Aprenda a criar realidades com palavras

Um minicurso do Neil Gaiman para quem quer ser escritor.

Por Diego Schutt em 25/09/2013 Tópicos: dicas, escrever, inspiração, storytelling
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Abaixo você encontra minha tradução livre de um trecho editado da entrevista que o Neil Gaiman deu para o Nerdist podcast. Ainda não escutei a entrevista inteira, que dura 1 hora e 12 minutos, mas mesmo esses 5 minutos do vídeo editado já são um minicurso para quem quer ser escritor.

IDEIAS E RASCUNHOS

Para mim, escrever sempre foi um processo de tentar me convencer de que o que estou fazendo no primeiro rascunho não é importante. Me lembro da sensação de liberdade incrível quando deixei de usar uma máquina de escrever e passei a usar um computador, porque eu não estava mais criando pilhas de papel. Era apenas especulação, imaginação. Eu estava escrevendo aquelas palavras, mas elas não tinham importância.

Então, uma década depois, me lembro da mesma sensação de liberdade quando me dei conta que podia escrever em blocos de anotações, porque o texto não parecia real até que eu digitasse no computador. Uma das coisas que ainda faço é escrever em blocos de notas. Eu simplesmente escrevo a mão porque não é real.

Uma forma de ultrapassar o bloqueio de escritor é se convencendo que seu primeiro rascunho não importa, ninguém nunca vai ler o que você escreveu ali. Talvez seja isso que esteja deixando você tão agoniado, mas honestamente, o que quer que você esteja escrevendo pode ser consertado. Você pode consertar amanhã ou na semana que vem. Por agora, simplesmente coloque as palavras para fora da sua cabeça, apenas registre a história da forma como você conseguir e deixe para consertar ela depois.

INSPIRAÇÃO

Se você só escreve quando está inspirado, talvez você seja um bom poeta, mas você nunca será um romancista, porque você precisa atingir sua meta de palavras a cada dia. E essas palavras não vão esperar que você decida se está inspirado ou não.

Então, você deve escrever quando não está inspirado. E você tem que escrever as cenas que não inspiram você.

O mais estranho é que em 6 meses ou 1 ano, você vai olhar para essas cenas e não vai lembrar quais você escreveu porque estava inspirado e quais simplesmente escreveu porque era a cena seguinte da história.

PROCESSO

O processo de escrita pode ser mágico. Há momentos em que você dá um passo para fora da janela e caminha no ar. Quando isso acontecer, vai trazer grande felicidade para você. Mas acima de tudo, escrever é o processo de colocar uma palavra após a outra.

Na Inglaterra e na Escócia, existem pessoas que fazem muros de pedras seca. E elas tem feito muros de pedra seca por gerações. Elas fazem esses muros com varias pedras. Colocam uma, depois colocam outra que se encaixa nela, e outra que se encaixa nesta. E de alguma forma, elas criam esses muros que são absolutamente estáveis. Simplesmente colocando uma pedra após a outra, eventualmente você vai ter um muro.

É assim que você cria uma história. Você coloca uma palavra depois da outra e depois você repete.

GÊNEROS

Quando as pessoas me perguntam “eu quero ser um escritor, o que preciso fazer”? Eu digo “você tem que escrever”. Às vezes elas me dizem “eu já estou fazendo isso, o que mais preciso fazer?” e eu digo “você tem que terminar seus textos”. É assim que você aprende. Você aprende terminando textos.

Exitem outros conselhos, tem tantos conselhos que se pode dar para escritores iniciantes, particularmente para escritores que querem trabalhar com determinados gêneros. Leia o gênero que você quer escrever para ver o que outros escritores estão fazendo. Depois, leia fora da sua zona de conforto. Se você ama um certo tipo de filme e quer escrever um triller de ação para Hollywood, assista também outros tipos de filme. Assista a documentários. Conheça outras referências.

Se você gosta de livros de fantasia e você quer ser o próximo Tolkien, não leia apenas fantasias parecidas com as histórias de Tolkien. O Tolkien não leu fantasias parecidas com as histórias de Tolkien. Ele leu livros em finologia finlandesa. Você deve ler fora da sua zona de conforto para aprender sobre coisas diferentes.

ESTILO

E meu conselho mais importante para qualquer pessoa que atinge um certo nível de qualidade é conte sua história. Não tente contar as histórias que outras pessoas podem contar.

