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7 motivos que podem fazer leitores desistir de ler suas histórias.

Por Diego Schutt em 03/04/2013 em destaque, dicas, técnicas
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Durante o processo de seleção dos textos para as consultorias gratuitas, recebi dezenas de histórias de ficção de diversos escritores. Algumas delas ganharam minha atenção quase que instantaneamente, enquanto outras me fizeram desistir da leitura já nos primeiros parágrafos. Abaixo, descrevo 7 motivos que podem fazer leitores desistir de ler suas histórias.

Mas atenção: não considere as observações abaixo como definitivas e aplicáveis a todo e qualquer texto. Para contextualizar meus comentários, acredito ser importante diferenciar os conceitos de narrativa de ficção de história de ficção.

Uma narrativa de ficção é qualquer texto criado com base na imaginação do escritor. Uma história de ficção é uma narrativa estruturada com o objetivo de criar uma experiência emocional que dramatize a visão do escritor sobre um tema.

Nem toda narrativa conta uma história, mas toda história é uma narrativa. Os comentários abaixo partem do pressuposto que a proposta era escrever uma história de ficção, não apenas uma narrativa, como foi o caso de muitos dos textos enviados.

Não existem regras para se escrever uma boa história, mas existem certos princípios fundamentais que, a não ser quando propositalmente ignorados com a intenção de provocar certas reações no leitor, dificultam o entendimento e envolvimento com o texto.

Ainda assim, os comentários abaixo tem muito do que eu, pessoalmente, procuro em histórias de ficção como leitor. Use este artigo com moderação.

1. Começos genéricos

Quando as primeiras linhas de uma história eram meras descrições genéricas e comuns sobre o tempo, o cenário ou um personagem, eu precisava fazer um esforço extra para continuar a leitura. Em muitos casos, não passei do terceiro parágrafo porque não me senti compelido a conhecer mais a fundo tais personagens ou saber o que aconteceria na sequência. Se sua história é genérica, a reação do leitor será genérica.

Dica: Seja específico em suas descrições. Desde o início da história, apresente detalhes peculiares sobre o cenário, os personagens e o conflito da narrativa.

2. Falta de foco

Algumas histórias não tinham um foco definido. Essas narrativas pareciam mais divagações superficiais sobre a vida, totalmente desconectadas umas das outras, quase como um resumo sobre o que o escritor pensa sobre tudo. Esses textos não passavam um senso de intenção. Pareciam mais uma coleção de impressões e sensações aleatórias, tentando compensar falta de conteúdo com quantidade de palavras.

Dica: Tenha consciência do que você está tentando comunicar com sua história. Foque a narrativa em um tema específico, e use-o como guia para decidir que informações e detalhes precisam ser incluídos no texto e quais podem ficar de fora.

3. Excesso de informação

Em muitas das histórias enviadas, encontrei parágrafos e mais parágrafos de descrições detalhadas das características físicas e psicológicas de um personagem. Como essas informações foram apresentadas quase como uma lista de supermercado, sem um contexto que ajudasse a dar sentindo a elas, fiquei com a sensação de que o escritor estava tentando esgotar absolutamente tudo o que tinha para dizer sobre o personagem antes de começar a contar a história.

Dica: Certifique-se de que as informações incluídas em cada passagem precisam aparecer especificamente nesta parte do texto. Considere compartilhar certos detalhes sobre os personagens ao longo da história, em momentos em que a narrativa será enriquecida por essas informações.

4. Nenhuma indicação de conflito

Depois de parágrafos e mais parágrafos, tudo ainda parecia estar em perfeito equilíbrio em algumas histórias. Ótimo para os personagens, entediante para o leitor. Não estou dizendo que carros precisam explodir, amantes precisam se esfaquear, ou monstros precisam atacar. O importante é criar um certo estranhamento ou clima de tensão no início da história, despertando curiosidade sobre o que vem pela frente.

Dica: Faça algum aspecto do seu texto deixar o leitor inquieto, ansioso ou curioso já nas primeiras linhas da história. Ofereça explicações e informações peculiares e inusitadas sobre personagens e acontecimentos, incentivando a leitura dos próximos parágrafos.

5. Uso forçado de linguagem rebuscada 

Alguns textos pareciam mais preocupados em demostrar o extenso vocabulário e as habilidades linguísticas do escritor do que em contar uma história. Até mesmo a fala de crianças, em algumas narrativas, eram extremamente formais e pomposas. Sobrou gramática, faltou emoção. Ressalto que o problema não é a linguagem rebuscada em si, mas seu simples uso na tentativa de impressionar o leitor, o que em alguns dos textos enviados me pareceu evidente.

