Aprenda a criar realidades com palavras

HISTÓRIAS DESCONSTRUÍDAS 1: História de Sofia

Por Diego Schutt em 07/11/2012 Tópicos: escrever, inspiração
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Este artigo faz parte da série Histórias Desconstruídas, onde analiso os ingredientes principais de histórias de ficção, apontando como as dicas apresentadas no Ficção em Tópicos podem ser aplicadas na prática.

Meus comentários serão estruturados em três partes:

  1. Personagens: comentários sobre a caracterização dos participantes da história e sobre a contextualização da narrativa.
  2. Conflitoanálise dos tipos de conflito presentes na história e do desejo central do personagem principal.
  3. Resolução: reflexões sobre o tema, a intenção do autor e possíveis interpretações do significado da história.

Para começar a série, escolhi “A História de Sofia“, crônica escrita por José Pedro Goulart, publicada no livro “A voz que se dane”, e transformada em filme pela a rede de farmácias Panvel.

Antes de continuar a leitura do texto, assista ao vídeo abaixo.

PERSONAGENS

O narrador da história, que também é o protagonista, começa caracterizando sua cachorrinha Sofia. Mas ele faz isso de uma forma bem peculiar. Ele começa se dirigindo à audiência e pedindo desculpas.

“Se você se chama Sofia, ou tem alguém querido com esse nome, por favor, não fique chateado comigo.”

Instantaneamente, o narrador da história desperta uma pergunta intrigante na nossa cabeça (técnica número 17): por que ele está se desculpando?

“Mas a Sofia em questão aqui é uma cachorrinha que mora no pátio lá de casa.”

A partir dali, o narrador começa a delimitar o cenário da história (sua casa), nos informar sobre outros personagens (a cachorrinha Brigit e a esposa) e a dinâmica dos relacionamentos entre eles, focando mais na cachorrinha Sofia.

“Sofia […] é uma cadelinha acostumada a afagos diários. Ela, até onde eu sei, é o único cachorro que ronrona feito gato.”

Até esse ponto, o criador da história está apresentando o ponto de equilíbrio da narrativa, a rotina de uma família feliz e satisfeita.

CONFLITO

Logo na sequência, ele introduz o incidente que vai abalar esse equilíbrio e provocar um conflito na vida do protagonista, revelando o tema central da narrativa: a relação entre pessoas e animais.

“Ultimamente, porém, [a Sofia] tem andado triste. Muito triste aliás. É que há alguns meses nasceu a minha filha. E a Sofia, eu confesso, ela foi deixada um pouquinho de lado.”

Essa é a primeira vez que o narrador atribui um sentimento humano à Sofia (tristeza). Até então, ele a descrevia simplesmente como um animal de estimação.

A partir dali, o personagem começa a deixar claro a profundidade e a importância da sua relação com a cadelinha.

Na sequência, o protagonista da história expõe o seu conflito mental, revelando em um tom desapontado o seu sofrimento ao perceber a tristeza da cadelinha Sofia.

“Nesse último fim de semana ela apresentou um olhar cabisbaixo, orelhas no chão, coisa de cortar a alma.”

Para enfatizar ainda mais a tristeza da Sofia, o narrador compara sua reação melancólica à chegada do bebê com a indiferença da cachorrinha Brigit, enfatizando como a segunda segue feliz e satisfeita com sua vida.

Ele visivelmente se sente culpado por não estar mais dando tanta atenção à Sofia quanto antes. O objetivo principal do protagonista fica claro nesse ponto: ele quer eliminar essa culpa, ele quer que a Sofia não se sinta rejeitada ou menos amada por causa do bebê.

RESOLUÇÃO

Isso o faz refletir sobre as diferenças entre os sentimentos dos animais e das pessoas. Ao observar sua filha brincando com a Sofia, ele se dá conta de que a cadelinha, diferente do que se espera de uma criança que ganha um irmãozinho, não tentou reconquistar sua atenção atacando a “concorrência”.

Ele finalmente chega a conclusão que o ajuda a reorganizar seus pensamentos, eliminar a culpa que sentia e resolver o conflito mental que o perturbava.

