Aprenda a criar realidades com palavras

HISTÓRIAS DESCONSTRUÍDAS 2: Malária

Por Diego Schutt em 19/01/2013 Tópicos: escrever, inspiração
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Mais um post da série HISTÓRIAS DESCONSTRUÍDAS, onde analiso histórias de ficção, apontando como as dicas apresentadas no site podem ser aplicadas na prática.

O texto está estruturado em três partes:

  1. Personagens: comentários sobre a caracterização dos participantes da história, e sobre a contextualização da narrativa.
  2. Conflitoanálise dos tipos de conflito presentes na história, e do desejo central do personagem principal.
  3. Resolução: reflexões sobre o tema, a intenção do autor, e possíveis interpretações do significado da história.

Neste texto, vou desconstruir a história Malária, escrita por Edson Oda.

Antes de continuar a leitura do texto, assista ao vídeo abaixo.

Malaria from Edson Oda on Vimeo.

PERSONAGENS

A história começa mostrando a morte, a protagonista da história personificada por um homem, sentado em um bar, analisando sua lista de condenados. O personagem Fabiano entra em cena e tenta intimidá-lo colocando sua arma sobre a mesa.

“Quem mandou você aqui?” pergunta a morte.

“Alexandre Mendonça” responde Fabiano.

A morte verifica sua lista de condenados e encontra o nome Caroline Mendonça.

“É, parece que a filha do Mendonça não passa de hoje” diz a morte.

“Isso se você não morrer aqui agora” diz Fabiano.

Neste momento, a história coloca uma pergunta intrigante na nossa mente (técnica número 17): o que acontece se a morte morrer?

Neste ponto, já temos delimitados o cenário (bar no velho oeste), os personagens principais (a morte e Fabiano) e seus respectivos objetivos.

Fabiano é um matador de aluguel contratado para matar a morte antes que ela mate Caroline Mendonça. Sua motivação é receber 30 moedas de ouro como pagamento. A morte quer simplesmente fazer o seu trabalho.

 

CONFLITO

Na sequência, a morte introduz conflito na narrativa criando um dilema: se Fabiano o matar, ele não terá mais trabalho. Isso expõe o tema central da história: o papel da morte.

“Se você me matar, em 500 anos não haverá mais espaço para tanta gente na terra. As pessoas vão se decompor nas ruas. O mundo estará doente, faminto, implorando por morte, mas ninguém poderá morrer. Suponhamos que você me mate agora, o que você vai fazer amanhã?”

Fabiano agora precisa decidir se completa o seu trabalho para ganhar suas últimas moedas de ouro, ou se mantém viva sua única fonte de renda.

O desejo central do protagonista é convencer seu matador de que ele está prestes a cometer um grande erro.

“Por que você não atira na Malária? Eu não vou matar essa menina. Só vou buscar o corpo.”

 

RESOLUÇÃO

Depois de considerar os pontos levantados pela morte, Fabiano coloca sua arma na mesa.

“Qual o seu nome garoto”, pergunta a morte.

“Carreira, Fabiano Carreira.”

A morte então lhe pergunta as horas e, assim que recebe a resposta, dispara sua arma contra ele. A história termina com a morte riscando o nome de Fabiano da sua lista de condenados.

“Maldita malária”, diz a morte em tom irritado, dando a entender que ela é a causa de toda a confusão, o que é reforçado pela presença majoritária da doença na sua lista de condenados apresentada no início e no fim do filme.

significado que extraí da história é que ninguém é páreo para a morte, ninguém pode vencê-la.

Esta me parece ser a ideia-chave do filme: a morte tem um papel muito importante no mundo porque sem ela, as pessoas sofreriam mais do que sofrem quando perdem alguém que amam para uma doença.

E você, que significado dá para essa história? Compartilhe suas ideias deixando um comentário.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Gean Riwster 22/01/2013

    kkkkkk

    Essa foi boa. O significado é esse mesmo que você citou, nada para discordar.
    A sequência se constitui em apresentar o personagem principal e o antagonista, sendo ele a Morte ou Fabiano, não especificamente nesta ordem.

    1- Apresentação do cenário, tempo e personagens principais (Mundo Cotidiano);
    2- Objetivo e “Chamado” (Mundo Mágico/Fantástico, onde a morte está personificada).

    Depois de conversas, há uma mudança de objetivo que muda completamente a perspectiva inicial que tínhamos da história, o que a deixa mais imprevísivel e nos entretem para ver até o fim. E vemos então a tal da moral.

    3- Mudança de Perspectiva e novas possibilidades dentro do contexto;
    4- Clímax da história (quem vai matar quem? Negada do “Chamado” pois Fabiano queria prosseguir com seu mundo, já que dependia da Morte);
    5 – Com a máscara de Guardião, a Morte executa o Fabiano, que não conseguiu passar para o “segundo ato”, dizemos assim;
    6- Desfecho.

    Um Livro que acho interesante sobre a temática Morte é “A Menina que Roubava Livros”, de Markus Zusak. De cada frase que há pelo livro, a mais interessante e que talvez seja a síntese de toda história se apresenta quando a Morte apresenta sua nota final.

    “Os seres humanos me assombram”

    Enfim, outro bom tópico. Minha última dúvida que está me azucrinando é como puxar seu leitor de um capítulo para o próximo, naquele em que nós mostramos o primeiro no dia 20 e o próximo no dia 30. Como manter a curiosidade acesa por dez ou mais dias na história? Tem algum tópico que possa me ajudar?

    Vlw mais uma vez, Diego

    Gean Riwster

  2. Diego Schutt 24/01/2013

    Oi Gean

    Li ano passado “A Menina que Roubava livros”. Um livro inteiro narrado na perspectiva da morte. Fantástico. Para mim, esse foi um dos aspectos que mantiveram meu interesse na história. O que a morte tem a dizer sobre os absurdos da segunda guerra mundial, eu me perguntei nas primeiras páginas. Cada capítulo, de alguma forma, é uma resposta para essa pergunta.

    Em relação a sua questão, acredito que uma das técnicas mais eficazes para manter a atenção dos leitores é deixá-los angustiados com as possíveis consequências de algo que aconteceu no final de um capítulo. Se ele está envolvido com os personagens, inevitavelmente ele vai continuar lendo para saber como os conflitos vão se resolver. Vou desenvolver um texto específico sobre isso com mais detalhes.

    Obrigado pelo comentário.

    sds
    Diego

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