Dica: Certifique-se de a linguagem que você está usando no texto é adequada para o gênero de história que você está escrevendo e se as falas dos personagens nos diálogos soam naturais e verossímeis.

6. Texto mal editado e revisado

Nunca considere um texto como pronto sem relê-lo pelo menos uma vez. Algumas histórias pareciam mais rascunhos do que textos finalizados. Frases mal construídas, parágrafos repetitivos, uso incorreto de vírgulas e pontos finais que atrapalhavam a leitura. Esse tipo de erro distrai o leitor do que realmente importa: a história.

Dica: Colocar suas ideias na página é apenas o primeiro passo. Todo texto precisa ser editado e revisado antes de ser disponibilizado para leitura. Invista, no mínimo, o mesmo tempo que você levou para escrever um texto na sua edição.

7. Contando demais e mostrando de menos

Qualquer um pode descrever um personagem feliz dizendo “o sorriso iluminava seu rosto” ou “ele pulava de alegria”. Procure por formas únicas e particulares de ajudar o leitor a entender e sentir as emoções os personagens. Em certos momentos da história, mostrar o que está acontecendo é mais envolvente do que simplesmente contar o que está acontecendo.

Dica: Quanto mais consciente você estiver da função de cada passagem do seu texto e da reação que você deseja provocar no leitor, mais sensibilidade terá para perceber que momentos exigem que você conte o que está acontecendo e que momentos exigem que você mostre o que está acontecendo.

 

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E você, que motivos o fazem desistir de ler uma história?

Sobre o Autor

Diego SchuttVer todos os artigos por Diego Schutt
Diego Schutt é publicitário, escritor, e especialista em storytelling e criação de universos de ficção. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos na Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e até mesmo no Brasil. Há 6 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

31 Comentários

  1. Alexandre 03/04/2013

    Como sempre, ótimas dicas!

  2. Giovanni Bruno 04/04/2013

    É importante ressaltar tais dicas, afinal, muitos não conseguem enxergar seus próprios textos da forma como enxergam os textos que leem, os livros que costumam cultuar, o que acaba fazendo seu trabalho nada valer. Eu gostei das suas dicas, que na mais são que meras verdades sobre os erros que muito aspirantes cometem.
    Não é impossível criar um belo texto, basta se dedicar; analisar muito aquilo que gostamos de ler – como em uma de suas dicas – e tentar descobrir como é a forma correta daquele texto que nos invoca a atenção, como conseguem produzir em nós tal efeito. Isso é muito bacana!

    Mais uma vez, parabéns pelo belo trabalho!

  3. Manuel Manolo Moscaino 04/04/2013

    Apenas uma dica faz sentido, a da revisão, as outras são bobagens. Aprennder a escrever é essencial é pregar o mal uso da palavra é um absurdo.

  4. Diego Schutt 04/04/2013

    Oi Alexandre. Legal que você gostou dessas dicas. Obrigado pela mensagem.

  5. Diego Schutt 04/04/2013

    Oi Giovanni

    Você disse tudo. A matéria-prima do escritor é o que ele sente e pensa. É difícil lançar um olhar crítico sobre algo que criamos porque isso significa lançar um olhar crítico sobre nós mesmos. Por isso é sempre bom compartilhar nossas produções com outras pessoas. Assim ganhamos perspectiva sobre como nossas palavras estão sendo interpretadas.

    Obrigado pelo comentário.

  6. Diego Schutt 04/04/2013

    Oi Manuel. Não entendi a segunda parte do seu comentário. Você quis dizer que esse texto está pregando “o mal uso da palavra”?

  7. Fagner 04/04/2013

    Me identifiquei com o primeiro item, Linguagem Rebuscada Demais. Eu não acho que eu empregue palavras que fujam ao universo vocabular do leitor, porém busco montar frases com um quê de épico. Fico sempre atento a como soam as sentenças.

    Como sempre, ótimas dicas!

  8. Ronperlim 04/04/2013

    As opiniões críticas e as dicas devem ser exploradas pelos jovens autores. Afinal de contas, até as obras dos mais experimentados autores se submetem a uma análise e sempre que possível, elas são alteradas.

  9. Gean Riwster 05/04/2013

    kkkkkkkkkkk

    Acho que meu texto entrou em todos os tópicos que você citou. Ele deve ter sido o grande mal exemplo. Mas não foi bem proposital.

