Aprenda a criar realidades com palavras

Como desenvolver o hábito de escrever diariamente

Por Diego Schutt em 12/09/2012 Tópicos: dicas, escrever, técnicas
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Eu sempre achei uma chatice essa história de escovar os dentes após cada refeição.

Ainda que a atividade tome apenas alguns minutos do meu dia, aquela repetição infinita de movimentos e caretas nunca falhou em me entediar. Gosto da sensação de limpeza e do sabor refrescante resultado dos meus esforços diários de escovação, mas aqueles minutos em que estou com a boca cheia de espuma parecem durar uma eternidade.

Graças aos meus pais (quando criança), ao medo de afastar amigos com bafo (quando adolescente), e o receio de ficar banguela antes dos 40 (de agora), me forcei a incorporar o ritual de higiene bucal ao meu dia a dia.

Associamos hábitos à atividades repetitivas e entediantes. E de fato, muito do que faz parte da nossa rotina diária não passa de manutenção do nosso corpo e bem estar. Mas hábitos também permitem que a gente desenvolva a prática espontânea e automática de certas habilidades.

A repetição sistemática da mesma atividade todos os dias elimina resistências e a tentação de deixar para depois.

Como desenvolvi o hábito de escovar os dentes, por exemplo, não preciso mais fazer um esforço racional após cada refeição para me convencer dos benefícios de uma boca bem faxinada. Estabeleci certos períodos do dia para essa atividade porque me convenci de sua importância.

Também sempre achei uma chatice essa história de escrever todos os dias. Resisti aderir à ideia de que a prática diária faria grande diferença na qualidade dos meus textos. Tentei me convencer disso por pura preguiça de dedicar meros 20 minutos do meu dia para trabalhar em uma das minhas histórias.

Quando perguntei na página do Ficção em Tópicos no Facebook se uma técnica que garantisse sessões inspiradas e produtivas seriam motivação suficiente para escrever todos os dias, a maioria das pessoas respondeu que sim. Essa também é a minha resposta.

O que isso revela sobre mim (e sobre os interessados em saber se essa técnica infalível existe) é a realidade que todo o aspirante a escritor tem dificuldade em aceitar: se você quer se tornar um profissional das palavras, precisa parar de condicionar suas sessões de escrita à garantia de resultados satisfatórios.

Desista de tentar justificar racionalmente a cada dia porque você deve escrever.

Durante um mês, se comprometa a incorporar a sua rotina o hábito diário de escrever um pedacinho de uma de suas histórias. Sem pensar, sem questionar, sem reclamar.

Talvez você falhe um ou dois dias. Não tem problema. Persista. Quanto mais dias seguidos você escreve, maior é a reserva de energia que você acumula. Essa energia é o combustível que movimenta o hábito e é o que permitirá a realização da atividade naqueles dias em que faltar motivação. Não importa se os resultados foram bons ou ruins. É impossível controlar a qualidade do que se escreve. O que conta é que você fez a sua parte.

Em algum ponto da sua vida, você decidiu que escovar os dentes todos os dias é importante. Um hábito é justamente isso. É uma decisão que você toma apenas uma vez e não questiona sua validade constantemente.

Você não perde tempo questionando se vai ou não escovar os dentes todas as manhãs. Você faz isso automaticamente, sem esforço, sem desperdício de energia.

Chegou a hora de fazer o mesmo com o hábito de escrever.

Comece hoje. Comece agora. Ou não reclame mais tarde quando suas histórias afastarem potenciais leitores por causa de mau hálito.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

10 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Alex Nunes 10/11/2012

    Ótimo texto. Busco esse tesão para escrever todo dia há algum tempo já e é dificil. Mas precisamos levar a sério isso. Sonhar é muito bom, mas temos que ter os pés no chã e saber construir uma rotina de escritor profissional.