Porque qualquer escritor iniciante vai começar escrevendo com as vozes de outras pessoas. Você vem lendo outros escritores há anos, você vai escrever sobre suas próprias experiências, mas assim que possível, comece a contar as histórias que somente você pode contar. Sempre vão haver escritores melhores que você, mais inteligentes que você. E sempre vão existir escritores melhores nisso ou naquilo.

Mas você é o único você. Tem escritores melhores que eu por aí, existem escritores mais inteligentes, pessoas que criam enredos melhores, etc, mas não existe ninguém que consegue escrever uma história do Neil Gaiman como eu.

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Concorda com o Neil Gaiman? Discorda? Deixe um comentário.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

13 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Guilherme Gonçalves 25/09/2013

    No primeiro item do mini-curso eu faço isso desde que comecei a escrever. Sempre que ia começar uma estória no word, ou em qualquer outro software, a coisa ia lenta, arrastada, ai comecei a tentar no papel e é incrível como a coisa flui. Outra coisa que gosto muito no papel, é que mesmo que você não goste de certa frase ou até mesmo um parágrafo que acabou de escrever, você dificilmente vai apagar, agora no computador você o faz sem pensar duas vezes.

    E também tem o fato da primeira revisão, sou tremendamente preguiçoso e só de pensar em ter que digitar meu conto novamente me da arrepios, mas quando faço o rascunho no papel eu sou obrigado a reescrever a estória, recomendo a todos que tentem escrever no papel.

    Gostei muito das dicas quanto ao processo de escrita.
    Parabéns pelo post, seu site é muito bom mesmo.

  2. piscies 25/09/2013

    Sigo de perto o Neil. Faço anotações, como ele falou. As anotações são sempre boas mesmo. Faço-as sempre que algo me vem a cabeça, para não perder a ideia. Depois mudo ou adapto. Como ele mesmo falou, ninguém vai ler isso, só você. É um filhinho seu.

    Gostei do conselho de “ler fora da sua zona de conforto”. É verde, bem verdade. Meio que sem querer, estou fazendo isso. Comprei uns livros de Jorge Amado, Kafka e Edgar Allan Poe… mas escrevo ficção cientifica! =)

  3. yeh 26/09/2013

    O Neil Gaiman é sempre genial.

    Se não for um incômodo, poste o resto das dicas (você disse ter escutado só cinco minutos)…

    Obrigado!

  4. Newton Nitro 26/09/2013

    Concordo com tudo! Eu sempre tive dificuldade para escrever a primeira versão (ou o primeiro rascunho) de um livro, começava forte e depois ficava preso em edições e revisões desnecessárias, o que bloqueava o processo criativo.

    Foi depois de muito tempo que descobri que os escritores profissionais, em sua maioria, usam a primeira versão para jogar todo o texto para fora da mente, para criar, explorar, arriscar, escrevendo livremente. E que diferença quando comecei a fazer isso! Eu normalmente uso o computador, porque consigo teclar na velocidade das coisas que vou imaginando, mas também gosto de usar cadernos para fazer anotações, desenhos de mapas das histórias etc.

    Parabéns pela matéria e pelo site, existe pouco material para ajudar escritores em português. 🙂

  5. gustavo storti 06/10/2013

    caraca. mto bom!

  6. Lucas 11/10/2013

    Isso é muito verdade! Principalmente a parte das idéias e rascunhos. Tenho um caderno onde anoto várias idéias e até mesmo histórias, e realmente quando escrevo nele, tudo flui de uma maneira melhor. Acho que é por que, como ele mesmo disse, você sabe que aquilo é só um rascunho e que ninguém vai ler!

  7. Ane 22/11/2013

    Olá, tudo bem? adoro todas as dicas do site. São ótimas.
    O que anda me “travando” nos últimos dias é a escolha do narrador. Bem, eu tinha certeza absoluta que a história seria contada em terceira pessoa. De repente, tive a súbita ideia de tentar fazer uma continuação de um livro que ainda não terminei! É um absurdo eu sei, não tenho ideias suficientes para o primeiro e já estou pensando em um segundo 🙁 Mas quem pode parar a mente de um aspirante a escritor?
    Então eu me pergunto: QUAL NARRADOR ESCOLHER? eu gosto dos dois não tenho preferencia e isso dificulta ainda mais a minha escolha.
    Esse comentário está mais para um desabafo. Tudo que eu leio sobre o assunto ao invés de ajudar, acaba me confundindo.
    enfim, boa noite.

  8. RaquelSt 18/12/2013

    Oi como vai?
    Eu queria dizer que adorei as dicas, parece que minha mente foi iluminada. E eu precisava dessa luz… Estou á três anos tentando criar algo mas parece que, tudo que faço é ruim. Eu iniciei fazendo fanfics de filmes e outros livros, mas nem mesmo assim eu consigo sair das paginas em branco. Atualmente eu escrevo sobre uma caçadora de espíritos (como em sobrenatural). Mas publicar isso seria como pedir pra ser processada. Meu problema mesmo é não conseguir escrever. Não consigo encaixar as palavras como fazem com as pedras. Tenho medo de nunca conseguir criar o muro… Se puder me ajudar, ficarei agradecida…
    Pra finalizar, você fez um ótimo trabalho. Esse texto foi o melhor de todos. Esse site com suas dicas, fazem toda a diferença pra um “novato” 🙂 obrigada pela ajuda e até mais!

  9. Má Matiazi 22/01/2014

    Excelentes dicas! Estou usando várias delas atualmente, é muito bom ver um escritor experiente reafirmando isso, me deixa mais segura.

    Coisas como “milhões de escritores são melhores que você, mas você é o único você que existe” é muito válido. Resolve problemas de auto-estima que me freavam e me faziam consertar textos ao infinito. “Termine seus textos”, “não tenha medo de mudar de ideia”… Pequenas coisas que nos tiram travas e nos fazem avançar nesse sonho.

    Escrever sem estar inspirada, ando fazendo muito, e não é que sai mesmo? No meio do processo você até se inspira! Trechos intermediários, daqueles que você não colocou nenhuma expectativa, acabam saindo por vezes melhores que outros que vieram por inspiração.

    Ler todos os autores, todos os temas… É ótimo! Enriquece o repertório verbal, abre a mente para outros universos.

    É um desafio imenso e é muito estimulante ter um site como esse para nos dar uma mão. Agradeço sempre!

  10. ricardo santos 23/01/2014

    Depois de muitos anos, escrevendo, reescrevendo, jogando material fora, deixando romances inacabados,eu finalmente entendi que duas coisas são as mais importantes para um escritor, e Neil Gaiman fala delas aqui: 1)termine seus textos, porque isso prova, para o próprio escritor acima de tudo, que ele pode contar uma estória do começo ao fim, não necessariamente nessa ordem; e 2)o primeiro rascunho pode realmente ser ruim, o que importa é colocar os personagens agindo e falando, e fazer a trama seguir. Depois você pode voltar e mudar muita coisa, talvez tudo. Pelo menos, você vai saber o que não funciona para sua estória.

  11. Carla Daniel 25/03/2014

    Encontrar sua doces palavras me fizeram chorar,descobrir que existem pessoas que leem sua alma te confortam muito mais e te trazem esperanças pros, eu nasci para transcrever minha alma e deixar o meu amor nos livros, não sei se escolhi a escrita ou se ela me escolheu mas desde que me entendo por gente eu transformo minha mente em poesia, sou romancista, e cada trecho que li na suas pronuncias me trouxeram a emoção de saber que em breve vou me revelar, não importa a quanto custe, mas sei que devemos ter persistência e garra, suas DICAS foram valiosas, e sua sabedoria me ensinou que nada sei, muito obrigado! Carla Daniel, a escritora, ou autora sei la, rs, rs!

  12. Rebecca martins 09/02/2016

    Bom, adorei o topico, eu leio as vezes só por lê mais isso me ajuda bastante.
    Tenho duas pastas cheias de anotações, as vezes eu dou titulos para não confundir as coisas já que cheguei a avaliar idéias antigas com idéias mais recentes do mesmo livro e bem, chego até desconfiar se eu não confundi os textos, são totalmente diferentes.

  13. maria cecilia 18/09/2016

    Gostei muito das suas palavras. Curiosamente eu sempre fiz assim, intuitivamente. Escrevia no papel sem medo da história que eu tinha para contar. Contava como falando, sem me preocupar com regras. Só depois comecei a melhorar e corrigir a forma, mas ai aquilo já não era meu! E no fim, deu um livro! Intuitivamene enviei para uma editora e aceitaram publicar! E como diz, há tantos melhores, tantas historias fabulosas, mas a minha é só minha! Ninguém a conta melhor do que eu!
    Mas as suas dicas ainda me vão ajudar muito!
    Gosto da maneira como fala das coisas!
    Importante, como diz, é ler muito, ler diferentes autores, estilos diferentes, eu gosto particularmente dos clássicos, mas espreito a literatura moderna e tenho encontrado verdadeiras jóias.
    Muitos parabéns pela sua página!

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