Aprenda a criar realidades com palavras

Como transformar fragmentos de informação em histórias de ficção?

Por Diego Schutt em 24/11/2010 Tópicos: técnicas
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Muitas das ideias usadas para desenvolver uma história vem do que em inglês se chama de float (bóia em português).

Trata-se de um fragmento de informação sobre um personagem, um lugar ou uma situação que está flutuando na consciência do escritor e que ele deseja explorar em mais profundidade. Floats são geralmente vem à mente através de afirmações.

Júlia estava sendo muito bem educada na arte de chamar atenção.

Também podemos iniciar o desenvolvimento de uma narrativa tendo como base anedotas, que são fragmentos de eventos que representam o início, meio ou fim de uma história. Anedotas apresentam um float e uma explicação que contextualiza a afirmação.

Júlia estava sendo muito bem educada na arte de chamar atenção. Não sabia outra forma de se relacionar com os pais. Eles só dirigiam o olhar para a menina quando lhe davam alguma ordem ou quando ela começava com as birras.

Para Júlia, bofetadas eram o contato físico mais parecido com carinho que jamais receberia em casa. Então usava o mesmo truque toda hora. Sempre gritava pedindo o oposto do que davam pra ela. Davam frango? Queria peru. Davam refrigerante? Queria suco.

A única coisa que aceitava sem reclamar eram as bofetadas, mesmo que o que quizesse fosse amor.

Uma história desenvolve uma anedota em um enredo que explora um episódio completo da vida de um personagem.

Histórias oferecem as interpretações do escritor para as causas e consequências dos eventos do enredo, ao mesmo tempo que criam um espaço para os leitores relacionarem e repensarem suas próprias experiências.

O processo para se transformar fragmentos de informação em histórias segue a seguinte sequência:

1. Escolha um float ou anedota.

2. Descubra que parte da história você tem: início, meio ou fim.

3. Pesquise pessoas, lugares, situações e emoções ligadas à história.

4. Encontre as mini histórias importantes dentro da história maior.

5. Determine os momentos críticos da história.

6. Organize os eventos em uma sequência que faça o leitor se perguntar constantemente “quem são essas pessoas, e por que elas estão agindo desta forma?”

Que floats ou anedotas estão flutuando na sua consciência?

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Texto inspirado pela palestra “Criando uma narrativa a partir de uma anedota.” por Sean Buvala, parte do Reinvention Summit, seminário online realizado no final de 2010 sobre a arte de contar histórias. Os diferentes convidados exploraram em suas apresentações diversos aspectos sobre a construção de narrativas e formas de engajar pessoas através de histórias que criem conexões e desenvolvam relações. Leia os resumos das principais ideias e insights de outras palestras do Reinvention Summit.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

5 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Bruno Gandin 25/11/2010

    Olá, adorei o site desde a primeira vez que o acessei. Tem me dado ótimos conselhos para a minha criatividade voltar a ativa, escrevo um livro já faz algum tempo e quando cheguei ao ponto chave da história, próximo ao fim, parei de escrever e não consigo ter idéias, mas gostei dos conselhos aqui postados, tem me ajudado. =D Passo o link do meu blog, que tem textos de minha autoria. http://brunotwain.blogspot.com Obrigado!

  2. Diego 27/11/2010

    Oi Bruno. Que bom que o site está inspirando você a voltar a escrever. Se você não consegue ter ideias para terminar seu livro, aconselho você a ler o que já escreveu e procurar pelo significado de tudo que aconteceu com o seu protagonista durante a história. Quem ele era no início da narrativa e em que momento ele se encontra agora próximo do final da história? Explore possíveis respostas para essas perguntas para usar como fechamento. Boa sorte. Obrigado pela visita. abs

  3. isaac-sky 04/04/2013

    Fragmentos. Ta ai uma coisa que eu tenho até demais kkk O engraçado é que geralmente eu sonho esses pedaços de história que eu uso depois. Trabalhar neles é divertido porque ao mesmo tempo que eu desconstruo uma narrativa (e tento achar uma correlação dela com o resto do enredo) eu ao mesmo tempo desconstruo a própria mente.
    Meio “brisa”, mas meu processo criativo pode ser considerado algo mais original xD

  4. Diego Schutt 15/04/2013

    Isaac, acredito ser durante essa “desconstrução da nossa própria mente” que encontramos os caminhos mais originais para nossas histórias. Obrigado pelo comentário.

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