Aprenda a criar realidades com palavras

O que mudar nas suas histórias para torná-las mais envolventes

Por Diego Schutt em 23/04/2012 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Imagine esta cena.

Ana estava em seu carro a caminho de casa depois de um dia cansativo no trabalho. Durante o percurso, ela planejava em voz alta sua noite.

“Vou relaxar tomando um banho de banheira demorado. Depois vou preparar uma saladinha light para comer na frente da TV assistindo à novela.”

Enquanto endireitava o carro na garagem, Ana percebeu uma ambulância e dois carros da polícia estacionando em frente à casa do lado, onde morava sua melhor amiga. Dois paramédicos e quatro policiais entraram às pressas pela porta da frente, enquanto outros dois oficiais algemavam uma criança coberta de sangue.

Ana desceu do carro apressada. Entrou em casa, relaxou tomando um banho de banheira demorado, preparou uma saladinha light e comeu na frente da TV assistindo à novela.

Por que esse texto é decepcionante? Porque você acreditava que a protagonista reagiria diante dos acontecimentos. Você tinha certeza de que Ana mudaria seus planos para descobrir o que paramédicos, policiais e uma criança coberta de sangue estavam fazendo na casa da sua melhor amiga.

Mas não. Ela preferiu não se envolver com a situação porque teria que mudar seus planos.

O que você precisa mudar para criar histórias envolventes? A atitude do seu protagonista.

O ponto de partida para se criar uma história de ficção é uma mudança (positiva ou negativa) que se impõem na vida de um personagem. O motivo é simples. Se tudo na vida do protagonista segue como está, se a narrativa apenas apresenta sua rotina, sua vida como ela é normalmente, você não está escrevendo uma história, mas sim o perfil de um personagem.

Talvez esse seja o seu objetivo, escrever um texto literário onde você explora todas as nuances da personalidade do seu protagonista. Nenhum problema nisso. Mas tecnicamente, não se trata de uma história, mas sim de uma narrativa de ficção.

A definição de história traz implícita a ideia de um acontecimento incomum, extraordinário, não necessariamente no sentido grandioso e radical dessas palavras, mas significando algo inesperado, no contexto da vida de um determinado personagem. A curta narrativa que compartilhei no início do texto introduz uma série de acontecimentos incomuns e extraordinários na vida da personagem. Como você percebeu, isso não foi suficiente para motivá-la a mudar seus planos e, portanto, para transformar a narrativa em uma história.

Considere as três formas de resistência dos personagens que podem estar impedindo você de desenvolver suas ideias de história.

1. Resistência Própria

Todos nós sofremos de inércia, aquela resistência natural para manter as coisas como estão. Mudanças perturbam nossa rotina e fazem a gente se sentir desorientado e inseguro. Ninguém gosta do desconforto que isso provoca e, por esse motivo, é comum mentirmos para nós mesmos que estamos bem, para que possamos seguir ignorando certos problemas.

Talvez sua dificuldade em desenvolver uma história esteja no fato do protagonista não admitir para si mesmo que tem um problema. O que pode motivá-lo a admitir que tem um problema? Uma mudança que você, escritor, vai introduzir na vida desse personagem, que fará ele perceber que precisa mudar de atitude.

Digamos que, ainda que seu protagonista acredite ser bem sucedido profissionalmente, na verdade ele odeia a empresa e a cidade onde trabalha, quer pedir demissão e mudar de vida. Entretanto ele se sente inseguro com a ideia de abandonar tudo o que conquistou. Para que você possa desenvolver essa história, você precisa introduzir alguma mudança na vida do personagem que o motivará a admitir para si mesmo que seguir sua vida como sempre é mais perigoso do que arriscar uma mudança.

Exemplos de possíveis mudanças: a descoberta de que a empresa dos seus sonhos está contratando, o fato de ele ter reencontrado um amor de adolescência que mora em outra cidade, uma piora nas suas condições de trabalho.

2. Resistência dos Outros 

Mudanças trazem uma sensação de insegurança, mesmo quando elas acontecem com pessoas próximas. Muitas vezes, quando você está tentando mudar algo na sua vida, são as pessoas ao seu redor que resistem e dificultam o processo.

Talvez o problema da sua história esteja no fato do protagonista não ter coragem suficiente para lutar por algo que deseja. O que pode motivá-lo a criar coragem? Uma mudança que você, escritor, vai introduzir na vida desse personagem, que fará ele perceber que precisa mudar de atitude.

Digamos que, ainda que seu protagonista acredite que seu destino é trabalhar na fazenda da família, na verdade ele gostaria muito de fazer uma faculdade e morar em uma cidade grande. Entretanto, desde criança seu pai lhe disse que é sua responsabilidade assumir o negócio da família. Para que você possa desenvolver essa história, você precisa introduzir uma mudança na vida do personagem que o motivará a criar coragem para confrontar seu pai e dar o primeiro passo em busca do seu sonho.

Exemplos de possíveis mudanças: a confissão arrependida do avô do protagonista sobre seu desejo de abandonar a fazenda quando jovem, a surra que o pai lhe deu ao descobrir que ele estava considerando abandonar a fazenda, a independência financeira que veio com o recebimento de uma herança.

3. Resistência Social 

Em muitos casos, você deixa de viver certas experiências ou lutar para alcançar certos desejos porque a sociedade não quer que você mude. Leis, regras e valores morais fazem você se sentir inadequado ao questionar algum aspecto da sua cultura que difere da sua forma de ver o mundo.

Talvez o problema da sua história esteja no fato do protagonista ter medo de desafiar certas normas e valores morais. O que pode motivá-lo a desafiar essas normas e valores morais? Uma mudança que você, escritor, vai introduzir na vida desse personagem, que fará ele perceber que precisa mudar de atitude.

Digamos que, ainda que seu protagonista seja gay e acredite que, para ser respeitado profissionalmente, precisa escutar calado as piadas homofóbicas dos colegas de trabalho, na verdade ele sempre teve vontade de sair do armário e exigir o respeito que merece. Entretanto, ele tem medo de que se expor dessa forma possa ter um impacto negativo em sua carreira. Para que você possa desenvolver essa história, você precisa introduzir uma mudança na vida do personagem que o motivará a desafiar os valores morais dos seus colegas e dar o primeiro passo para exigir respeito deles.

Exemplos de possíveis mudanças: as palavras de apoio do chefe do protagonista, o pedido de demissão de outro funcionário gay que foi ridicularizado na festa da empresa, o fato do personagem ter começado a namorar.

 

Esse momento que força o protagonista a mudar de atitude, em que um determinado acontecimento desestabiliza sua vida em algum nível e desperta nele um desejo/objetivo que ele vai se esforçar para alcançar ao longo do texto é o que chamamos de ponto de virada, o marco mais importante do enredo de qualquer história.

Leia mais sobre o conceito de ponto de virada clicando aqui e descubra porque esse acontecimento é crucial para definir em que momento da vida do protagonista você deve começar sua história.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

10 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Gean Riwster 23/04/2012

    Ótimo post.

    É legal ter esta noção sobre o que podemos fazer com o nosso protagonista,pois estas ações e pertubações são conjeturados,entretanto,ninguém realmente sabe como enfrentar aquilo,querendo ou não.

    E é aí que começa a haver uma preocupação do leitor sob o protagonista,e se estes metódos forem aplicados sem exclusividade ao principal,preocupação também com os secundários.Alias,acredito até mesmo que as vezes o principal,mesmo com seus problemas,acaba perdendo para um secundário que entra em um destes pontos,só que mais profundamente e com mais identificação do público/leitor.Digo isto pelas novelas que meus pais assistem,onde eles preferem algum secundário por causa de sua situação e de seu jeito de ser (Crô? kkkk).

    E na primeira parte da melhor amiga,a primeira coisa que pensei é que ela era UMA PSICOPATA VINDA DOS QUINTOS DOS INFERNOS,E FOI ELA QUE FEZ AQUILO COM O MININO,indiretamente,claro…. kkkk

    Obrigado por estas dicas,mais uma vez,e principalmente,pela paciência e disposição de fazer isto que você faz cara.É muito importante,não só para mim,mas para todos.

    Vlw 😉

    Gean Riwster

  2. Diego 26/04/2012

    Oi Gean

    Você fez uma boa observação. As técnicas também podem ser aplicadas a outros personagens em histórias onde existam dois ou mais protagonistas. Quanto aos personagens secundários, é preciso ter em mente que o papel deles é auxiliar no desenvolvimento da história. Eles não devem desviar a atenção do leitor do protagonista com seus dramas. No caso de uma novela de televisão, o que você chama de personagens secundários eu considero como o protagonista de um núcleo da novela.

    Cada história é diferente, mas de forma geral, eu diria que os personagens secundários devem permanecer os mesmos para que o(s) drama(s) do(s) personagem(ns) principal(is) tenham mais impacto.

    Obrigado pela leitura.

  3. Hileane 22/06/2013

    Amei as suas dicas *-*. Agora so falta aprendar como usa-las

  4. Diego Schutt 25/06/2013

    Oi Hileane

    Em breve, o Ficção em Tópicos vai oferecer cursos recheados de exemplos e exercícios práticos para aplicar todas as dicas do site nas suas histórias. Se você tem interesse em participar, envie um email para ficcaoemtopicos@gmail.com com o assunto “Notificação sobre cursos”.

  5. Filipe 07/12/2013

    Diego, eu sempre tive dúvida de quanto tempo eu poderia caminhar com a história sem de fato entrar no conflito, tipo uns 2 ou 3 capítulos ?

  6. Karina 27/02/2014

    Gostei muito desse tópico, principalmente porque estou desenvolvendo uma história onde a protagonista enfrenta os três tipos de conflito. No caso dela, ela terá que enfrentar um de cada vez e na ordem, ou seja, primeiro ela elimina a resistência própria, depois enfrenta as pessoas próximas e ainda assim, haverá toda a sua comunidade para confrontá-la depois. Na minha visão, os níveis de conflito meio que seguem essa ordem, se a personagem já tem o conflito em si mesma, não passa para o próximo nível, e assim por diante.

  7. Fabio 22/03/2014

    Muito bom cara!

  8. Odin 18/01/2015

    AHAHah! Essa história até me deu piada a início, mas claro, história sem conflito não vai propriamente a algum lado. é por isso que nossas vidas (pelo menos a minha) são enfadonhas :s

  9. Vitória Serafim Alencat 04/04/2016

    Muito interessante e especialmente útil as postagens do site, parabéns 😀

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