Dicas e técnicas para escrever livros e roteiros para cinema e tv.

7 motivos que fazem leitores desistirem de ler suas histórias.

Por Diego Schutt em 03/04/2013 em destaque, dicas, técnicas
28
65

Durante o processo de seleção dos textos para as consultorias gratuitas, recebi dezenas de histórias de ficção de diversos escritores. Algumas delas ganharam minha atenção quase que instantaneamente, enquanto outras me fizeram desistir da leitura já nos primeiros parágrafos.

Abaixo, alguns dos motivos do meu desinteresse em algumas das histórias.

1. Linguagem Rebuscada Demais

Alguns textos pareciam mais preocupados em demostrar o extenso vocabulário e as habilidades sintáticas do escritor do que em contar uma história. Em alguns casos, ficou evidente a precisão cirúrgica com que algumas frases foram construídas. Sobrou gramática, faltou emoção. Não é coincidência que alguns dos escritores selecionados para receber as consultorias comentaram que escreveram guiados mais pela suas intuições.

Dica: Leia o seu texto em voz alta. Certifique-se de que você não está usando linguagem rebuscada porque acredita precisar ser solene ao escrever. Estude possibilidades de narrar a história usando expressões menos pomposas.

2. Falta de Foco

Algumas histórias não tinham um tema definido. Ainda que houvessem personagens enfrentando conflitos, essas narrativas pareciam mais divagações sobre a vida disfarçadas de ficção. Os escritores pareciam não saber claramente o que queriam comunicar com suas palavras, e tentavam compensar a falta de conteúdo com frases forçadas e metáforas pobres.

Dica: Tenha consciência do que você está tentando comunicar com sua história. Foque a narrativa em um tema específico, e use-o como guia para decidir quais informações e detalhes devem ser incluídos no texto, e o que deve ficar de fora.

3. Começos Genéricos

Quando as primeiras linhas de uma história eram meras divagações genéricas sobre o tempo, o cenário ou um personagem, eu precisava fazer um esforço extra para continuar a leitura. Em muitos casos, não passei do terceiro parágrafo porque não me senti compelido a saber o que aconteceria na sequência. Se sua história é genérica, a reação do leitor será genérica.

Dica: Seja específico em suas descrições. Desde o início da história, apresente detalhes peculiares sobre o cenário, os personagens e o conflito da narrativa. A ideia é despertar perguntas intrigantes e provocadoras na mente do leitor.

4. Excesso de Informação

Em muitas das histórias enviadas, havia parágrafos e mais parágrafos com descrições cujo único objetivo parecia ser preencher a página, já que tais informações não acrescentavam nada de valor às narrativas. Qualquer informação incluída em um texto deve ter um objetivo específico. Contextualizar o universo ficcional, complexificar um personagem, estabelecer o tom de uma cena, despertar identificação com o protagonista, criar tensão no enredo, etc.

Dica: Certifique-se de que cada frase incluída nos seus textos é realmente importante e indispensável para o leitor entender a história, e se envolver com os dramas dos personagens.

5. Texto Mal Editado e Revisado

Nunca considere um texto como pronto sem relê-lo pelo menos uma vez. Algumas histórias pareciam mais rascunhos do que textos finalizados. Frases mal construídas, parágrafos repetitivos, uso incorreto de vírgulas e pontos finais que atrapalhavam a leitura. Esse tipo de erro distrai o leitor do que realmente importa: a história.

Dica: Colocar suas ideias na página é apenas o primeiro passo. Todo texto precisa ser editado e revisado antes de ser disponibilizado para leitura. Invista, no mínimo, o mesmo tempo que você levou para escrever um texto na sua edição.

6. Nenhuma Indicação de Conflito

Depois de parágrafos e mais parágrafos, tudo ainda parecia estar em perfeito equilíbrio em algumas histórias. Ótimo para os personagens, entediante para os leitores. Não estou dizendo que carros precisam explodir, amantes precisam se esfaquear, ou monstros precisam atacar. Conflitos não precisam ser tão dramáticos. O importante é criar um certo estranhamento ou clima de tensão no início da história, despertando curiosidade sobre o que vem pela frente.

