Aprenda a criar realidades com palavras

Os 5 pecados mortais em narrativas de ficção.

Por Diego Schutt em 04/07/2013 Tópicos: dicas, escrever, técnicas
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Texto do escritor convidado T.K. Pereira.

O Writer’s Digest é uma excelente fonte de recursos para escritores iniciantes e profissionais. Além de trazer inúmeras notícias sobre literatura e dicas práticas de escrita, o site disponibiliza prévias dos trabalhos de diversos autores.

Foi através de um excerto do livro Showing and Telling” de Laurie Alberts que topei com o que a autora denomina de 5 pecados em narrativas de ficção.

1. Imitação

Todo escritor tem suas referências, aquelas figuras renomadas que nos conquistaram e inspiraram a querer contar nossas próprias histórias. Nada mais natural, portanto, do que querer simular o trabalho deles a fim de estudar seus métodos, construções, etc. É um exercício válido.

O perigo, alerta Alberts, é permitir que essas vozes transpareçam em nossos trabalhos. O escritor iniciante está ainda mais sujeito a esse problema, já que luta para encontrar sua própria voz (ou vozes, como defende o escritor Stephen Koch no livro Oficina de Escritores), algo que requer tempo, paciência e muita prática.

2. Diálogos Pomposos

Escrever diálogos é difícil. Se o escritor não os trabalhar com cuidado, correrá o risco de ter falas que não condizem com a personalidade do personagem (um padre falando obscenidades), são escancaradamente expositivas (“pai, posso me sentar na poltrona que pertenceu ao meu avô?”) ou vão contra a (in)formalidade esperada em dado contexto (um caipira iletrado não pode conversar em pé de igualdade com um advogado da capital, por exemplo).

Claro que nem tudo está escrito em pedra e certas questões devem ser avaliadas pelo autor de acordo com seus próprios objetivos (se a história requer um padre que fale palavrões, então que seja). É preciso apenas o cuidado de deixar claro ao leitor que há uma boa razão para essa quebra de expectativa.

3. Nada Acontece

O escritor gasta várias páginas descrevendo os hábitos matinais de um personagem só para fazê-lo receber um importante telefonema antes de deixar seu apartamento. Qual é a necessidade de se descrever o estado de seu quarto, o modo como ele coloca a pasta de dente na escova ou como penteia o cabelo se nada disso faz diferença para a história?

O ideal é cortar o papo furado e ir direto ao que interessa, focando nos detalhes que revelem algo importante para o enredo, os personagens, seus conflitos. Nesses casos, vale a máxima de que menos é mais.

4. Problemas de Credibilidade e Verossimilhança

Não há nada que deponha mais contra um escritor do que escrever uma cena que contradiga outra. Razoavelmente aceitável em filmes onde itens mudam de mãos ou garrafas de bebida surgem e desaparecem, falhas de continuidade são imperdoáveis em trabalhos escritos – principalmente porque podem ser corrigidas com um bom serviço de revisão ou de leitura crítica.

Outra questão importante é a verossimilhança, isto é, a coerência de uma obra. Fazer um padeiro de meia-idade reagir a um assalto sacando uma Beretta M12 (uma pistola-metralhadora) não só é inverossímil como é absurdo! Um exemplo interessante dado por Alberts são as crianças dos seriados de TV que são sempre mais sábias e espertas que seus pais.

5. Sentimentalismo

Favor não confundir sentimento com sentimentalismo. A emoção deve surgir de forma natural e não ser imposta ao leitor com chavões (“uma lágrima solitária escorreu por seu rosto”) ou situações banais (o vilão que se arrepende antes do suspiro final). Como produzir bons diálogos, comover o leitor é tarefa árdua.

Uma boa forma de aprimorar este aspecto em sua escrita é ter como base as leituras que provocaram reações em você. Tente se lembrar da última vez que leu algo que o arrepiou ou assombrou e procure identificar os recursos utilizados pelo autor. Outra dica preciosa de Alberts diz respeito à velha máxima de mostrar e não contar: não diga apenas dado personagem sentiu o peso da tristeza, mostre-o levando a mão ao peito e esfregando-o com um olhar perdido em lembranças do passado.

 

No site do excerto do livro de Laurie Alberts há exercícios (em inglês) que ajudam a fixar estas dicas preciosas. Recomendo a quem dominar o idioma que se proponha a fazê-los.

E você? Já cometeu algum desses pecados mortais? Discorda de algum deles? Deixe um comentário.