“Olhei pro lado, no chão, e minha filha de 9 meses se divertia colocando a mão na boca da Sofia. Puxando-lhe as orelhas, apertando-lhe o nariz… e a Sofia nem pensava numa pequena vingança, um arranhãozinho, uma mordidinha quem sabe. Apenas olhava pra mim. Não era um olhar ressentido. Muito menos desafiador. Era apenas um olhar de saudade.”

No final, o protagonista encontra um novo equilíbrio em sua vida, representado pela imagem do personagem brincando com a cadelinha Sofia.

A partir dali, temos a impressão de que ele passará a dividir melhor seu tempo entre a filha e a melhor amiga.

Eu interpreto o significado da história como uma metáfora para a mudança que novas relações trazem para relações existentes, de como muitas vezes não percebemos nossa incompetência em distribuir nossa atenção e amor, a não ser que a gente escute latidos de advertência.

É um lembrete àquelas pessoas que não conseguem manifestar, ou mesmo reconhecer, que estão com saudades de receber um carinho aleatório.

E você, que significado dá para essa história? Compartilhe suas ideias deixando um comentário.

 

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Gean Riwster 08/11/2012

    Ótima ideia e uma história legal.

    Dependendo do modo como esta história fosse contada, ela acabaria sendo “chata”, mas o autor, experiente, soube como puxar a atenção do leitor do começo ao fim com as tais técnicas que você citou.

    O significado da história é esse mesmo que você disse, ou ao menos não consegui encontrar a outra.

    Quando um escritor encontra o lendário “Bloqueio criativo”, geralmente não é basicamente o que vai acontecer na história, ou seja, o roteiro em si que ela não sabe ou encontra respostas, mas na verdade como o escritor(a) vai descrever aquele roteiro e puxar a atenção do leitor até o fim e para ler o próximo capítulo. Essa técnica de descontrução, de início… volto a repetir, foi uma ótima ideia.

    Espero outras “histórias descontruídas” ansiosamente. E um pedido, que pode ser ou não atendido, é de transcrever o que foi dito no vídeo, porque a minha internet não permite assisti-los. Mas bem, as partes importantes da descontrução você fez, então não é tão necessário assim.

    Uma dica é você falar também sobre os Cliffhangers, Jumpcuts e outras técnicas. Esses dois, especialmente, não ficou bem claro como pode ser aplicado de uma maneira realmente interessante.

    Até a próxima.

    Gean Riwster

  2. Oi Gean
    Legal que você curtiu a desconstrução da história. Acredito que isso ajuda a entender como várias das dicas do site funcionam na prática.
    As partes mais importantes do vídeo estão transcritas no artigo. Espero que você consiga, algum dia, assistir ao vídeo. Os atores, a música, e a fotografia do filme tem papel importante na construção da história.
    Vou procurar histórias que exemplifiquem os cliffhangers e jumpcuts.
    Obrigado pela mensagem.
    sds
    Diego

  3. Grata surpresa encontrar esse site. Parabéns pelo trabalho de pesquisa e escrita – e por disponibilizar livremente 🙂

    “educar é encher o mundo de significados’, diria o educador. Também serve para um escritor ‘educado’ – no sentido de culto. Devemos nos atentar às nuances de cada estória em busca de seus significados. Assim, também no momento de escrever: cada parte do texto deve ter o seu significado.

    Continuarei a ler o site!

    E estou aberto a parcerias, pois também administro sites voltados a escritores 🙂

    abraço,

    Wellinton Souza

    @souzawell
    revista literária benfazeja
    Site Concursos literários
    Bravo | Web Design para escritores

  4. Ronperlim 21/03/2013

    História emocionante e apresentada por você. Está claro que trata-se de relações sociais. E Sofia não é só um animal, mas membro da família, capaz de expor sentimentos próprios de humanos. Sentiu-se rejeitada, por isso, a tristeza.

    Valeu por nos brinda com um vídeo bacana desse.

  5. Diego Schutt 02/04/2013

    Linda a história da Sofia, né Ronperlim? Legal que você gostou. Obrigado pela mensagem.

  6. Rosilene 20/04/2014

    Comprei o Livro depois de ter visto o comercial da Panvel que me emocionou muito.
    Mas o caso é que comprei o livro, e não encontrei a historia de sofia nele, já pesquisei na internet e nada, a historia de Sofia poderia estas em outro livro do Autor e não no A VOZ QUE SE DANE?
    Ficarei grata se me responder. Bjs

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