Dica: Deixe o leitor inquieto, ansioso ou curioso já nas primeiras linhas da história. Ofereça explicações e informações incompletas sobre certos acontecimentos, incentivando a leitura dos próximos parágrafos.

7. Contando Demais e Mostrando de Menos

Muitas histórias desperdiçaram oportunidades de mostrar ao leitor a delicadeza de um atributo físico de um personagem, ou a peculiaridade de um comportamento trivial. Qualquer um pode descrever alguém feliz dizendo “o sorriso iluminava seu rosto” ou “ele pulava de alegria”. Procure por formas únicas e particulares de personificar os sentimentos e ações de cada personagem.

Dica: Tudo o que o leitor enxerga são palavras na página. O seu trabalho como escritor é organizá-las de forma a criar imagens vívidas que deem vida à história. Encontre um balanço entre o que você conta e o que você mostra nos seus textos.

 

Quer todas as dicas do Ficção em Tópicos focadas na sua história? Clique aqui

 

E você, que motivos o fazem desistir de ler uma história?

Sobre o Autor

Diego SchuttVer todos os artigos por Diego Schutt
Diego Schutt é escritor e especialista em storytelling e criação de universos de ficção. Estudou escrita criativa na Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e até mesmo no Brasil. Há 5 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português, que oferece serviços de consultorias individuais, além de cursos e oficinas de formação de escritores.

28 Comentários

  1. Alexandre 03/04/2013

    Como sempre, ótimas dicas!

  2. Giovanni Bruno 04/04/2013

    É importante ressaltar tais dicas, afinal, muitos não conseguem enxergar seus próprios textos da forma como enxergam os textos que leem, os livros que costumam cultuar, o que acaba fazendo seu trabalho nada valer. Eu gostei das suas dicas, que na mais são que meras verdades sobre os erros que muito aspirantes cometem.
    Não é impossível criar um belo texto, basta se dedicar; analisar muito aquilo que gostamos de ler – como em uma de suas dicas – e tentar descobrir como é a forma correta daquele texto que nos invoca a atenção, como conseguem produzir em nós tal efeito. Isso é muito bacana!

    Mais uma vez, parabéns pelo belo trabalho!

  3. Manuel Manolo Moscaino 04/04/2013

    Apenas uma dica faz sentido, a da revisão, as outras são bobagens. Aprennder a escrever é essencial é pregar o mal uso da palavra é um absurdo.

  4. Diego Schutt 04/04/2013

    Oi Alexandre. Legal que você gostou dessas dicas. Obrigado pela mensagem.

  5. Diego Schutt 04/04/2013

    Oi Giovanni

    Você disse tudo. A matéria-prima do escritor é o que ele sente e pensa. É difícil lançar um olhar crítico sobre algo que criamos porque isso significa lançar um olhar crítico sobre nós mesmos. Por isso é sempre bom compartilhar nossas produções com outras pessoas. Assim ganhamos perspectiva sobre como nossas palavras estão sendo interpretadas.

    Obrigado pelo comentário.

  6. Diego Schutt 04/04/2013

    Oi Manuel. Não entendi a segunda parte do seu comentário. Você quis dizer que esse texto está pregando “o mal uso da palavra”?

  7. Fagner 04/04/2013

    Me identifiquei com o primeiro item, Linguagem Rebuscada Demais. Eu não acho que eu empregue palavras que fujam ao universo vocabular do leitor, porém busco montar frases com um quê de épico. Fico sempre atento a como soam as sentenças.

    Como sempre, ótimas dicas!

  8. Ronperlim 04/04/2013

    As opiniões críticas e as dicas devem ser exploradas pelos jovens autores. Afinal de contas, até as obras dos mais experimentados autores se submetem a uma análise e sempre que possível, elas são alteradas.

  9. Gean Riwster 05/04/2013

    kkkkkkkkkkk

    Acho que meu texto entrou em todos os tópicos que você citou. Ele deve ter sido o grande mal exemplo. Mas não foi bem proposital.