 

Sobre o autor: T. K. Pereira é escritor de coração e servidor público por necessidade. Aficionado por letras, livros e curiosidades do mundo nerd, T.K. busca realizar seu sonho de se tornar um escritor profissional. Entre rascunhos de histórias e telas de programação, ele se aproxima do mundo da literatura escrevendo no Escriba Encapuzado, para a seção Café Literário do blog Café com Notícias e, ocasionalmente, para o Ficção em Tópicos.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais propósito, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 6 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

20 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Piscies 05/07/2013

    Uau, muito bom mesmo. O quinto ponto talvez seja o mais difícil. É bem mais fácil Contar do que Mostrar. Eu li isto no Oficina de Escritores de Koch, e também no Let’s Write a Short Story, de Joe Bunting.

    Fazer um leitor se emocionar sem forçá-lo a tentar sentir uma emoção (do tipo, “este foi um momento muito difícil para Amanda. Ela estava acabada.”) é o que eu considero um dos maiores desafios.

  2. Susi 05/07/2013

    As dicas 3 e 4, já cometi estes pecados capitais diversas vezes, e o impressionante é que é quase imperceptível quando você escreve! Uma dica que trago comigo nestes casos (depois de me dar conta desses absurdos e me esforçar a me corrigir) é: escrita é como massa de pão. Não adianta fazer a massa e colocar no forno que vai estragar, a massa precisa descansar no fermento. O fermento no caso para o texto é o tempo. Todo texto precisa de tempo para crescer (e aí sim ser editado). Tenho uma pasta de “hibernação” como carinhosamente chamo ^^ atinjo meu suposto alvo no texto, e deixo ele nesta pasta por no mínimo três meses. Quando volto, com a mente descansada daquela história, consigo ter um ar mais crítico em relação aquilo que eu considerava uma “obra-prima” meses antes. Consigo fazer os doloridos “cortes literários” sem doer tanto! =)

  3. Alê 05/07/2013

    Excelente post, me ajudou bastante, gosto de escrever, mas não tenho grandes ambições, acho que escrevo mais para eu mesmo.
    Mas reconheço que sou exageradamente detalhista. Preciso corrigir isto.
    Obrigado pelas dicas.

  4. Marco (Piscies): também li “Oficina de Escritores” de Stephen Koch; embora tenha achado uma boa fonte de inspiração e conhecimento sobre aspectos do trabalho e da vida do escritor, o livro não é tão focado em técnicas, o que é uma pena.

    Susi: bom ver que você mesma já encontrou uma solução para lidar com os pecados 3 e 4. ; )

    Alê: o detalhismo exacerbado é um mal contra o qual luto frequentemente. O lance é escrever, escrever, escrever, reescrever, escrever… : P

    Abraços,
    Tiago K. Pereira – Escriba Encapuzado
    Colunista do Café Literário, do portal mineiro Café com Notícias

  5. Michel Filipe 06/07/2013

    Ótimas dicas!

    Diálogos e verossimilhança são os pontos que dou muita enfase quando escrevo.
    É muito fácil errar nessas áreas. Só com o tempo vamos melhorando e com muita leitura.

  6. Ana Maria R. Silva 14/07/2013

    Nossa! Eu mesma cometi os 5 pecados. Meu livrinho deixou de ser uma história e virou mais um escrito para reflexão, filosofia, em que fico descrevendo determinadas coisas mais de uma única vez. Eu compreendi que acabo destruíndo o prazer do leitor de trabalhar sua memória e já entrego mastigado o conteúdo. Oh, céus!

    Mas pretendo terminar mesmo assim. Acho que primeiro devo expôr todo minha reflexão e tudo que meus neurônios queimaram, pra depois ir selecionando pelo menos o básico.

    Obrigada pelo conteúdo! =D

  7. Michel: os diálogos são o Calcanhar de Aquiles de muitos escritores iniciantes e você faz muito bem em prestar atenção a eles.

    Ana Maria: evitar repetições e confiar no leitor é muito importante para evitar que o texto se torne maçante. Mas como parece ser a primeira versão de sua obra não dê tanta atenção a esse ou outros problemas até que a tenha finalizado. Lembre-se sempre que escrever é, em grande medida, reescrever.

    Abraços,
    Tiago K. Pereira – Escriba Encapuzado
    Colunista do Café Literário, do portal mineiro Café com Notícias

  8. Ana C. Stasiak 20/07/2013

    Apesar de ter entendido o quinto pecado, eu fico um pouco na dúvida de como surpreender ou emocionar o leitor. Acho que devo pesquisar e treinar mais.

