Aprenda a criar realidades com palavras

Processo de criação de histórias em 4 etapas

Por Diego Schutt em 17/05/2013 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, técnicas
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Sou masoquista. E você também. Se a gente não fosse, teria escolhido colecionar borboletas, bordar panos de prato ou reinventar a roda, ao invés de escrever ficção. Passamos horas e mais horas gastando dedos, digitando palavras que, em muitas ocasiões, debocham da nossa incapacidade de expressar pensamentos que parecem tão claros dentro das nossas cabeças.

Com o tempo, todo escritor entende que dar vida para ideias complexas é um processo dolorido. Muitos tentam eliminar esse desconforto racionalizando seu processo de criação, sistematizando a produção de ideias ou se esforçando para controlar em tempo real a qualidade do que escreve. A dor talvez desapareça, mas o resultado são textos sem vida e sem emoção.

Fazer sessões de escrita focando separadamente nas quatro etapas abaixo me ensinou a administrar e, até mesmo, a gostar da dor que certos textos me fazem sentir quando vem ao mundo. Uma espécie de masoquismo criativo. Experimente as etapas abaixo e veja se funciona para você.

1. Imaginar

No começo, meu único objetivo é encontrar um ponto de partida para escrever. Pode ser uma ideia de personagem, de cenário, de diálogo, de tema ou mesmo algo totalmente abstrato, como uma sensação, pensamento ou medo. Nesta etapa, não me preocupo em fazer sentido ou ser coerente. Guiado pelo meu instinto, jogo palavras na página, simplesmente tentando registrar o fluxo de pensamentos e associações que minha ideia inicial inspirou. Depois, releio o que escrevi com o objetivo de encontrar um conceito, algum aspecto dessa ideia que me deixe entusiasmado para mergulhar mais fundo nesse universo de ficção.

2. Explorar

Nesta etapa, seleciono a ideia que mais mexeu com minha imaginação e começo a escrever livremente, agora com o foco em desenvolver tal ideia em mais detalhes. Depois, releio o que escrevi e procuro identificar que temas estão implícitos nas entrelinhas do texto. Reescrevo certos trechos e desenvolvo algumas passagens, agora um pouco mais consciente da minha intenção, da direção que quero dar para a história, mas ainda focado em experimentar, explorar possibilidades. Meu objetivo aqui é transformar o conceito abstrato que encontrei na etapa anterior em uma visão mais concreta da essência da ideia e de como estruturá-la em forma de narrativa.

3. Produzir

É hora de sentar a bunda na cadeira e tentar escrever um primeiro rascunho do texto, agora mais consciente sobre a história que desejo contar e mais confiante para me permitir improvisar dentro do cantinho desse universo que decidi explorar. A essa altura do processo, estou me sentindo a vontade dentro desse universo de ficção e, dentre as possibilidades que experimentei na etapa anterior, acredito ter escolhido os modos de narração com mais potencial de expressar minha ideia com intensidade. Meu objetivo aqui é escrever um primeiro rascunho do texto do início ao fim e olhar para a narrativa como um todo. É comum que a história se revele diferente do que eu havia imaginado quando comecei a desenvolver a ideia.

4. Melhorar

Nesta etapa, releio tudo o que escrevi e avalio o que está bom e o que precisa ser melhorado. Reviso o texto várias vezes, focando cada leitura em um aspecto diferente da história. Começo avaliando a estrutura macro da narrativa, como as diferentes partes do enredo se encaixam para formar o todo. Faço os ajustes que considerar necessário até acreditar que o texto esteja representando a ideia que desejo expressar com clareza e coerência. Depois, avalio aspectos específicos da narrativa: as cenas, os personagens, os cenários, os diálogos. Finalmente, foco minha atenção à gramática, construções das frases, o tom, ritmo e estilo do texto.

 

Na prática, esse processo não é linear e não acontece uma vez só. Quanto mais longa a história, mais vezes preciso repetir cada etapa. Quanto mais envolvido estou com o texto, mais essas etapas se misturam, fazendo desaparecer qualquer separação entre elas.

Mas até que isso aconteça, focar em uma etapa de cada vez é o que tem, constantemente, me ajudado a entender o que estou tentando expressar com meus textos. Essa consciência sobre nossa intenção é o que nos permite editar o que escrevemos com mais precisão e encontrar formas de tornar nossas histórias mais envolventes.

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E você, como você desenvolve suas ideias de histórias? Qual é seu processo de criação?

 

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

7 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. André de Oliveira 17/05/2013

    Estimado Diego 🙂

    O seu site tem sido uma referência para mim que me tenho aventurado a escrever nestes últimos três anos.
    Toda a informação que tenho lido aqui tem sido de vital importância para mim a vários níveis:
    – Técnico;
    – Inspiracional;
    – Blá blá blá!!!

