Aprenda a criar realidades com palavras

A diferença crucial entre contar e mostrar em histórias

Por Diego Schutt em 21/11/2012 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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A escritora Nalo Hopkinson compartilha neste ótimo vídeo do Ted-Ed que textos de ficção precisam nos enfeitiçar, precisam criar uma ilusão momentânea de que estamos vivemos no mundo da história. Um escritor habilidoso consegue envolver nossos sentidos e nos ajudar a criar simulações mentais vívidas das experiências pelas quais os personagens estão passando.

Filmes, séries de tv e peças de teatro envolvem alguns dos nossos sentidos diretamente. Nós vemos e escutamos as interações entre os personagens e o cenário. Mas em prosa ficcional, tudo o que você tem são símbolos estáticos em uma página. O seu trabalho como escritor é ajudar o leitor a transformar essa sequência de símbolos abstratos em imagens e sensações mais concretas.

Se você simplesmente descreve o que acontece na sua história de forma literal, usando linguagem abstrata para explicar as ações, pensamentos e emoções dos personagens, o feitiço que faz o leitor se imaginar no mundo da história corre o risco de ser fraco. O que diferencia um texto envolvente de um texto apenas “interessante” é, justamente, a habilidade do escritor de descrever detalhes do universo da história com precisão.

Basicamente, você pode escolher entre duas formas de descrever: contar o que está acontecendo ou mostrar o que está acontecendo. A diferença entre utilizar uma forma ou outra está no tipo de resposta que você deseja provocar no leitor.

Contar evoca pensamentos.

Contar é uma forma de narrar concisa. Ao invés de descrever detalhes sobre o que está acontecendo, o escritor sintetiza em poucas palavras as informações que deseja passar para o leitor naquele momento da história.

Contar acelera o ritmo da narrativa e usa linguagem abstrata, permitindo ao escritor condensar um longo período de tempo em algumas poucas frases ou parágrafos. Contar ajuda o leitor a se orientar no enredo, apresentando apenas os detalhes mais importantes de um acontecimento. Contar é racional, explicativo, genérico.

Exemplo 1 – Foco no Personagem:

“Marta caminhava alegre pelo parque. Era a primeira vez que se sentia feliz de verdade.”

Exemplo 2 – Foco no Cenário:

“Era uma casa suja, com um jardim mal cuidado.”

Repare em como o escritor entrega as informações já digeridas para o leitor, como certos detalhes são deixados de lado, como ele descreve de uma forma genérica, no primeiro exemplo, o que a personagem está sentindo e, no segundo exemplo, a aparência de uma casa.

Mostrar evoca emoções.

Mostrar, por outro lado, diminui a velocidade da narrativa e usa linguagem concreta e detalhada para evocar imagens mais vívidas e sensações mais específicas, de forma a colocar o leitor dentro do universo da  história. Mostrar é emocional, demonstrativo, específico.

Exemplo 1 – Foco no Personagem:

“Marta nunca havia usado os músculos do rosto daquele jeito. Sorrisos para ela eram como bocejos. Sua boca ganhava vida própria e espelhava os movimentos dos lábios das outras pessoas. Era um reflexo, um gesto social, uma forma de ser educada. Mas naquela terça-feira de outono, caminhando sem pressa no parque, ela sentia pela primeira vez a tensão delicada de um sorriso genuíno, espontâneo, que era para ela mesma e para mais ninguém.”

Perceba como a passagem acima permite ao leitor a entender o contexto emocional do que está acontecendo e revela aspectos mais profundos sobre a personagem. Perceba também como o escritor desacelera essa caminhada no parque para chamar nossa atenção para detalhes específicos, que caracterizam o sorriso alegre de Marta.

Todas essas informações estavam embutidas na frase “Marta caminhava alegre pelo parque”. O que o escritor fez na segunda versão foi se colocar no lugar da personagem para ajudar o leitor a ter uma ideia mais clara do que ela estava sentindo naquele exato momento.

Ao mostrar a alegria da personagem, o sorriso deixa de ser apenas um sorriso. Ele é um marco na vida de Marta porque ela finalmente entendeu o que é se sentir feliz de verdade. Por ser um momento importante na história, o escritor diminui o ritmo da narrativa para indicar ao leitor a relevância daquele evento.

Exemplo 2 – Foco no Cenário:

“A casa 613 era um dente sujo estragando o sorriso de casas brancas na Rua Almeida de Barros. As trepadeiras secas cobriam parte do telhado e da fachada, quase escondendo as janelas do segundo andar. Em frente à entrada, um jardim de terra dura, grumosa, e uma única árvore que mal se aguentava de pé. Era um sertão em plena cidade tropical.”