    Era realmente a única crônica que eu tinha no momento, e já fui enviando dando a cara a tapa, e nem esperava realmente ganhar, como aconteceu. Mas sabia que tinha algumas palavras complicadas e poéticas demais, sabia que tinha começado genericamente, sabia que havia detalhado muito o local sem dar segmento para o conflito, sabia que não havia revisado direito… Sabia de tudo, e a responsabilidade de não ser selecionado foi completamente minha.

    Mas foi uma experiência boa, pois é divertido saber sobre a grande sentença final. Pois ela é a mais sincera e análoga possível. Do mesmo modo que se um dia chegar a ganhar, saberei que ela será sincera e certeira.

    Obrigado, mais uma vez ;)

    Gean Riwster

  10. Antônio Martins 05/04/2013

    Muito legal o post. Diego você podia fazer um post que fala sobre os direitos autorais; seria de muita ajuda :)

  11. Paulo H. 10/04/2013

    A tempos que estou para dizer: Amo este site!

  12. Diego Schutt 15/04/2013

    Oi Fagner. Não há absolutamente nada de errado no uso de linguagem rebuscada ou “com um quê de épico”, contanto que ela seja pertinente à história e às reações que você deseja causar no leitor. Meu comentário se refere aos casos onde o excesso de formalidade do escritor destoava da narrativa.

  13. Diego Schutt 15/04/2013

    Oi Antônio. Vou procurar informações sobre o assunto para escrever um artigo sobre direitos autorais. Obrigado pela sugestão.

  14. Diego Schutt 19/04/2013

    Oi Gean

    Reforço o que já falei em um comentário anterior. Não há absolutamente nada de errado no uso de palavras complicadas e poéticas, contanto que elas sejam pertinentes à história e às reações que você deseja causar no leitor. Meu comentário se refere aos casos onde esse tipo de linguagem destoava da narrativa.

    sds
    Diego

  15. Ben Oliveira 09/05/2013

    Adorei as dicas do seu blog.
    Vou ler o blog diariamente. Bom mesmo seria se tivesse um livro com essas dicas!
    Eu adoraria!
    Abraço

  16. Diego Schutt 10/05/2013

    Oi Ben
    Legal que você gostou das dicas. Aguarde na linha que daqui a pouco vem o livro. ;-) abs

  17. Miriam Rabelo Murta Valle 10/05/2013

    Eu tenho muitos defeitos apesar de muitas boas ideias, mas também necessito saber como proceder para registro de obras intelectuais (tentei a Biblioteca Nacional e nem consegui abrir o site – foi outra coisa que me fez desistir de continuar a colocar ideias responderam ou i, pois alguém do curso copiou minha ideia e ainda me disse q. preciso tomar cuidado ao produzir e passar para a frente. Como era matéria de curso deixei prá lá. Mas sei q. isso pode acontecer na prática. Como fazer? Grata, um abraço

  18. Diego Schutt 13/05/2013

    Oi Miriam
    Não tenho conhecimentos profundos sobre as leis de direitos autorais. Neste link http://www.bn.br/portal/?nu_pagina=32#3 você encontra respostas para as perguntas mais frequentes sobre o assunto. Espero que ajude.
    abs
    Diego

  19. Igor Ferreira 03/06/2013

    Realmente, com muitos disseram, o post foi incrível, aliás, todo o site é! Parabéns, Diego, por manter um acervo tão brilhante que auxilia os novos autores. O post me remeteu a um erro que muitos dizem que eu tenho: o vocabulário refinado demais. Um crítico, uma vez, chegou ao ponto de dizer que minha escrita saia forçada. Eu tentei e tento constantemente mudar, mas realmente não consigo, e atribuo muito disso ao fato de gostar da forma como escrevo. Acho que precisaria de alguém crítico de verdade para ler algum texto meu e avaliar. Mas, enfim, qual é o medicamento que eu devo usar para ficar curado dessa síndrome de palavras pomposas? Abraços, Igor

  20. Diego Schutt 04/06/2013

    Oi Igor

    Não pense em termos de certo e errado. Usar vocabulário refinado demais não é um erro, em especial se você gosta de escrever assim. O ponto que eu quis ressaltar no artigo é que a linguagem de alguns textos não combinavam com o conteúdo da história, e que o objetivo principal do escritor parecia ser demonstrar sua habilidade com a gramática.

