Aprenda a criar realidades com palavras

Pelo ensino da criação literária. | Por Roberto Taddei.

Por Diego Schutt em 07/11/2010 Tópicos: inspiração
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Li esse texto no site do Roberto Taddei e pedi a autorização dele para republicá-lo aqui no Ficção em tópicos. Ele apresenta o modelo dos cursos de escrita criativa norte-americanos, discute como as técnicas utilizadas beneficiam o novo escritor e defende a substituição das aulas de redação do ensino médio brasileiro pelo ensino de criação literária.

Achei as reflexões fantásticas e convido você para debater o tópico deixando comentários.

Boa leitura.

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Pelo ensino da criação literária.

Até o início do século passado, o aspirante a escritor que quisesse aprofundar-se na arte tinha poucas opções além da leitura dos clássicos da literatura mundial. Seria necessário, portanto, que boas traduções desses clássicos estivessem disponíveis na biblioteca pública mais próxima e que ao ler os referidos livros, o aspirante fosse astuto o suficiente para entender como se escreve um livro.

Mal comparando, seria o mesmo que aprender a ser arquiteto apenas observando prédios, plantas e maquetes – o que não é impossível, embora esteja longe de recomendável.

Também no começo do século a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo foi fundada. Ali, o aspirante a escritor – caso morasse em São Paulo ou tivesse condições de se mudar para a cidade – poderia contar com a ajuda de professores renomados na aventura de dissecar os clássicos das mais variadas formas, embora nenhuma delas sob o ponto de vista do escritor criador.

O que se tinha tanto na faculdade de letras quanto nos cursos de advocacia que formaram tantos escritores era o gosto pela palavra escrita, o prazer da narrativa, e o saboroso e salutar (para o escritor) convívio com outros amantes das letras.

Nesse mesmo período, na década de 30 do século passado, foi criado em Iowa, nos EUA, o modelo do workshop de criação literária. Oito décadas depois, todas as grandes universidades norte-americanas oferecem o curso como graduação ou pós-graduação.

O formato tornou-se tão popular que são poucos os novos escritores do país que escaparam deste modelo de aprendizado. Na Inglaterra, Itália e França, cursos semelhantes também foram criados nas últimas décadas.

O modelo do workshop norte-americano baseia-se na crença de que escrever se aprende lendo e escrevendo, mas para tanto é precisar passar do nível de diletante e adorador das letras e mergulhar a um patamar onde haja domínio das técnicas de escrita.

O ponto crucial do modelo de workshop é oferecer aos aspirantes a chance de ser lido, apreciado e criticado por outros também escritores aspirantes.

Dessa maneira, em cada workshop, entre 10 e 20 estudantes submetem seus textos semanalmente para a crítica dos colegas e também são chamados a criticar o trabalho dos demais. Os cursos nas faculdades norte-americanas variam entre um semestre e quatro anos de duração.

Ali o estudante aprende a prestar atenção na leitura de textos e procurar entender as intenções do escritor, e não mais apenas satisfazer a questão básica do leitor leigo: gostar ou não gostar. É preciso ir além. Com esse novo olhar, o aluno torna-se capaz de procurar por si só exemplos na literatura universal que possam servi-lo na composição de seus próprios textos.

Ao mesmo tempo, ao submeter-se a sessões de críticas frequentes, ele aprende a reconhecer em si mesmo o que é autoral e único, e a separar esse material do que é apenas sentimentalismo e auto-piedade. Aprende a escrever como escritor sério, e não como um apaixonado pelas próprias ideias, cheio de amor-próprio. Aprende a utilizar-se de técnicas e ferramentas comuns a todos os escritores. Com o tempo e a prática ele conseguirá até mesmo aprimorar uma ou duas destas técnicas, e quem sabe até inventar uma inédita.

Ao final desse processo, os encontros com a turma do workshop se encerram. O jovem escritor já sabe então, e antes mesmo de que alguém o diga, que esta ou aquela cena de seu conto não ficou muito boa, que talvez fosse necessário mudar o narrador, ou o ponto de vista, ou o tempo verbal, etc… Ele está pronto para se virar sozinho. Para mergulhar no universo da criação sem precisar mais se submeter à aprovação e crítica prévia. Já tem controle e auto-confiança em relação ao próprio texto. Sabe direcioná-lo para onde quiser.

O workshop deu-lhe principalmente duas coisas. Primeiro, poupou-lhe um tempo enorme de preparação que poderia nunca se completar, dando-lhe aptidão para, em dois, três ou até mais anos, considerar-se um escritor sério, comprometido com a própria criação e com capacidade suficiente para escrever como qualquer outro escritor.

Segundo, emprestou-lhe uma comunidade de pessoas interessadas em literatura (como os antigos estudantes de literatura e advocacia) e, até mesmo, um seleto grupo dentre eles com quem trocar manuscritos e primeiras impressões pela vida à fora.

Além dos workshops, os cursos de escrita criativa norte-americanos oferecem aulas de literatura e técnicas narrativas mais aprofundadas, cientes de que nem todos os elementos necessários ao escritor surgirão e serão apreendidos dos debates durante os workshops.