    Então antes de mais nada quero agradecer por isso mesmo 🙂

    Em relação ao seu último post, este deu-me uma clara ideia do seu processo e concerteza que me ajuda no meu. No entanto até agora ainda não consegui “estruturar um método” real para mim. O que sinto nesta fase da minha “carreira na escrita” é que as ideias surgem-me espontâneamente, seja a ler um grande livro, a ver um óptimo filme, a ler o jornal ou as notícias na televisão, a ver a telenovel à noite ou simplesmente a falar com as pessoas e a observá-las.
    Sinto-me um priveligiado por não ter falta de “ideias” (o que não significa que elas sejam todas boas ehehehe), e o que me custa mais é conseguir passa-las para palavras com o mesmo brilho que elas surgem na minha mente e coração. No entanto as coisas vão fluindo e deixo que surjam estas ideias aleatórias sobre personagens, possiveis enredos e teorias a desenvolver na minha história. Gosto de as escrever e deixar fluir a minha capacidade criativa sem obstáculos.
    Logo depois, passado um tempo sem ler nada do que escrevi, volto a pegar em tudo aquilo e releio, deixo que as memórias se refresquem e tragam energia nova para a história (mesmo que ainda sejam apenas ideias aleatórias) e tento começar a organizar, camada por camada um possivel início, desenvolvimento e fim da história.
    Sinto que é muito importante para mim, conhecer bem os personagens porque eles são a base de uma história interessante pois somos todos seres humanos e se nos identificarmos com os personagens será meio caminho andado para que a nossa história tenha sucesso junto dos leitores. Então penso, escrevo, volto a pensar e reescrevo diversas vezes os meus personagens, as suas motivações, história, aquilo que os move e as suas crenças, etc etc. Deixo que isso vá desenvolvendo possiveis ligações entre eles no enredo da história e aos poucos a intriga vai ganhando forma.
    Após este processo costumo rever tudo e sentir se faz sentido. Se fizer, começo a escrita propriamente dita, com a tal disciplina que às vezes custa desenvolver e manter 😉
    Ao longo do processo vou lendo e relendo as coisas que escrevo para organizar a história e tentar perceber se as ligações fazem sentido, se são demasiado óbvias, ou se estão óptimas como eu quero. Isto ajuda-me a desbloquear certas dúvidas que às vezes sinto ao escrever a história.
    Assim que chego a um possivel final, volto a ler e a reler tudo, corrigindo a gramática, a construção frásica, reorganizao capítulos e personagens, etc etc. Mas tudo tem que ser feito e refeito camada após camada, porque sinto que com o tempo a minha própria consciência da história vai mudando e a história ganha profundidade psicológica e dramática consoante o tempo passa.
    Então este é basicamente o meu processo de escrita. Pode parecer que já escrevi muito, mas não 🙂 tenho o meu primeiro romance pronto para concorrer a um concurso literário na próxima semana! O próximo livro já está a ser “descoberto” dentro da minha mente 😉

    Tudo de bom e muito obrigado!!!

    André de Oliveira

  2. Muito legal esse post. Eu estou um pouco cansado de blogs e textos que tentam mecanizar e homogeneizar o processo da criação literária ao dar ‘os passinhos necessários para escrever’. Mas esse não foi o caso aqui, você fala de um processo de escrita muito interessante e que não se prende a regrinhas em si.

    E digo, no fim, a gramática é o que menos importa. Lispector, Saramago, Machado, Guimarães Rosa e aclamados escritores aprovam. Faça ser inteligível, às vezes a gramática só serve para nos impedir de alcançar a liberdade e a riqueza que a língua possui, e isso pelo puro prazer de impor um método tido como ‘correto’ (mas de onde vem essa divisão de certo e errado dentro da língua, só os preconceitos dos gramáticos para explicar).

    Atualmente minha maior dificuldade está na hora de passar completamente para o papel um enredo que se construiu em minha mente durante um banho ou enquanto estava no ônibus, retornando da faculdade para casa, etc. Quase sempre as coisas não saem exatamente como soavam na mente, às vezes até porque, enquanto escrevo a introdução ou algo do tipo, alguma coisa intrigante que eu havia pensado em colocar no texto meio que se perde na memória. Tenho tentado trabalhar com isso, que seria a capacidade de escrever com tranquilidade, tentando não perder nenhum detalhe importante da trama.

    Gostei muito da postagem.
    Até uma próxima.

  3. Ale 20/05/2013

    Seu blog é incrivel. Uma inspiração pra todos nós, que lutamos contra a indisciplina. Parabéns.

  4. Diego Schutt 23/05/2013

    Oi Ale

    Legal que você gostou do blog. Obrigado pela mensagem!

  5. Dualys Francisco 31/05/2013

    Uau. Muito bom! Sempre acompanho seus posts. Incrível, eu também faço algo parecido… a única diferença é que não distingo construir de produzir, é tudo junto! Primeiro tenho ideias, formulo toda uma história em minha mente, depois já começo a escrever. Está aí uma coisa para ser melhorado…

  6. Diego Schutt 04/06/2013

    Oi Dualys. Se construir e produzir ao mesmo tempo funciona para você, que ótimo. As etapas que listei é o que eu costumo tentar seguir. Mas não é certo nem errado. É apenas o que vem funcionando melhor para mim. Obrigado pela mensagem. abs

  7. Emanueli 03/01/2014

    Eu penso e repenso minha história. Escrevo cenas desenvolvendo o enredo no ato… O que eu acho que pode ou não ser imaturo (Será?). Bom… Depois do feito, leio e releio. Às vezes sou muito direta, então costumo adicionar frases emocionais para intensificar o texto. Costumo ouvir música para ativar meu emocional. Edito então o conteúdo e… “Pronto! Já constrói as primeiras linhas!”. Repito tudo, passando por algumas crises e surto de ideias e assim passam os dias, até que o dia que o fim da história chegue. Sou inexperiente, logo… Nem sempre tudo da certo. Mas outras vezes dá. E isso me deixa feliz!
    Enfim… Gostei muito da postagem Diego! Parabéns! (:

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