Aprenda a criar realidades com palavras

Como escrever histórias para os 4 cérebros do leitor.

Por Diego Schutt em 17/06/2013 Tópicos: dicas, escrever, técnicas
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Toda vez que você começa a ler uma história, seu cérebro está a procura de razões para continuar investindo seu tempo nesse texto, ao invés de fazer alguma coisa mais divertida, como aprender cada um destes passos de dança, por exemplo.

Nesse processo, a história é avaliada por quatro grupos diferentes: seus instintos, suas emoções, seus pensamentos e suas intuições. Cada um deles funciona como um cérebro semi-independente, com preocupações e vontades próprias.

Lógico que essa subdivisão é apenas teórica, mas ajuda a pensar em diferentes formas de engajar o leitor com suas histórias de ficção.

 

Cérebro Instintivo

Quer me matar? Vai me dar prazer? É de comer? 

Seu principal objetivo é proteção da nossa integridade física. Ele está sempre atento aos estímulos do ambiente em que nos encontramos, determinando potenciais ameaças, fontes de prazer, e fontes de nutrição. O cérebro instintivo é responsável por eliminar informações desnecessárias, e focar apenas no que pode colocar nossa vida em risco, trazer prazer imediato, ou servir de alimento. Qualquer história que parecer inofensiva, desinteressante, ou inútil será descartada pelo cérebro instintivo.

Faça suas histórias estimularem o cérebro instintivo:

  • Criando conflitos que coloquem em risco algo importante na vida do protagonista.
  • Usando figuras de linguagem para dar mais sabor ao texto.
  • Despertando perguntas intrigantes na mente do leitor sobre um tema específico.

 

Cérebro Emocional

Tem alguma relação com a minha vida?

Quando uma mensagem é percebida como importante, interessante ou excitante, ela é transferida do cérebro instintivo para o emocional. Seu principal objetivo é encontrar benefícios emocionais e sociais nos estímulos recebidos, tais como sensações de conforto, segurança, pertencimento, status, estima. Qualquer história que não mexer com alguma dessas sensações será descartada pelo cérebro emocional.

Faça suas histórias estimularem o cérebro emocional:

  • Criando conflitos que permitam as pessoas refletirem sobre suas relações pessoais e sociais.
  • Incluindo cenas que mostrem o que está acontecendo, ao invés de apenas contar o que está acontecendo.
  • Fazendo com que o protagonista aprenda algo sobre si, sobre as pessoas, e sobre o mundo ao final da história.

 

Cérebro Racional

Qual é o sentido disso tudo?

Depois de ultrapassar os filtros dos dois cérebros anteriores, o estímulo chega na parte da mente que pensa de forma lógica e complexa. Em muitos casos, decisões são tomadas pelos dois cérebros anteriores, e racionalizadas por este cérebro para justificá-las. Seu principal objetivo é reavaliar de forma sistemática a validade das informações que chegaram até ele. Qualquer história que não seja clara e coerente será descartada pelo cérebro racional.

Faça suas histórias estimularem o cérebro racional:

  • Criando conflitos que estabeleçam uma sequência lógica de acontecimentos, onde cada ação/decisão do protagonista resulte em uma consequência.
  • Usando linguagem clara e adequada à história que está sendo contada.
  • Desenvolvendo um protagonista verossímil, contextualizando suas emoções e comportamentos.

 

Cérebro Intuitivo

Alguma coisa me diz que isso está certo.

Quando uma mensagem traz uma recompensa emocional, mas não conseguimos explicá-la usando somente lógica, o cérebro intuitivo entra em ação. Seu objetivo é acomodar o inexplicável, é tranquilizar os cérebros anteriores com a ideia de que nem todas as emoções e sensações podem ser explicadas racionalmente. Os estímulos que chegam até o cérebro intuitivo mexem com nossos valores morais e nossa espiritualidade.