    Era realmente a única crônica que eu tinha no momento, e já fui enviando dando a cara a tapa, e nem esperava realmente ganhar, como aconteceu. Mas sabia que tinha algumas palavras complicadas e poéticas demais, sabia que tinha começado genericamente, sabia que havia detalhado muito o local sem dar segmento para o conflito, sabia que não havia revisado direito… Sabia de tudo, e a responsabilidade de não ser selecionado foi completamente minha.

    Mas foi uma experiência boa, pois é divertido saber sobre a grande sentença final. Pois ela é a mais sincera e análoga possível. Do mesmo modo que se um dia chegar a ganhar, saberei que ela será sincera e certeira.

    Obrigado, mais uma vez 😉

    Gean Riwster

  10. Antônio Martins 05/04/2013

    Muito legal o post. Diego você podia fazer um post que fala sobre os direitos autorais; seria de muita ajuda :)

  11. Paulo H. 10/04/2013

    A tempos que estou para dizer: Amo este site!

  12. Diego Schutt 15/04/2013

    Oi Fagner. Não há absolutamente nada de errado no uso de linguagem rebuscada ou “com um quê de épico”, contanto que ela seja pertinente à história e às reações que você deseja causar no leitor. Meu comentário se refere aos casos onde o excesso de formalidade do escritor destoava da narrativa.

  13. Diego Schutt 15/04/2013

    Oi Antônio. Vou procurar informações sobre o assunto para escrever um artigo sobre direitos autorais. Obrigado pela sugestão.

  14. Diego Schutt 19/04/2013

    Oi Gean

    Reforço o que já falei em um comentário anterior. Não há absolutamente nada de errado no uso de palavras complicadas e poéticas, contanto que elas sejam pertinentes à história e às reações que você deseja causar no leitor. Meu comentário se refere aos casos onde esse tipo de linguagem destoava da narrativa.

    sds
    Diego

  15. Ben Oliveira 09/05/2013

    Adorei as dicas do seu blog.
    Vou ler o blog diariamente. Bom mesmo seria se tivesse um livro com essas dicas!
    Eu adoraria!
    Abraço

  16. Diego Schutt 10/05/2013

    Oi Ben
    Legal que você gostou das dicas. Aguarde na linha que daqui a pouco vem o livro. 😉 abs

  17. Miriam Rabelo Murta Valle 10/05/2013

    Eu tenho muitos defeitos apesar de muitas boas ideias, mas também necessito saber como proceder para registro de obras intelectuais (tentei a Biblioteca Nacional e nem consegui abrir o site – foi outra coisa que me fez desistir de continuar a colocar ideias responderam ou i, pois alguém do curso copiou minha ideia e ainda me disse q. preciso tomar cuidado ao produzir e passar para a frente. Como era matéria de curso deixei prá lá. Mas sei q. isso pode acontecer na prática. Como fazer? Grata, um abraço

  18. Diego Schutt 13/05/2013

    Oi Miriam
    Não tenho conhecimentos profundos sobre as leis de direitos autorais. Neste link http://www.bn.br/portal/?nu_pagina=32#3 você encontra respostas para as perguntas mais frequentes sobre o assunto. Espero que ajude.
    abs
    Diego

  19. Igor Ferreira 03/06/2013

    Realmente, com muitos disseram, o post foi incrível, aliás, todo o site é! Parabéns, Diego, por manter um acervo tão brilhante que auxilia os novos autores. O post me remeteu a um erro que muitos dizem que eu tenho: o vocabulário refinado demais. Um crítico, uma vez, chegou ao ponto de dizer que minha escrita saia forçada. Eu tentei e tento constantemente mudar, mas realmente não consigo, e atribuo muito disso ao fato de gostar da forma como escrevo. Acho que precisaria de alguém crítico de verdade para ler algum texto meu e avaliar. Mas, enfim, qual é o medicamento que eu devo usar para ficar curado dessa síndrome de palavras pomposas? Abraços, Igor

  20. Diego Schutt 04/06/2013

    Oi Igor

    Não pense em termos de certo e errado. Usar vocabulário refinado demais não é um erro, em especial se você gosta de escrever assim. O ponto que eu quis ressaltar no artigo é que a linguagem de alguns textos não combinavam com o conteúdo da história, e que o objetivo principal do escritor parecia ser demonstrar sua habilidade com a gramática.

    Minha sugestão é que você experimente usar palavras menos rebuscadas e um tom menos pomposo, e veja o que você acha do resultado. Um bom exercício é tentar rescrever um trecho do texto como se você estivesse contando uma parte da história pelo telefone para um amigo.