  2. Oi Alex.
    Não é fácil desenvolver esse hábito mesmo. Se começar a escrever todos os dias de uma hora para outra lhe parece muito difícil, comece se compromentendo a escrever duas vezes por semana. Depois de um tempo, aumente para três vezes por semana. Depois quatro… e assim por diante.
    Boa sorte e obrigado pela mensagem.
    sds
    Diego

  3. Maurílio Resende 14/11/2012

    Adorei o texto, Diego, muito bom mesmo.
    Já há alguns meses venho lutando para recondicionar hábitos importantes (como acordar cedo, por exemplo).
    A paciência é um fator fundamental nesses momentos (não que eu possua alguma excelência nesse quesito, longe disso), precisamos entender que não é exatamente da noite para o dia que abandonamos hábitos de uma vida toda.

    O Ficção em Tópicos está sendo uma ótima ferramenta de estudos na minha tentativa de formular uma rotina de aprendizado e produção de conteúdo.

    Grande abraço.

  4. Diego Schutt 14/11/2012

    Oi Maurílio

    É exatamente porque não é da noite para o dia que abandonamos hábitos de uma vida toda que devemos nos esforçar para desenvolver a prática de escrever diariamente. A ideia é justamente tornar essas sessões indispensáveis no nosso dia a dia.

    Espero que o Ficção em Tópicos ajude você a atingir seus objetivos.
    Obrigado pela mensagem.

    abs
    Diego

  5. Daniel Rocha 05/01/2013

    Oi, Diego.

    Descobri teu site agora e acabo de ler teu texto. Muito bom. Como sempre, pensei em deixar um comentário outro dia, em escrever outro dia, mas recém li sobre parar com desculpas e escrever agora, em escovar os dentes todos os dias porque é necessário e depois de um tempo a gente faz no automático, e posso fazer isso com a escrita também. Muito legal mesmo.

    Até desliguei o Iron Maiden que estava ouvindo para ler teu texto…:)

    Aliás, deixei um link para o teu texto no meu blog, não apenas para que outras pessoas possam ler, mas também para que eu posso relê-lo nos próximos dias. (ou agora mesmo, já que depois é nunca..:)

    Grande abraço e obrigado por me ajudar a escrever neste exato momento, em uma madrugada de sexta para sábado.

  6. Diego Schutt 06/01/2013

    Oi Daniel

    Legal que você curtiu os textos. Sei o quanto é difícil desenvolver o hábito de escrever todos os dias. Acredito que reconhecer as milhares de desculpas que a gente inventa para não escrever é o primeiro passo para incorporar a criação de histórias ao nosso dia-a-dia.

    Obrigado pela leitura.

  7. C. Vieira 18/05/2013

    Olá, Diego, tudo bem?

    É um prazer para mim deixar este comentário (e espero que seja o primeiro de muitos) aqui.
    Sou escritora há pelo menos quinze anos. Amo escrever pelo prazer que a produção literária sempre me deu. Contudo, pelas idas e vindas da vida, abandonei, nos últimos quatro anos, a escrita em absoluto. E mesmo meu nível de leituras anuais despencou.

    Simplesmente, decidi que não havia nascido para isto (veja bem, a falta de apoio e compreensão ao trabalho de sentar, concentrar-se e escrever, sem querer ser interrompido, por ao menos 20 minutos – ou seja, se dedicar por um tempo todos os dias a escrita – também contribuiu muito para esta decisão).

    Eu desisti da escrita e passei os últimos anos com a sensação de que havia abandonado algo que era parte de minha vida. Me tornei mau-humorada e extremamente pessimista.

    Entretanto, aos poucos, meio que como me “intrometendo e xeretando” novamente neste “mundo”, eu comecei a buscar informações sobre escrever: por que escrever, o que escrever, o que era falta de inspiração, bloqueio de inspiração, enfim todas as questões que me afetavam quando decidi desistir desta “vida”. E percebi que não somente era comum que isto acontecesse mas também havia vários outros(as) escritores(as) em potencial que ou abandonavam de vez a escrita – por não saber como lidar com as “fases ruins” da produção literária – ou não sabiam bem “por onde começar” a colocar as ideias no papel. Já pensou quantos talentos perdidos, quantos excelentes livros deixados no fundo de gavetas ou jogados no lixo; ou até mesmo histórias incríveis descartadas das mentes antes mesmo de tocarem o papel?…

    Percebi que, como você falou, não se deve tentar racionalizar o ato de escrever, mas buscar certa organização que possa gerar uma sensação de catarse ao colocar as ideias em palavras escritas.