Faça suas histórias estimularem o cérebro intuitivo:

  • Criando conflitos e personagens baseados em arquétipos.
  • Incluindo passagens que permitam ao leitor reflitir sobre sua mortalidade e humanidade.
  • Apresentando uma verdade humana que ofereça um sentido para tudo o que o protagonista viveu durante a história.

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O que você acha dessa divisão? Faz sentido para você? Deixe um comentário.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

12 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Alexandre 17/06/2013

    Faz todo o sentido a divisão, caro Diego! Essa sempre foi minha preocupação. Manter o leitor entretido, entusiasmado e envolvido pela história é um desafio e por isso algo que me faz temer a tela em branco. Na cabeça a trama parece tão perfeita em seu resumo, mas se dissipa instantaneamente quando se tem que detalhá-la. É claro que a linearidade da sua divisão não precisa necessariamente seguida, mas ilustra bem o rumo que devemos seguir para prender a atenção de quem lê.

  2. Edileison Santos 18/06/2013

    O texto é realmente muito bom, mas meu problema é desenvolver a história que está formada no meu cérebro, não fazê-la interessante. Tenho um tipo de cérebro estranho, que não pensa com causa e efeito, apenas mistura tudo, numa algazarra infernal, infelizmente.
    Agradeço pelo texto!
    Edileison

  3. Diego Schutt 19/06/2013

    Oi Alexandre

    Bom saber que a divisão é coerente. Assim como as tramas na sua cabeça, o texto parecia ter sentido quando tive a ideia de relacionar neurociência e ficção. Mas quando comecei a detalhar o conteúdo, ele se dissolveu na página. Depois das tantas edições, é sempre bom ouvir que alguém entendeu o que eu estava tentando ilustrar. 😉

    Obrigado pelo comentário.
    abs
    Diego

  4. Diego Schutt 19/06/2013

    Oi Edileison

    Use o seu “cérebro estranho” para criar o conteúdo, e depois tente imaginar a melhor forma de organizá-lo para comunicar a ideia-chave do seu texto.

    Se sua história não tem causa e efeito, talvez ela seja uma poesia, um desabafo, um relato. Respeite isso.

    Não tente mudar a forma como suas ideias aparecem para você. Faça o contrário. Pense em como fazer seus leitores sentirem o que você sente, mesmo que seja essa algazarra infernal.

    Obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  5. Michel Filipe 19/06/2013

    Olá, Diego.

    Eu já havia dado algumas passadas por aqui e gostei bastante do seu site.
    Então decidi postar um comentário dessa vez. Pra não me tornar tão fantasma assim, né? Bom, ficou ótimo a matéria. Estou em um novo projeto literário e depois de tantos erros e desapontamentos, venho me inovando e melhorando aos poucos e é sempre bom ter esses conselhos pra ajudar.

    Parabéns.

  6. Diego Schutt 25/06/2013

    Oi Michael. Legal que você resolveu aparecer. 😉
    Sempre bom saber que tem alguém do outro lado da tela.

    Obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  7. diogo 05/07/2013

    Muito boa suas observações!!

  8. Piscies 30/07/2013

    Artigo muito bom mesmo. Nunca tinha lido isto em lugar algum.

    Acabei usando ele como base em um artigo que escrevi lá no meu blog.

    http://abreparenteses.blog.br/2013/07/30/criando-tramas-melhores-parte-i/

  9. Diego Schutt 15/08/2013

    Muito bom o seu artigo Piscies. Fico feliz que este texto do Ficção em Tópicos tenha inspirado você.

    sds
    Diego

  10. Davi Antunes 05/09/2013

    Interessante o texto. Iluminou alguns coágulos escuros que surgem na história,como se fosse um ponto cego, você sabe que pode melhorar mas não consegue ver. No meu caso será bem aplicado. Grato Diego.

  11. Nicole 20/08/2014

    Eu achei incrivel este post, me ajudou muito. Obrigada 🙂

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