Aprenda a criar realidades com palavras

Pare de tentar escrever melhor.

Por Diego Schutt em 25/03/2013 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, inspiração
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Por muito tempo, eu apenas tentei escrever melhor.

Investi incontáveis horas preenchendo páginas em branco com personagens e enredos que pareciam originais a primeira vista. Acreditei na ilusão de que boas ideias eram a matéria-prima das melhores histórias. Me convenci de que minha habilidade para expressar pensamentos era suficiente para criar universos ficcionais atrativos.

O resultado era quase sempre o mesmo: frustração ao perceber que eu tinha dezenas de textos começados e nenhum terminado; desânimo ao constatar que minhas ideias perdiam força quando colocadas no papel; angústia por não saber o que precisava mudar em minhas histórias para torná-las mais envolventes.

Para piorar, eu procurava compensar esses sentimentos negativos começando outro texto, na esperança de que minha próxima tentativa resultaria em uma história melhor. Terminava ainda mais frustrado, desanimado e angustiado.

Então parei de escrever ficção.

Achei que não tinha talento, que tantas tentativas frustradas só poderiam ser sinais de que eu deveria desistir. Se escrever histórias estava fazendo eu me sentir tão mal, por que continuar?

Como disse o Thiago Frias neste vídeo lindo , é muito mais fácil lidar com o fracasso de um hobby do que com o fracasso daquilo que você quer fazer para o resto da vida. E escrever ficção não era apenas um passatempo para mim. Era o que eu queria fazer para o resto da vida.

Minha frustração me motivou a pesquisar obsessivamente o universo de criação de histórias. Li tudo que encontrei sobre o assunto, analisei minhas narrativas preferidas, estudei meus textos incompletos, criei um site inteiro dedicado a entender o porquê do meu fracasso inicial.

Depois de três anos pesquisando, pensando e escrevendo sobre o assunto, percebi que meu erro lá no início foi simplesmente tentar escrever melhor, quando eu deveria praticar para escrever melhor.

Qual a diferença?

Quando você tenta fazer alguma coisa, está querendo alcançar um objetivo específico. Se você ama música e decide tentar tocar piano, por exemplo, você pode simplesmente apertar as teclas do instrumento na esperança de criar uma melodia que agrade seus ouvidos. Talvez você tenha sorte e consiga produzir algumas passagens harmoniosas. Talvez não. Tentativas são sempre bem ou mal sucedidas. Você alcança seu objetivo ou não.

Quando você se concentra na prática, ao invés de focar no seu desempenho ou em metas específicas, está exercitando as habilidades necessárias para alcançar seu objetivo. Se você decide praticar para ser um pianista, vai estudar teoria musical, vai se familiarizar com as figuras rítmicas, vai praticar melodias e harmonias. A prática permite que você aprenda tendo consciência dos seus erros e acertos. O processo torna você melhor, independentemente de você ter alcançado seu objetivo final ou não.

Se você está cansado de tentar escrever melhor e quer começar a praticar suas habilidades de escrita:

  • Conheça a estrutura, os elementos e os princípios básicos das narrativas de ficção.
  • Desconstrua boas histórias e entenda porque elas funcionam.
  • Reconheça os pontos fortes e fracos dos seus textos.

Escrever é um ofício que nunca se domina completamente.

Sua única opção é continuar aperfeiçoando suas habilidades de escrita através da prática persistente, disciplinada e consciente.

Tenha sempre em mente que escrever ficção, como toda forma de expressão artística, é apenas um canal para você compartilhar sua visão de mundo sobre um tema. Conheça teorias, estude técnicas, domine estruturas, mas permita que sua intuição e sensibilidade guiem seu processo de criação.

E você, investe mais tempo tentando ou treinando para escrever melhor?

 

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

22 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Dualys Francisco 02/04/2013

    Muito bom, Diego! Faz um bom tempo que acompanho seu blog, acho que só agora vim a comentar. Quero dizer que você dá dicas preciosas e tem me ajudado muito. Estou aproveitando essa fase da minha vida em que ando mais inspirado para poder escrever. Tudo o que eu leio e aprendo aqui está sendo usado. Quanto a pergunta, creio que eu esteja mesmo investindo mais tempo treinando minha escrita.

