porém as mais antigas vendo agora… são horríveis!

  7. marcelo rocha 02/03/2014

    Palavras vindo de um grande escritor e professor, belos pensamentos Parabéns pessoal!!

  8. siul otrebla 03/02/2016

    Gostei do texto mas eu na verdade estou escrevendo meu primeiro roteiro ou melhor tentando e na verdade quanto mais escrevo mais cenas vem a minha mente e não consigo chegar ao final e que na verdade não consigo visualizar um final que seja tão grandioso quanto a historia que estou a contar mesmo porque eu penso que o final de um filme e tudo em uma historia e já escrevi 187 paginas e apenas passei da metade do filme mas acho que vou conseguir terminar no momento certo e obrigado pelo texto foi muito instrutivo.

  9. Matheus 10/02/2016

    Isso é um pensamento de alguém com real experiência. De fato, somos tomados pelo imediatismo, pela ânsia inerente ao homem contemporâneo de querer guiar os acontecimentos à nossa maneira, no nosso tempo. Estamos produzindo visando o reconhecimento, de preferência imediato. Talvez grandes artistas potenciais se percam com esse pensamento e pressa e se desmotivem. Acho o questionamento da Lorena, acima, sobre quanto insistir em um roteiro que parece não ter jeito, bem válido.

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