    Boa sorte e obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  21. Alexander de Melo Luiz 11/07/2013

    Boas dicas! Já salvei-as para ler com mais atenção mais tarde. Em relação ao seu trabalho no universo da escrita queria conhecer um pouco mais sobre seus trabalhos prestados. Como poderei fazer isto?

  22. Francine 11/07/2013

    A única dica realmente pertinente é a que fala sobre a revisão e cuidado com edição do texto, pois as outras já entram no terreno da subjetividade.

  23. Má Matiazi 07/10/2013

    Antigamente eu pecava no ponto de ir muito direto ao assunto. Faltava uma certa ambientação, eu contava demais e mostrava de menos, ou pior: eu contava um grande pedaço da história e depois, quando resolvia “mostrar”, aquilo destoava, ficava arrastado simplesmente porque o resto da história corria demais. Eu não conseguia entender por que meu livro não estava bom.
    Recebi várias críticas de amigos – amo as benditas críticas! – e acredito ter amadurecido muito! Por isso sempre estou buscando quem leia e dê sugestões de melhora para meus escritos.
    Sites com dicas como este são uma ajuda abençoada pelo qual eu implorava anos atrás e que agora me fizeram construir uma obra muito mais madura! Agradeço por essas e por tantas outras dicas valiosas!

  24. Ana 12/10/2013

    Mas e quando a linguagem do autor já é rebuscada? Digo, eu tenho meu próprio jeito de escrever e isso inclui uma linguagem bem mais formal. Eu não forço isso, apenas sai naturalmente quando escrevo. E quando eu forço minha escrita para colocar termos mais modernos, sinceramente acho que ficou um lixo. Então, isso é próprio meu…

  25. Karina Lino 12/10/2013

    Ótimas e oportunas dicas! Concordo com todas, inclusive, por ter recebido a maioria dessas correções da minha querida beta.
    Humildemente, deixo mais uma dica: se por um lado o vocabulário rebuscado em excesso desestimula a leitura, a falta de palavras e expressões mais limpas, coesas e bonitas também me faz perder a vontade de acompanhar a história, por melhor que seja. Linguagem coloquial demais, pra mim, só se aplica em diálogos e não na narrativa.
    Obrigada! ^^

  26. Lucineia Alves 01/01/2014

    Bem eu acompanho o vocabulário do leitor, como uma novela escrita que vai ser vista por todo tipo de pessoas, um vocabulário mais simples possível de ser entendido.

  27. Henrique Fernandes 24/08/2014

    Oi Diego.

    Adorei seu post! Não só ele, mais o blog em tudo. Venho aprofundando meus conhecimentos como escritor e suas dicas, o blog em si, me ajudam muito. Parabéns pelo trabalho!

  28. katiane 04/10/2014

    Me identifiquei muito com esse site e passei a manhã toda lendo suas dicas. =) Na verdade entrei aqui por acaso, pq tenho um Blog e há algum tempo escrevo. Mas percebi que apesar de seguir a risca algumas de suas dicas (antes mesmo de conhecê-las, como revisar o texto mil e uma vez antes de divulgá-lo por ex) as pessoas que acessam meu blog não passam dos primeiros parágrafos de minhas histórias. :( Então vi que me encaixo em quase td que li aqui. Na verdade eu tinha consciência de onde estava pecando, mas não sabia como resolver. E agora já sei. =)
    À propósito, virei sua fã e salvei seu site nos favoritos.
    Obrigada.

  29. Eliane Verica 28/02/2015

    Oi Diego, parabéns pelo texto, realmente muito bom. Na verdade me identifiquei com todas as suas observações, vivo dizendo isso mas comunidades de “escritores”, mas muitos pensam de outra forma.

  30. Juli_RJ 28/02/2015

    Faltou uma dica importante, que é conter a ansiedade que todo iniciante tem de mostrar ao mundo o que escreveu e que nunca está bom, porque não houve o amadurecimento da história. Já cometi esse erro em textos e histórias me envergonho dessa ingenuidade minha. Rsrs Adorei as dicas, são ótimas e precisas.

  31. Sybylla 02/04/2015

    Quando leio meus próprios textos, nunca acho os problemas, mesmo sabendo que eles estão lá. Por isso sempre tento passar a leitura para algum leitor beta que possa me ajudar a ver isso. Infelizmente, tem quem não tenha a humildade de fazer isso, achando que o texto tá foda e pronto.

    Ótimas dicas, by the way! 😀

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