    Saudações!

  2. Diego Schutt 02/04/2013

    Oi Dualys

    Sempre bom receber comentários dos meus leitores anônimos. 😉
    Fico feliz em saber que as dicas tem ajudado você a escrever suas histórias. Espero encontrar você mais seguido por estas linhas.

    sds
    Diego

  3. Susi 02/04/2013

    Caramba Diego, sofrendo do mesmo mal que eu…………
    É o que eu precisava. Eu também tenho essas dezenas dessas história, sempre volto a lê-las e quando o texto acaba me pergunto porque não fui adiante. E quando tento, a ideia sempre morre, ainda mais fácil do que no começo.
    Pra continuar na batalha da escrita é necessário afiar o equipamento e treinar toda capacidade que eu possa ter. Pois é o que eu vou começar, e agora
    Obrigado, foi de muita ajuda!

  4. Clayson Valentim 02/04/2013

    Sempre com um material sincero e incentivador! Cara, parabéns por sua generosidade em partilhar o conhecimento conosco!
    Grande abraço

  5. Ana 02/04/2013

    Eu me identifiquei com cada palavra. Tenho inúmeros “projetos” que abandonei antes mesmo de finalizar o primeiro capítulo. Sou critica com tudo! Escrevia uma coisa e achava maravilhoso, mas depois voltava e sentia que não havia nexo, que faltava algo ou que simplesmente não sabia escrever bem. Obrigada pela ajuda! Vou começar a treinar. Adoro o seu site <3

  6. Lalá 03/04/2013

    Olá, Diego!

    Eu treino minha escrita, mas, de fato, invisto mais meu tempo em tentativas.
    Obrigada pela excelente dica! Colocarei em prática.

    Abraços

  7. Diego Schutt 04/04/2013

    Mãos a obra Lalá! 😉

  8. Diego Schutt 04/04/2013

    Oi Susi

    Acho que todo mundo se identifica com essas mesmas dificuldades. É natural que a gente comece tentando e falhando. Esses primeiros fracassos separam os aspirantes a escritores em dois grupos: aqueles que veem dificuldades como um sinal para desistir, e aqueles que transformam cada fracasso em uma lição. Os leitores do Ficção em Tópicos definitivamente fazem parte do segundo grupo. 🙂 Obrigado pelo comentário.

  9. Diego Schutt 04/04/2013

    Clayson, fico feliz em saber que o texto incentivou você. Papel e lápis não mão, e vamos praticar! abs

  10. Diego Schutt 04/04/2013

    Ana, estamos todos no mesmo barco. Essa montanha russa de emoções em relação aos seus próprios textos é comum e inevitável. Acredito que entender nossas motivações e intenções para escrever da forma que escrevemos ajuda a minimizar os pensamentos negativos, e a nos concentrarmos em encontrar o que precisa ser melhorado nas nossas histórias. Obrigado pelo comentário.

  11. Gean Riwster 05/04/2013

    Foi uma boa analogia, Diego. Tentar é como correr sem a certeza da chegada, já treinar para aquilo é ter a esperança de que, cedo ou tarde, a largada chegará.

    No começo e até hoje eu deixei histórias, várias, pelo começo, como você citou no texto, inclusive teve uma que disse a mim mesmo que iria terminá-la, apesar dela vir a ser desanimadora.

    Mas ninguém é de ferro, e acabei desistindo e abrindo outra história, como sempre. Ao menos aprendi quais foram os erros que cometi anteriormente, e os acertos também, e sei mais ou menos por onde começar para me tornar um bom escritor, e suas dicas me ajudaram bastante.