Em um semestre o aluno poderá aprender, por exemplo, como Tchekhov intercalava com maestria as técnicas de resumo e descrição em seus contos, evitando aborrecer o leitor com demonstrações pouco úteis de sua capacidade criativa. Em outro, como Tolstoi emprestava ao narrador algo das falas de seus personagens e conseguia assim um efeito de credibilidade superior ao de um narrador em terceira pessoa tradicional.

Ou ainda, como Kafka conseguia calcar na realidade os seus textos mais fantasiosos, ou como este ou aquele escritor trabalhou com flashbacks, com a noção de verdade e realidade, com narrativas históricas, e com um sem fim de temas e caminhos para a facilitar a descoberta e o aprimoramento dos jovens escritores.

Os detratores desse modelo, no entanto, são muitos. Uns dizem que escrever não se ensina. Outros, que não se aprende a escrever. Em uns, existe a incapacidade de vislumbrar uma experiência diferente. Muitos dos escritores críticos desse modelo tornaram-se profissionais por caminhos mais ou menos sofridos.

O processo, em geral, foi tão longo ou começou tão cedo e se desenvolveu por caminhos tão diferentes e tortuosos que a eles seria impossível reproduzir todos os elementos e incidentes desse aprendizado num ambiente escolar. Por isso dizem ser impossível ensinar a escrever.

Outros acreditam em dom, em talento, que o artista nasce pronto, e outras coisas do gênero. Estes são os mais perigosos. Entre eles são raros os escritores; já que escritores sabem o quanto penaram para aprender. Os detratores deste time são aqueles que insistem em fichar o escritor ou como doidinho ou como gênio brilhante, e com isso diminuir a importância do que o artista diz, como se ele fosse hors-concours ou café-com-leite para o debate na sociedade, já que como maluquinho ou gênio, não participa da realidade.

Entrar nesse debate de talento e genialidade, no entanto, é como querer trazer paz para os que até hoje brigam para definir se música é poesia, ou vice-versa. Não entro nessa. Só digo que, conforme estatísticas norte-americanas (não oficiais), 85% de todos os alunos dos cursos de criação literária não conseguirá completar nem o primeiro livro.

Dos 15% restantes, que sim conseguirão terminar aquele primeiro romance, apenas 5% conseguirão publicar (ou algo em torno disso). Calculando, porém, que os EUA tenham cerca de 20 mil alunos de criação literária, uma conta simples revela que 1 mil pessoas publicarão seus livros nos próximos anos.

Mil novos livros, com novas ideais, novas formas de ver o mundo, ou, se não tanto, apenas novas possibilidade de construções narrativas, ou de frases bonitas e diferentes, com ou sem juízo final. Gente modelando e remodelando os significados da vida, da cultura e da contemporaneidade.

Não quero fazer aqui nenhuma comparação com o mercado editorial no Brasil. Muitos outros fatores interferem nessa economia, fatores que vão além da formação dos escritores. No entanto, a questão da qualidade da literatura norte-americana passa necessariamente pelo tamanho, pela energia e pulsão desse mercado (assim como na pujança da música brasileira).

Desses 85% dos alunos de criação literária que não terminarão o primeiro livro, eu imagino que apenas 5% tenha descoberto ou vá descobrir que não gosta de literatura em geral e que a escolha do curso foi um erro. O restante faz parte dessa economia da literatura.

Estes profissionais serão, no futuro, editores, agentes literários, críticos literários, professores, ou assumirão qualquer outro papel dentro dessa economia, inclusive recriando as normas dessa economia. Acima de tudo, todos eles serão leitores. Leitores não só de clássicos, mas principalmente de nova literatura, ávidos de literatura contemporânea, aquela capaz, melhor do que qualquer outra, de re-significar o cotidiano, de fazer com que o leitor também contemporâneo torne-se mais presente e vivo, ao entender as estruturas narrativas que o cercam e das quais ele faz parte.

Faço a defesa do ensino da criação literária no Brasil também por estes motivos, digamos, periféricos. O modelo do workshop norte-americano, por exemplo, já foi adaptado e hoje é utilizado com crianças a partir dos sete anos. Seria um excelente substituto às aulas de redação do ensino médio brasileiro, por exemplo.

Pesquisadores tem feito descobertas importantes sobre como passamos da página em branco para uma peça literária. O que acontece em nossa mente que faz com que isso aconteça? Não se trata de entender e patentear os processos criativos. Mas sim da eterna batalha humana de entender-se a si mesmo, deixar de ser refém do insondável, do inexplicável.

Não consigo ver por onde a literatura brasileira perderia ao adotar esse mesmo modelo. Muito menos a sociedade. Não é apenas aí, é claro, que reside o problema da literatura e da economia do livro no país. Mas acredito que ver o escritor como um profissional, encarar a escrita também como uma técnica cujo conhecimento pode ser transmitido, e estimular a crítica sincera e desmistificada da produção contemporânea farão um bem incalculável às letras do país e à sociedade brasileira.

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