Aprenda a criar realidades com palavras

Escrever histórias para que?

Por Diego Schutt em 13/09/2013 Tópicos: escrever, inspiração
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Se eu somasse todas as horas que dediquei para escrever histórias de ficção, seria alarmante a quantidade de vida que passei sozinho, e as tantas oportunidades que deixei de estar com gente de verdade para ficar em casa inventando pessoas.

Tenho algo importante para dizer, eu repetia megalomaniacamente enquanto escolhia palavras, reorganizava parágrafos e relia meus textos infinitas vezes. Me convenci que minha missão era relatar as verdades da vida que passam desapercebidas pelos olhos apressados do cidadão comum.

Eu escrevia ansioso pela chegada do momento solene em que outras pessoas leriam meus textos e se emocionariam profundamente, mudariam suas vidas, enxergariam o mundo ao seu redor com olhos virgens. O momento chegava, mas nunca com essa solenidade toda. Recebi sorrisos educados, alguns elogios entusiasmados, e palavras de incentivo para seguir escrevendo. Parecia pouco para todo o sofrimento que era parir uma história.

A verdade que resisti em aceitar é que meus textos não importam, meus textos não mudam nada, e as horas que passo obcecado tentando encontrar as palavras certas são simplesmente para satisfazer minha insanidade.

As pessoas dedicam sua atenção as minhas histórias por alguns minutos e, no segundo seguinte, seguem com suas vidas. Leem meus textos e assistem a novela, leem meus textos e estendem roupas, leem meus textos e espremem espinhas. E o mundo segue como sempre seguiu.

Horas e mais horas para escrever as primeiras linhas. Dias inteiros para escrever um parágrafo. Semanas de angústia repensando, revisando, relendo, rescrevendo. Para que? Quem se importa? Que diferença isso faz?

Faz tanta diferença quanto as centenas de pontapés que dei na porta de casa quando minha mãe voltou a trabalhar depois que minha irmã mais nova nasceu. Eu sabia que isso não faria ela pedir demissão ou estender a licença maternidade. Mas segui chutando a porta incansavelmente por semanas pelo mesmo motivo que eu sigo escrevendo: foi a única forma que encontrei de não ser corroído pelo meu medo de solidão.

E você, escreve histórias para que?

Sobre o Autor

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

18 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Lucas Bueno 13/09/2013

    Só isso? não existiriam formas muito mais eficientes para aplacar este “medo de solidão”? ou talvez, a escrita seja um fim em si mesma? como Camus disse, criar é viver duas vezes. ou então, apenas mais um defeito de fábrica como falava Caio Fernando de Abreu?
    Para mim, é inútil esse negócio de escrever, tanto quanto as outras coisas, acontece que, a luz está lá. Apesar de nossa preguiça, nossos vícios, nossas vidas meio medíocres, a luz está lá. É a insanidade esta luz, a fronteira, o humano e o divino. Apesar de nós…
    chutar a porta
    chutar a porta
    chutar a porta
    quem se importa?
    não me importa,
    só importa
    chutar a porta
    chutar a porta
    chutar a porta.

  2. Diego Schutt 14/09/2013

    Lucas, uma poesia essa sua resposta. Eu escrevo por um monte de motivos diferentes. Mas lá no fundo, onde se escondem uns pensamentos que prefiro não mexer, encontrei esse texto. É mais um chute na porta para ver se alguém aí fora fala “eu também”, e me ajuda a me sentir menos sozinho na minha loucura.

  3. Flavio 14/09/2013

    Escrevo porque vivo, embora possa viver sem escrever. A vida de um escritor é árdua, mas a sensação de ver o seu livro pronto e publicado e você mesmo lê-lo é sem igual.

    Posso até viver sem escrever, mas ter a chance de criar mundos em que você é quem decide que vai acontecer é divertido, além do que a própria identificação com os seus personagens. Considero alguns personagens meus como amigos, outros como inimigos. Odeio alguns, amo outros, gostaria que alguns até mesmo existissem. Acho que é por isso que escrevo. Porque há vida dentro dos livros.

  4. helio 14/09/2013

    Algumas horas é por carência, uma forma de pedir atenção de forma escondidinha. Outra hora é pq não consigo mais chorar, aí choro no papel (adoro um drama). Às vezes escrevo pra mim, só pra mim. Aí vejo o quanto sou bacana e bobo ao mesmo tempo. Escrevo pra fazer amiguinhos, pra fotografar uma cena com palavra, pra falar: “mãe, eu te amo”. Escrevo pra tocar o outro e quando isso acontece vejo a felicidade sentada no sofá da sala com os pés na mesinha…

  5. Nathalie 14/09/2013

    Pra mim escrever é vida não consigo viver sem escrever faz parte de quem eu sou de quem eu gostaria de ser e de quem eu nunca irei ser e uma forma de eu viver em dois mundos sem nunca sair da real realidade bom minha singela opinião.

  6. Victor Gomes 15/09/2013

    Honestamente? Acho que de tudo que foi dito no post e nos comentários seguintes, só consigo concordar com Caio Fernando de Abreu. É um defeito de fábrica.

    Não escrevo a qualquer hora porque muitas vezes não posso, mas sinto a vontade de doida de escrever nos momentos mais esquisitos. É uma força suprema. Não é querer-escrever, é ter-de-escrever. Uma vez fiz uma crônica inteira em 10 sms que salvei na pasta Rascunhos do meu celular enquanto esperava minha vez no médico. Outra vez saí do meio de uma roda de amigos, com muito som e bebidas, para me trancar no banheiro e escrever. Já deixei de dormir noites inteiras escrevendo. Por ser essa coisa doida, caprichosa e totalmente descontrolada, prefiro me referir a inspiração como uma musa desvairada (inclusive, o nome do meu blog), além das nove de Apolo.

    Contudo, acredito que, no fundo, eu escreva para me enxergar além do espelho. Julgue-me um narcisista ou um obcecado, mas escrevo para ver o que escrevi, para ver o que fui dois minutos atrás, para saber se eu tenho qualidade, para saber se minha alma continua a se desenvolver, para saber se não estanquei no tempo, para saber se cresci… Acho que é isso.

    Mas como é só achismo meu, pode ser mais uma doidice minha. rs

    Na falta de argumentos sólidos, fico com a justificativa de que é um defeito de fábrica.

    Ótimo texto e oportunidade para reflexão, Diego! Acompanho sempre seu blog! 🙂

  7. G.F. Lima 16/09/2013

    já dizia um homem sincero: “todo autor de ficção é masoquista”! Eu sempre o repreendi por isso, achava que ele estava totalmente errado. Pois minha capacidade e a dos outros era especial, a capacidade de criar a cada instante mundos novos sem se prender — mesmo estando nela — à dura realidade. Porém agora vejo, que ele estava certo. Uma vez escrevendo ficção você é tragado por sua obra, e não há — vivo ou morto — autor que não tenha depositado em sua ficção sonho ou esperança. Por mais fatídicas que umas obras ou outras possam ser, isso apenas representa um anseio pela realidade, onde nem tudo é perfeito. Escrever ficção é desistir do mundo e tentar mudá-lo. Uma vez que a realidade é dura. Porém ela é decente, pois apesar de seus jogos e artimanhas lhe toma seu espirito as claras. Diferentemente da ficção que lhe prende eternamente num sonho tortuoso, pois a esperança de um sonho no mundo acordado, nada mais é do que agonia desejada, por que você sabe e vê a realidade, mas deixa de a viver, esperando por um sonho.

    Nós criamos mundos,infinidades de personagens, alguns até baseados em pessoas reais não é mesmo? Um grito da alma clamando por atenção, se o vazio não fosse preenchido por pessoas lá fora, talvez não procurasse por abrigo o seu coração.

    A mente de um louco pode ser às vezes, mais são do que um dito “normal”. Pessoas recriminam o diferente, qualquer inovação te classificará a loucura. Mas nós somos assim, não há o que se fazer.

    Por outro lado, você tem duas escolhas:
    1ª Podes continuara chutar a porta e sofrer com ela fechada.
    ou 2ª Pode abrir seus olhos, sua mente, seu coração. preste atenção, a porta está entre-aberta, termine de a abrir. levante-se e veja então, que não és o único que se sente sozinho mesmo em meio a multidão.

  8. G.F. Lima 16/09/2013

    Não posso parar de responder não é? e olha que preciso dormir…

    Diego, saiba que palavras são um conjunto de letras firmadas por uma argamassa chamada sentimento, cada letra, cada peça, juntas a esse sentir, formam o nosso castelo de emoções. Por isso palavras não podem ser ditas sem sentimento, ou nada serão além de letras vazias em uma ordem qualquer. Ás vezes o natural não pode ser dito com palavras, mas em outras, o inexplicável pode ser posto no papel.

    Tantas pessoas falam coisas vazias, são tão cheios de si, que não deixam um mísero sopro emocional sair. Sentimento de ódio, de amor ou de dor, todo autor ou escritor é capaz de se abrir nessas letrinhas a passar, mostrar ou até criar esses sentires.

    Por que escrever? Para num mundo repleto de palavras sem coloração, contribuir com palavras do coração, tingindo assim a realidade, dando a ela um pouco de ficção.

  9. Susi 16/09/2013

    Minha natureza é solitária, e mesmo assim tenho necessidade de pessoas, de companhia idealizada que nada se parece na realidade. Para evitar o sofrimento do esperar demais dos outros, prefiro ler as pessoas que os escritores inventam e quando não satisfeita,vou lá e crio os meus, ou corrijo aquelas histórias já publicadas até que fiquem do meu gosto (disparate, eu sei)
    Acho que todos os que escrevem carregam uma alma eternamente faminta pela companhia ideal que só existe nas suas páginas de papel ou digital. Alguns sofrem a vida toda com isso. Outros se tornam grandes escritores, mas mesmo assim sofrem. Me identifico muito por exemplo com a solidão de Neil Gaiman. Reconheço aquele sorriso discreto e os olhos em mim mesma.
    O escritor é uma alma que sofre, torturada pelos demônios do perfeccionismo inalcançável e sempre tentador. Só se obtém um pouco de alívio quando se despeja esses sentimentos intensos nos personagens e criamos. E esse processo de catarse não se prova concreto na realidade: nunca iremos encontrar de fato, as pessoas que criamos. Porque estes personagens no final das contas, somos nós.

  10. deniac 19/09/2013

    Escrevo para esvaziar os meus pensamentos. Me deixa tranquilo, satisfeito, em paz. E se um dia, todas essas palavras em conjunto valerem alguns trocados, fico com saldo positivo.

    Texto fabuloso, cara.

  11. Lucas Alves Serjento 19/09/2013

    Eu não acho que alguém possa responder com certeza porque escreve. Mas acho que ninguém pode responder com certeza o que é felicidade ou o que é amor. São significados de coisas assim que os escritores tentam exprimir nas poucas linhas que a oportunidade lhes dá. Então eu não acho que algum de nós vá conseguir descrever o prazer de escrever – ou ler – mesmo que diga que isso é um ‘defeito de fábrica’, o que é, ironicamente, a forma mais próxima de explicar esse transtorno que é a necessidade de escrever.
    Eu não acho mesmo que alguém vá responder o motivo porque escreve. E se o motivo for um só talvez seja suficiente para escrever uma história ou duas, mas não para transmitir mil e uma histórias…
    Acho que é bom então ficar no mais simples e intuitivo. Dizer que eu amo escrever porque isso me trás felicidade. E tratar como menos importante a definição de cada elemento de uma frase tão pura e tão complexa.

  12. Francisco 23/09/2013

    Sinceramente não sei para que eu escrevo, ninguém próximo de mim gosta de ler livro, preferem os filmes que já vem mastigado. As editoras não gostam dos meus livros. O mundo não gosta de mim. Escrevo porque sou louco, solitário e antissocial, mas quando saio para o mundo dos mortais, volto com as melhores inspirações para escrever. Escrevo porque entro em transe, converso comigo mesmo ou não. Escrevo porque crio um mundo alternativo, sei lá! Num sei nem porque estou escrevendo este texto. Só sei que sinto uma coceira para escrever. Por fim escrevo para ser imortal

  13. Julia 25/09/2013

    Eu escrevo pelo seguinte motivo: já que a vida não é como eu quero, pelo menos nas minhas histórias sou eu quem decide o final. Independente de ser feliz ou infeliz.

  14. Estevao Camargo 18/10/2013

    Julia, gostei da sua resposta, mas acho que nem sempre decidimos tudo.