    O problema é que eu queria saber se meus esforços valeriam a pena. Porque há pessoas muito talentosas, como você, Diego, que está nisso há mais tempo que eu e creio que ainda não conseguiu chegar aonde almeja. Isso é o que está me incomodando, pois, até onde os esforços são convertidos em algo que realizará tudo que queria? Você poderá publicar até um livro com uma editora, e os espaços que faltam poderiam ser escritos pelo “escritor fantasma” da editora, principalmente as correções. Ok, mas será que serei mais um daqueles escritores que vendem regularmente, com vários livros publicados, mas nenhum que chegou aos resultados realmente grandes que esperava? Ou seja, mais um escritor entre vários?

    Sem mais delongas, obrigado. Mais uma vez 😉

    Gean Riwster

  12. Diego Schutt 18/04/2013

    Oi Gean

    A verdade é que não temos como saber se seremos publicados por editoras, se nossos livros venderão regularmente, se seremos apenas mais um escritor entre vários. A pergunta que você deve se fazer é: você está disposto a pagar para ver?

    Sua presença constante aqui no site me faz pensar que sim. Espero que eu esteja certo. 😉

    abs
    Diego

  13. Mônica Cadorin 04/05/2013

    Adorei o texto. Acompanho o site há algum tempo e é muito bom vir aqui de vez em quando passear por seus textos. Aprendo o que não sei, e confirmo o que já sei. É bom encontrar outra pessoa com a mesma opinião.

  14. Ben Oliveira 09/05/2013

    Concordo com a diferença entre tentar e treinar. Além de tentar escrever melhor, passei a ler artigos, ensaios e livros sobre a escrita de ficção, autores e literatura, o que tem me ajudado a cada dia mais a aprender sobre o ofício de escritor.

    Parabéns por mais um post interessante e relevante, no mar de frivolidades existente na internet!

  15. J. Gonçalves 29/05/2013

    Parabéns pela iniciativa, Diego,

    Nesta primeira leitura do blog encontrei informações relevantes. Quanto à escrita – e às questões acima expostas – digo também passar por momentos difíceis em desenvolvimento literário. O texto complica por motivos diversos, desde a falta de bagagem para a conclusão a obstáculos como o desânimo.

    Escrever é mais complicado do que aparenta! Eis certeza. Em começo de ofício parece atividade simples, porém, com o tempo há de se notar o quanto é necessário estudar, persistir e aperfeiçoar técnicas. Digo isto, pois as primeiras obras têm aquele cheiro de suprassumos artísticos, quando em verdade estão incompletas e cheias de jargões.

    Apenas com o tempo é possível observar as falhas; cortar clichês e formar opiniões interessantes. Experiência diz muito nesta atividade. Quanto mais leitura, escrita e atenção, melhor. Outro fator, e digo enfim, é que caso se queira ser escritor, é interessante escrever um texto que o agrade. Faço paráfrase de fala de um professor de violino, certa vez: “Você pode tocar da melhor forma possível, mas se não sentir, se não viver a música, simplesmente não terá graça ou sentido o que faz.”

    Abraços!

  16. Piscies 25/06/2013

    Diego,

    Admiro muito o seu trabalho e ele tem me ajudado muito a melhorar minha escrita. Concordo que a tentativa deve ser baseada em um treino, mas discordo de que a falta de treino seja o motivo pelo qual a maioria dos escritores possuem inúmeros textos pela metade e nenhum finalizado.

    Como você fez no início, eu estou estudando bastante. Estava nesta fase de ter umas 30 obras pela metade e nada completo. Resolvi me dedicar a escrita e comecei a ler e ler e ler diversos livros sobre Ficção, prosa, escrita geral, português, literatura, etc. Alguns deles propõem estruturas de contos e romances de ficção. Aliás, a maioria mostra as estruturas básicas, mas todos os autores concordam com uma coisa: todas as regras podem ser quebradas.

    Não sei por que mas eu odeio seguir regras. Não consigo começar uma história pensando que “vou escrever uma história usando a estrutura X e irei então desenvolver o personagem segundo o que li no livro Y”. Eu só escrevo. É assim para mutos autores.

