Aprenda a criar realidades com palavras

Novo Compasso

Por Diego Schutt em 28/02/2011 Tópicos: inspiração
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Para que você possa conhecer o lado mais criativo da minha voz de escritor, comecei a publicar alguns dos textos que escrevi nas minhas primeiras tentativas de expressar minha visão de mundo através das palavras.
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Novo Compasso

Comecei a estudar piano quando tinha 8 anos. Como toda criança com algum dom artístico, era seguidamente convocado a me apresentar para as visitas. Detestava quando isso acontecia. Sempre fui o quietinho da família que, de tão tímido, se escondia em baixo da cama quando entrava gente estranha em casa. E de repente lá estava eu, sendo empurrado para o centro das atenções.

Sim, porque nem pensar em fazer desfeita pra tia fulana, que me pegou no colo quando eu ainda usava fraldas. Nem para a dona beltrana, que sempre quis tocar piano, mas nunca pôde estudar, coitada.

Então eu tocava. Meio a contra-gosto e geralmente nervoso, mas tocava. Nervoso porque tocar piano sempre foi um momento de grande exposição para mim. Me sentia avaliado, testado, julgado e por isso não admitia erros. Provavelmente a maior tensão vinha daí. Mas era inevitável. A tremedeira sempre fazia um dedo escorregar para uma tecla que não devia.

Meu repertório também era fonte de inquietação. Acreditava que minha pequena platéia queria ouvir músicas conhecidas, e não aquelas valsas de 10 páginas que eu costumava tocar. Resultado: os aplausos no final não soavam como apreciação, mas como um gesto educado em agradecimento por eu ter enfrentado minha timidez.

Há algumas semanas atrás, assisti à apresentação de alguns alunos de uma escola de música. Um dos pianistas estava visivelmente nervoso e, logo no início da sua performance, cometeu uma série de erros. Era um círculo vicioso: ele estava nervoso e por isso errava e, por errar, ficava ainda mais nervoso. No final, como todas as apresentações, aplausos.

Saí de lá me perguntando: como diferenciar o aplauso educado do aplauso sincero, de quem realmente apreciou o que acabou de ouvir?

Depois de seis meses sem nem chegar perto de um piano, me convidei para tocar. E ao final da primeira música, a resposta para minha pergunta já não importava mais. Não importava porque, naquele exato momento, deixei de tocar pelos aplausos e passei a tocar por prazer.

(Diego Schutt – Junho/2005)

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