    Pra mim escrever é algo simples, puro, a historia está lá esperando para ser contada, então simplesmente a conto. Se eu não a escrever ela nunca terá existido nesse mundo, então minha obrigação é deixa-la viva.

    Sei lá, acredito mesmo nisso, mesmo que não saiba explicar com palavras.

  15. Rebeca 22/11/2013

    Eu escrevo, unicamente, porque quero ajudar as pessoas. Do mesmo modo que os livros me ajudaram a escapar da realidade por breves instantes de angustia, que me permitiram respirar, recompor e tornar a enfrentar o mundo; quero ajudar pessoas que também precisam respirar, recompor e encarar o mundo depois de passar alguns instantes em outro.
    Não possuo nenhuma obrigação de escrever, creio que o faço porque quero fazer, porque me sinto bem e satisfeita, equivalendo a sensação de quando como um doce. A grande diferença é que o doce é menos proveitoso, e o momento que passei fazendo isso não ajudou ninguém alem de mim.

  16. R. Guerra 21/01/2014

    Uma pergunta muito profunda e filosófica, tal qual, “qual o sentido da nossa existência”?
    Minha resposta: Escrevo porque acredito que ao escrever eu construo um novo mundo(real).
    Acredito que podemos criar várias realidades e dimensões. Isso me faz sentir eternamente responsável pelos mundos que crio, pelos personagens, suas histórias… (Nessas horas, imagino como deve ser complicado ser Deus).
    Acredito que cada pessoa que lê uma história reforce sua existência, como se a visão daquele mundo ficasse mais clara e nítida.
    Sinto que algumas histórias são tão lidas, lembradas e pensadas que existe sim um lugar para onde toda esse energia vá.
    Eu dedico minha escrita a esses lugares fictícios que fazem tanta diferença para nós. Afinal, o que é mais importante: a realidade que não nos afeta ou a ficção que nos melhora?

  17. Nikki 01/04/2014

    Adorei o texto e todo o site em si.

    Acho isso uma boa pergunta, mas acho que escrevo porque simplesmente é a única coisa que me agrada e não me aborrece facilmente, apesar de que ser um escritor é realmente preciso paciência e compreensão. E também porque assim pode-se brincar um pouquinho de ser “Deus” e concretizarmos tudo aquilo que gostaríamos que acontecessem em nossas vidas diárias.

  18. Erick Gomes 02/01/2017

    Eu já pensei sobre isso. Por que escrevo? A escrita começou sendo uma forma de eu me comunicar comigo mesmo, sabe. Sempre fui muito tímido e tinha dificuldade em me abrir com outras pessoas. Eu tinha meus problemas, mas não gostava de expô-los às outras pessoas. Uma coisa que eu sempre pensei é o seguinte: “Todas as pessoas têm seus problemas, e ainda que possam me escutar por uns mintutos, têm seus próprios problemas para serem resolvidos. Então,para que incomodá-los com meus problemas também? Assim, comecei a escrever sobre isso, a falar comigo mesmo. Escrevia coisas que seria incapaz de dizer para o meu melhor amigo.
    Ainda que eu desejasse fazer isso, eu não abria a boca e dizia tudo o que pensava. Mas eu escrevia, e ainda hoje escrevo, sobre isso. E uma coisa que aprendi sobre a ecrita é que ela consegue me libertar das minhas emoções, ainda mais quando elas apenas me torturam.
    Escrevo sobre elas sem medo que alguém te julge por isso.
    Vejo muitas pessoas sofrendo, algumas se explodindo por dentro, mas com receio de se expressar, de colocar suas emoções para fora. E eu quero isso com meus textos, sabe. Quero “tentar” mostrar as pessoas que o motivo dos nossos maiores problemas reside no fato de não estamos conseguindo lidar connosco mesmos, com nossas emoções, nossos problemas. E quando eu não consigo lidar com isso tudo, fica mais difícil lidar com outras pessoas. Vejam a confusão que está no mundo. São pessoas que ainda não estão conseguindo lidar consigo mesmas relacionando umas com as outras. Ainda hoje, sempre que aprece um problema, escrevo sobre isso. Me liberto desse problema por meio da escrita e evito que se eles se acumulem, tornando-se mais tarde em uma coisa mostrusosa capaz de me deitar por terra. Acho que é essa minha motivação pela escrita

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