    Acho que o fato de mutos de nós termos tantas obras inacabadas se deve a falta de foco, medo de mostrar o trabalho a outros, falta de comprometimento, etc. Mas concordo com você que só tentar escrever não basta: tem que estudar mesmo, prestar atenção nos escritores consagrados, etc.

    Por isso que leio este blog aqui! =)

  17. Diego Schutt 25/06/2013

    Oi Piscies

    Essa dica é bem pessoal. Se você ler o texto novamente, vai perceber que em nenhum momento mencionei que falta de treino é o motivo pelo qual “a maioria dos escritores” não termina seus textos. Esse era o MEU motivo. E, lógico, está longe de ser universal.

    Também chamo a atenção para a diferença entre regras e técnicas. Aqui no Ficção em Tópicos, eu falo apenas de técnicas, ferramentas que ajudam refinar o que a intuição criou.

    Eu não acredito em regras. E também não acho produtivo começar histórias pensando sobre estruturas, conflitos, temas ou sobre qualquer um dos outros conceitos mencionados aqui no Ficção em Tópicos. Sempre que tentei seguir “receitas” para escrever, só saiu porcaria. Mas técnicas não são regras, são apenas guias.

    Foi somente quando comecei a perceber como funcionavam as engrenagens dos textos que eu gostava de ler que passei a me sentir mais focado, comprometido e confiante para “só escrever”. Hoje eu sei que quando revisar meus textos, posso identificar e melhorar as partes que não funcionam. É nesse ponto que eu começo a usar técnicas e pensar em estrutura, quando meu lado criativo já fez seu trabalho.

    Obrigado pelo comentário. 😉
    abs
    Diego

  18. Sarah 25/06/2013

    Realmente escrever é prática e treino… Textos de anos atras são muito piores de que textos escritos hoje, depois de anos de prática. Mas o que é bom salientar também e a paixão que você coloca em seu texto. Não na história ou em seus personagens, mas sim a paixão em escrever cada paragrafo e brincar com as palavras e ideias, imaginando como isso souá no ouvido das pessoas… Muitas vezes com a ansiedade de escrever uma cena e chegar a um ponto pulamos etapas e não aproveitamos todas as possibilidades de como descrever a cena, por que estamos muito ansiosos de chegar ao fim dela.

  19. Clayson Valentim 25/06/2013

    Olá Diego, Seu trabalho aqui neste site é o melhor que ja encontrei na internet. Sepre ajudando, indicando e passando as informações. Em um mundo em que ter informação é poder, você simplesmente passa tudo o que poder por meio do site. Suas dicas ajudam muito e ainda se dispõe a ler os originais! Que mais o povo pode querer? Eu cada vez mais leio o seu site, suas dicas indico e fico mais feliz a cada postagem incentivando. Estou buscando minhas histórias também com seu incentivo e por isto eu agradeço. Um abraço,
    Clayson Valentim

  20. Piscies 26/06/2013

    Diego,

    Tenho que concordar com tudo o que falou, especialmente com a diferença entre “regras” e “técnicas”. E também tenho que estudar mais as técnicas, rs.

    Abração!

  21. Sérgio Quintiliano 30/11/2015

    Diego, muito obrigado por todo esse site. Sinceramente, todas as dicas que você escreve, são uma brisa de ar fresco quando nós, os pretendentes a escritores, nos sentimos desanimados e sem ideias e nos questionamos se aquilo que temos em mente ou que já transcrevemos para o papel tem algum valor. Venho muitas vezes aqui ao site em procura de respostas e sempre que o faço, encontro algo que faz sentido e me ajuda. Isso é algo que não tem preço. Obrigado e por favor, continue fazendo o que você faz.
    Um abraço de Portugal
    Sérgio

  22. Filipe Alves 15/08/2017

    Nossa Diego, isso me ajudou muito. Eu me frustrei tentando escrever e fui pulando de estória em estória devido não conseguir escrevê-la. Sempre colocava meu livro como um objetivo que tinha que cumprir a qualquer custo e foi isso que estragou tudo. Enfim, estou em processo de transição agora, para melhor. Muito bom seu post e seu blog, parabéns.

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