    Foi o que aconteceu comigo (além do fato de ter conhecido a incrível e amabilíssima escritora Monica Cadorin!): eu passei a buscar entender o processo de criação, a tratar meus livros com o cuidado com que um administrador o trata. Não falo do quesito “racionalizar” o trabalho, mas geri-lo de maneira a entender todo o processo (ideia, rascunhos, esboços, primeira tratamento, revisão, segundo tratamento, revisão e assim por diante). Eu não voltei a escrever, devo confessar. Ainda existe o receio de a história não ter sentido, não ser boa o suficiente (para mim!)…

    Contudo, me sinto mais segura para avaliar meus livros não mais como aspirantes a lixeira mas como textos dignos de uma “segunda olhada”. E, como já fui uma pessoa muito organizada e deixei de sê-lo em algum ponto do meu caminhar, percebo que a escrita foi o que mais sofreu com as “mudanças” que ocorreram em minha vida. E que ela merece mais atenção e cuidado de minha parte; e só compreendi isto depois de ler textos como os seus.

    Então, quando você sugere a escrita como um hábito, acaba por romper com a ideia de “obrigatoriedade” de escrever, de criar metodicamente (começo, meio e fim). E torna esta atividade uma parte real da vida dos(as) escritores(as) (como escovar os dentes!). Agradeço realmente por seu texto!Na verdade, pelo blog inteiro!

    O que devo dizer? Há dez anos ser escritor, no Brasil era realmente insano, insensatez!. E digo isto por experiência própria: diziam que eu era uma louca por perder meu tempo fazendo “aquilo” (num tom bem pejorativo e depreciativo!) e mais ainda perder tempo também achando que as grandes editoras iriam publicar meu trabalho. Sei que o nível de leitura do brasileiro ainda está muito aquém do ideal; sei que as grandes editoras ainda visam lucro, lucro e lucro; e sei que ser um escritor ainda continua sendo um “parto”.

    Mas o advento da internet, o uso dos blogs, fóruns e redes sociais e demais mídias como veículos de troca de ideias, experiências e apoio (principalmente apoio!) gerou mudanças drásticas na vida dos(as) aspirantes a escritores. Eu, como um deles(as), vejo-me mais apoiada por ter acesso a blogs que falam sobre o ato de escrever sem romantismos, sem que eu seja obrigada a criar “o best-seller da vez”, mas com o realismo que a profissão encerra. A noção de que escrever é persistir, é… hábito.

    Assim, seu blog acaba sendo de enorme utilidade para quem deseja se iniciar nesta empreitada que é criar um livro. Ou mesmo para quem, como eu, pensou em desistir, mas, no meio do caminho, decidiu tentar mais uma vez.

    Obrigada pelos ótimos textos! E espero que até o final dest mês eu já tenha consigo ler e apreender todas as suas outras boas sugestões!

    Um abraço e até mais!

  8. jose 0mar da silva 28/05/2013

    gostei muito desta sua dica
    eu estou precisando muito aprender ,como azer uma boa leitura ate mesmo uma boa escrita

  9. José Lucas Bueno de Mello 24/01/2017

    Acompanho o Ficção há anos, mas nunca tive coragem de opinar porque morro de medo de escrever errado, com português errado, com frases mal construídas, etc. Acho que embora não domine o português, escrevo bem, desenvolvo boas histórias, bons roteiros, o problema é a preguiça para reler e principalmente para o segundo, terceiro, quarta tratamento, aí o saco explode mesmo.
    Então vou empurrando com a barriga.
    Amo suas dicas, mas procrastino tudo.
    abraços

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