  9. Rayrison 21/07/2013

    No meu caso os problemas não são os diálogos, mas a narrativa. Não sei para onde ir.
    Obrigado pelas dicas!

  10. Ana Stasiak: não é mesmo fácil, mas pode começar tentando identificar trechos que soam piegas e novelescos. Ler muito também ajuda. Agora, que sobrenome curioso esse seu. Acaso pertence a alguma família de Game of Thrones? : )

    Rayrison: talvez você deva considerar elaborar um roteiro da história antes de escrever a própria – acredite, ajuda pacas. Dê uma olhada nas dicas aqui do Ficção em Tópicos, pois há muita coisa que pode ajudá-lo a desempacar.

    Abraços,
    Tiago K. Pereira – Escriba Encapuzado
    Colunista do Café Literário, do portal mineiro Café com Notícias

  11. Diego Schutt 09/08/2013

    Ana, quando você descobrir como surpreender e emocionar o leitor, me avisa. 😉

    Essas são habilidades que levam uma vida toda para se desenvolver. Sugiro que você analise de perto textos de escritores que surpreendem e emocionam você, tentando entender como eles fazem isso. As melhores lições sobre como escrever estão nas suas histórias favoritas.

    Boa sorte.
    sds
    Diego

  12. Bruno Gandin 25/08/2013

    É bem complicado comover o leitor… na verdade, é uma tarefa muito interessante. Escrever é uma arte…

  13. Douglas 13/06/2014

    Apesar de muitos falarem que descrevem exageradamente, meu problema é o oposto, sou pessimo em descrever ambientes e personagens
    acho que minha descrição acaba sendo curta demais e pobre

  14. Elizabeth 10/09/2014

    Eu concordo com o 3, geralmente eu pulo essas partes: ela acordou, calçou o chinelo, olhou para janela com cortinas rosas, o sol brilhava, ela sorriu para os passarinhos, foi até o banheiro e bla bla bla… tudo muito chato.
    Quanto ao 5 eu já fiz rsrsr

  15. Bruno 05/01/2015

    Achei muito boas as dicas! Mas o que mais me atingiu foi o 5° item. Eu tenho o costume de fazer isso, mas nem sempre com a intenção de criar alguma emoção no leitor, às vezes para simplesmente mostrar a reação do personagem ou os sentimentos que o tomaram.
    Eu li o PDF original para ter mais detalhes, e lá diz que não é apropriado dizer que “uma lágrima escorreu por sua bochecha/rosto”. Aí eu me pergunto: se não pode falar desse jeito, então como, cargas d’água, se deve dizer pra mostrar que o personagem se emocionou?? Tem jeito?

  16. Jéssica Tôrres 04/02/2015

    Boa noite! Estou adorando os artigos, estão sendo de grande valia! Tenho sorte quanto ao quesito sentimentalismo, desde sempre meus leitores voluntários se emocionam com o que escrevo das mais variadas formas… Isso me estimula bastante! Meu maior defeito é querer informar demais, visto que meu livro é uma ficção histórica… Tem algum segredo para ir mais devagar com as informações? kkkk 🙂

    Abraços!

  17. Author
    Diego Schutt 11/02/2015

    Oi Jéssica. De forma geral, em histórias onde você precisa passar uma grande quantidade de informações, uma boa estratégia é distribuí-las ao longo do texto, intercalando descrição e ação. Acredito que é uma forma de estabelecer um bom ritmo para a narrativa. Mas cada história tem suas particularidades e necessidades. Tudo depende da intenção do escritor e da reação se pretende causar no leitor. Obrigado pelo comentário.

  18. Célio 02/05/2015

    Eu não costumo descrever bem os personagens no começo da historia dou apenas nomes e localização.
    Tendo a descrevelos no decorrer,em momentos oportunos!

  19. Kapa, O Poeta 22/03/2016

    super e hiper interessante, incluindo os comentarios de todos. amei…. continuarei por aqui, bisbilhotando e aprendendo mais de todos voces.

  20. Leandro 03/01/2017

    Depois de ler quase dez ficções, senti-me atraído à escrever. Quando me deparei com alguns destes pontos aqui descritos, senti que algo estava errado. E lendo esse texto consegui identificar o ponto incorreto. Agora vou partir para correção.

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