Escreva para expressar, não para impressionar.

Como olhar para o óbvio e ver algo diferente

De todas as técnicas para escrever histórias de ficção que já tentei colocar em prática, uma me parece ser a mais difícil de todas: olhar para o óbvio e ver algo diferente.

No modo automático, minha mente tira conclusões rápidas sobre tudo o que acontece ao meu redor. Como resultado, deixo de prestar atenção a detalhes, e entrego o controle dos meus pensamentos para presunções. Isso é aquela voz dentro da minha cabeça que me diz exatamente o que pensar sobre tudo.

É a parte prática do meu cérebro tentando me ajudar a resolver um problema o mais rápido possível. Calar essa voz que oferece soluções perfeitamente aceitáveis na maior parte do tempo é minha maior dificuldade na hora de escrever.

Quando se trata de um problema que exige uma solução criativa e original, a pressa é ainda maior, porque quero desesperadamente eliminar a angústia e desconforto que fazer arte traz.

Meu maior desafio como escritor é reaprender a olhar para o mundo com menos certezas absolutas.

Para isso, quando começo a escrever, eu tento:

  • Estar aberto para o mundo que acontece fora da minha cabeça.
  • Esvaziar minha mente de senso comum e preconceitos.
  • Reconhecer meus pensamentos estranhos, vergonhosos e inseguros com honestidade.
  • Observar as experiências e sensações peculiares e profundas da minha consciência.
  • Não dar tanta importância para lógica.
  • Iniciar com uma informação, completar com minha imaginação.
  • Imaginar que tudo e todos ao meu redor tem vida, desejos e motivações.
  • Encontrar explicações para as coisas com meus cinco sentidos.
  • Não controlar ou entender meus impulsos.
  • Pensar como essas crianças colombianas e essas do criança disse.

Para mim, escrever bem é isso. É tirar a mente do modo automático, assumir controle sobre o significado que se dá para as coisas e organizar isso em palavras que mostrem obviedades de um ponto de vista diferente.

Não é uma tarefa fácil. O melhor que podemos fazer é seguir colocando ideias no papel, torcendo para que nossa deusa apareça e faça sua parte.

E você? Qual é sua maior dificuldade para escrever?

Para pensar mais sobre isso, escute abaixo o discurso inspirador do escritor David Foster Wallace. O áudio é em inglês, com legendas em português.

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About the Author

Diego SchuttView all posts by Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 Comments

  1. Alexandre 04/06/2013

    Muito bom seu texto, Diego. Acho que minha maior dificuldade é me fazer sentar e abrir o editor de texto pra começar. A partir daí sai naturalmente. Mesmo sabendo que dizem que inspiração é baboseira, não consigo escrever se não me sinto conectado com a história, os personagens e a vibe da narrativa. Aí sim consigo escrever algo decente, a meu ver.

  2. Diego Schutt 19/06/2013

    Oi Alexandre

    Não acho que inspiração é baboseira, mas acho que a gente não deve esperar por ela para escrever. Muitas vezes, quando simplesmente começo a jogar palavras na página, fico mais satisfeito com o resultado do que quando sento cheio de expectativas criadas pela sensação de estar inspirado.

    Acredito que essa conexão com a história que você comentou é importante, mas ela não precisa acontecer necessariamente dentro da nossa cabeça. Ela pode acontecer na tentativa descompromissada preencher uma página em branco.

    Obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  3. Isabela Xavier 14/10/2014

    Minhas maiores dificuldades são: “Não dar tanta importância para a lógica”, “Não controlar ou entender meus impulsos”, a autocrítica excessiva e o perfeccionismo. Isso tudo me atrapalha bastante, faz com que eu deixe de escrever para ficar pensando em possibilidades e analisando o que foi escrito. Acho que sou constantemente travada pela preocupação com as reações que a cena deve causar no leitor.

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