Perceba como a passagem acima permite ao leitor imaginar essa casa com mais clareza, evocando imagens concretas que sugerem a ideia de desleixo, abandono, isolamento, solidão. Perceba também como o escritor indica a importância dessa casa para a história ao descrevê-la com detalhes mais específicos.

Todas essas informações estavam embutidas na frase “Era uma casa suja, com um jardim mal cuidado.” O que o escritor fez na segunda versão foi se imaginar em frente àquela casa e encontrar uma forma de usar a descrição do local para criar uma atmosfera de mistério na cena.

Contar apela para a razão. Mostrar apela para emoção. Contar comunica. Mostrar exemplifica. Contar fornece informações. Mostrar ilustra sensações. Contar é genérico. Mostrar é específico. Contar é levar um soco na barriga. Mostrar é sentir o punho enrijecido empurrando a feijoada de volta para a garganta.

Contar é dar pistas para o leitor entender o que o personagem está sentindo. Mostrar é fazer o leitor se sentir como o personagem.

Especificidade é a palavra-chave aqui. Para descrever os personagens, cenários e momentos importantes da sua história de uma forma mais vívida e precisa, foque nos seguintes pontos:

  • Use a identidade e a personalidade do protagonista como filtro para decidir que detalhes precisam ser melhor desenvolvidos. A história de um professor impaciente exige detalhes e descrições diferentes do que a de um médico medroso.
  • Suas palavras são os olhos, os ouvidos, o nariz, a boca e a pele do leitor. Escreva para os cinco sentidos, não incluindo detalhes para todos os sentidos em todas as suas descrições, mas selecionando apenas detalhes possam enriquecer e clarificar o que você deseja expressar para o leitor naquele momento da história.
  • Para diminuir o ritmo do texto, ao invés de compartilhar mais informações em menos detalhes, compartilhe menos informações em mais detalhes. Considere que descrições podem ajudar você a criar uma certa ambientação, dar mais profundidade para o que está acontecendo ou dar mais textura para a narrativa.
  • Ao invés de inserir listas enumerando informações sobre o cenário ou os personagens, misture descrições com ações. Descreva o calor de um dia ao mencionar o personagem esfregando uma pedra de gelo na nuca. Descreva a cauda do vestido de uma personagem no momento em que ela fica presa na porta e se rasga.
  • Procure por passagens vagas nos seus textos (preste atenção especial aos advérbios e adjetivos) e as reescreva com o objetivo de ser mais preciso na forma como expressa suas ideias. Experimente descrever usando apenas verbos e substantivos ou usando metáforas e comparações.
  • Considere a possiblidade de escrever diálogos que ilustrem as opiniões dos personagens no contexto de uma cena, ao invés de explicar o que eles pensam de uma forma abstrata.

Como decidir quais os momentos certos para contar ou mostrar?

Uma das formas como o escritor indica a importância de certos elementos da história para o leitor é através do número de palavras que ele usa para descrevê-los. Uma página inteira dedicada para falar sobre a importância de um sorriso ou a aparência de uma casa é um sinal de que tais informações são extremamente relevantes. Quando, no entanto, o escritor dedica muitas palavras para descrever informações que são irrelevantes para a história, ficamos com a sensação de que ele está “enchendo linguiça”.

O escritor precisa escolher que informações passar para o leitor em cada momento da história de forma a aprofundar seu interesse no que está acontecendo ou está para acontecer. Quanto mais consciente você estiver da função de cada passagem do seu texto e da reação que você deseja provocar no leitor, mais sensibilidade terá para perceber que momentos exigem que você conte o que está acontecendo e que momentos exigem que você mostre o que está acontecendo.

Contar demais pode tornar o ritmo da narrativa muito acelerado, dificultando que os leitores se envolvam com os personagens. Mostrar demais pode tornar o ritmo da narrativa muito lento, impedindo que os leitores possam, eles mesmos, imaginar certos detalhes da história, um dos grandes prazeres da leitura.

Histórias precisam de contraste. Se todas as cenas de uma narrativa usam metáforas e descrições minuciosamente detalhadas, o texto pode se tornar enfadonho e melodramático. Se todas as cenas de uma narrativa são explicadas e resumidas, o texto pode se tornar seco e sem vida.

O grande desafio é encontrar um equilíbrio entre essas duas formas de apresentar informações, procurando envolver o leitor emocionalmente e, ao mesmo tempo, avançar no enredo da história.

 

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Gean Riwster 23/11/2012

    Show, not tell.

    Essa é velha, mas ainda causa dificuldades. Acho que é perceptível em todos os exemplos que você mostrou, que o tal de “mostrar” é bem mais interessante do que o “dizer”. No pré-modernismo aqui no Brasil, época da Belle Époque, as obras do momento eram jornalísticas, a moda da literatura. Leia um livro, como Sertões, ou o triste fim de policarpo quaresma. Eles “dizem”, como qualquer jornal faz, e por isso a leitura é tão entediante mesmo que ambos os enredos sejam bons.

    Essa é minha maior dificuldade.

    Por exemplo:

    “Maria matou João com várias facadas na jugular, intacta dentro de si e furiosamente. Frieza rebelde”

    Percebe-se que a pessoa tenta mostrar rapidamente. Esse é o objetivo, entretanto, ELA ESTÁ DIZENDO descabidamente. Não está deixando o leitor participar do acontecimento. Vários iniciantes fazem isso sem perceber, e na revisão de medianos escritores acaba por ser um defeito invisível. Agora na outra:

    “Maria amou aquele garoto até quase a morte. Mas as sequências eloquentes de alguém que quer dizer algo talvez já houvessem desistido no meio do caminho, quando as esquisitices de uma moça com algo estranho na mão, descia e subia, corroendo, corroendo, corroendo. Era… Romântico? Não deu tempo para respirar, muito menos a de revirar os seus preceitos morais. Quando viu o sangue escorregando na aspereza de seus braços, e na estranha do espelho, retorcida, feia, gélida, caiu em silêncio, meditando. Não havia mais nada para se ver ali.”

    Bem, esta mostra um pouco mais. O texto ficou bem maior, mas agora se tem o conhecimento que João era seu amado (mesmo sem saber seu nome), deu pra sentir ela apunhalando, sua loucura e seu súbito arrependimento ou sua súbita frieza? Não se sabe, quem sabe depois?

    Essas coisas que queria conhecer e corrigir. Coisas que acho que estão mostrando, muitas vezes estão dizendo. Talvez só com a prática descubro como reconhecer cada um e eliminar os “dizeres” da vida.

    Obrigado mais uma vez, Diego, e espero que continue explorando esse assunto em alguns outros tópicos, talvez.

    Gean Riwster

  2. Diego Schutt 27/11/2012

    Oi Gean

    Não acredito que mostrar seja necessariamente mais interessante que contar. Acho que cada uma dessas formas de apresentar informações tem igual importância para se escrever uma história interessante.

    Contar demais pode acabar tornando a narrativa muito racional, dificultando que os leitores se envolvam com os personagens. Mas mostrar demais pode tornar o ritmo da narrativa muito devagar, entediando o leitor com uma quantidade excessiva de informações desnecessárias. O leitor não precisa se envolver tão intensamente em todas as passagens da história.

    Imagine alguém narrando um acidente de carro, descrevendo cada detalhe de forma minuciosa, com metáforas e imagens poéticas. Depois de alguns minutos, isso se tornaria enfadonho. Sim, é interessante que se destaque alguns momentos com informações detalhadas, mas para manter a história envolvente, é preciso também que se condense certos trechos e se foque na sequência de acontecimentos.

    Acho que o ponto central que quero destacar é a importância de contraste. Se durante dois parágrafos você “conta” e no terceiro você “mostra”, essa passagem tem muito mais impacto do que se você “mostrar” nos dois parágrafos anteriores.

    O grande desafio é encontrar um balanço entre essas duas formas de apresentar informações, procurando envolver o leitor emocionalmente enquanto se mantém a história em movimento.

    Obrigado pelo comentário.
    sds
    Diego

  3. Rafael 08/12/2012

    Muito bom o texto e as dicas são valiosas. Os comentários a seguir também são verdadeiras aulas.

  4. Diego Schutt 09/12/2012

    Valeu Rafael. Legal que você gostou do texto.

    Obrigado pela leitura.

  5. Carlos Dutra 19/11/2013

    Para ser honesto eu tento sempre mostrar, pois contar acaba deixando a história fria demais, então uso isso somente para pular pedaços ou simplificar momentos desinteressantes sem entediar o leitor. Acredito que essa seja uma das lições mais importantes a serem aprendidas por um escritor que quer melhorar sua escrita, a propósito, o texto ficou muito bom.

  6. Sérgio Quintiliano 04/04/2014

    Diego, subscrevo a opinião dos meus companheiros aspirantes a escritores. Não só as dicas são muito boas, como os seus comentários nas respostas são de uma importância extrema. Por vezes até parece que você está dentro da nossa mente! 🙂 Obrigado uma vez mais

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