    Minha sugestão é que você experimente usar palavras menos rebuscadas e um tom menos pomposo, e veja o que você acha do resultado. Um bom exercício é tentar rescrever um trecho do texto como se você estivesse contando uma parte da história pelo telefone para um amigo.

    Boa sorte e obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  21. Alexander de Melo Luiz 11/07/2013

    Boas dicas! Já salvei-as para ler com mais atenção mais tarde. Em relação ao seu trabalho no universo da escrita queria conhecer um pouco mais sobre seus trabalhos prestados. Como poderei fazer isto?

  22. Francine 11/07/2013

    A única dica realmente pertinente é a que fala sobre a revisão e cuidado com edição do texto, pois as outras já entram no terreno da subjetividade.

  23. Má Matiazi 07/10/2013

    Antigamente eu pecava no ponto de ir muito direto ao assunto. Faltava uma certa ambientação, eu contava demais e mostrava de menos, ou pior: eu contava um grande pedaço da história e depois, quando resolvia “mostrar”, aquilo destoava, ficava arrastado simplesmente porque o resto da história corria demais. Eu não conseguia entender por que meu livro não estava bom.
    Recebi várias críticas de amigos – amo as benditas críticas! – e acredito ter amadurecido muito! Por isso sempre estou buscando quem leia e dê sugestões de melhora para meus escritos.
    Sites com dicas como este são uma ajuda abençoada pelo qual eu implorava anos atrás e que agora me fizeram construir uma obra muito mais madura! Agradeço por essas e por tantas outras dicas valiosas!

  24. Ana 12/10/2013

    Mas e quando a linguagem do autor já é rebuscada? Digo, eu tenho meu próprio jeito de escrever e isso inclui uma linguagem bem mais formal. Eu não forço isso, apenas sai naturalmente quando escrevo. E quando eu forço minha escrita para colocar termos mais modernos, sinceramente acho que ficou um lixo. Então, isso é próprio meu…

  25. Karina Lino 12/10/2013

    Ótimas e oportunas dicas! Concordo com todas, inclusive, por ter recebido a maioria dessas correções da minha querida beta.
    Humildemente, deixo mais uma dica: se por um lado o vocabulário rebuscado em excesso desestimula a leitura, a falta de palavras e expressões mais limpas, coesas e bonitas também me faz perder a vontade de acompanhar a história, por melhor que seja. Linguagem coloquial demais, pra mim, só se aplica em diálogos e não na narrativa.
    Obrigada! ^^

  26. Lucineia Alves 01/01/2014

    Bem eu acompanho o vocabulário do leitor, como uma novela escrita que vai ser vista por todo tipo de pessoas, um vocabulário mais simples possível de ser entendido.

  27. Henrique Fernandes 24/08/2014

    Oi Diego.

    Adorei seu post! Não só ele, mais o blog em tudo. Venho aprofundando meus conhecimentos como escritor e suas dicas, o blog em si, me ajudam muito. Parabéns pelo trabalho!

  28. katiane 04/10/2014

    Me identifiquei muito com esse site e passei a manhã toda lendo suas dicas. =) Na verdade entrei aqui por acaso, pq tenho um Blog e há algum tempo escrevo. Mas percebi que apesar de seguir a risca algumas de suas dicas (antes mesmo de conhecê-las, como revisar o texto mil e uma vez antes de divulgá-lo por ex) as pessoas que acessam meu blog não passam dos primeiros parágrafos de minhas histórias. :( Então vi que me encaixo em quase td que li aqui. Na verdade eu tinha consciência de onde estava pecando, mas não sabia como resolver. E agora já sei. =)
    À propósito, virei sua fã e salvei seu site nos favoritos.
    Obrigada.

Adicionar comentário

Deixe um Comentário

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

Copyright 2014 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos ®