Aprenda a criar realidades com palavras

8 formas de criar identificação com o protagonista da sua história

Por Diego Schutt em 04/08/2010 Tópicos: dicas
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Quando dedicamos nossa atenção para uma história, nos envolvemos com a narrativa em dois níveis. No primeiro nível, colocamos temporariamente de lado nossos planos e preocupações e focamos nos planos e preocupações dos personagens. Nos colocamos no lugar deles e imaginamos o que eles estão sentindo.

No segundo nível, nossas próprias emoções são evocadas diante das circunstâncias em que o personagem se encontra na história. Quando isso acontece, emprestamos para a vida do protagonista uma importância que, normalmente, damos apenas para nossa própria vida ou a vida de pessoas próximas.

O que faz com que a gente se envolva com uma história no primeiro nível é empatia cognitiva, a capacidade de entender o que outra pessoa está vivendo a partir da perspectiva e do contexto de vida dela. O que faz com que a gente se envolva com uma história no segundo nível é empatia emocional, a capacidade de sentir as emoções de outra pessoa como se fossem nossas.

Portanto, ao desenvolvermos uma história, nossa preocupação não deve ser simplesmente expressar nossas próprias emoções e as emoções dos personagens. Também é importante que a narrativa crie oportunidades para que as emoções do leitor sejam ativadas. Fundamentalmente, para despertar identificação com um personagem, você precisa fazer o leitor pensar “Eu entendo o que esta pessoa, nestas circunstâncias, pensa e sente”. 

A essência do fazer artístico é permitir que outras pessoas experimentem uma emoção que, até então, existia apenas dentro de nós. A grande habilidade de um bom escritor está na sua capacidade de estimular o leitor – a partir da escolha de anedotas, histórias, temáticas, estilos e técnicas – de forma a recriar dentro dele a necessidade, ou até mesmo urgência, de se explorar uma ideia em mais profundidade.

Tolstoy acreditava que, independentemente do quão poética, realista, elaborada ou interessante uma obra fosse, ela não poderia ser considerada uma obra de arte se não evocasse uma sensação de união entre escritor e leitor. “Uma grande obra de arte destrói, na consciência do receptor, a separação entre ele e o artista. Não apenas isso, mas também a separação entre ele e todas as outras mentes que receberam essa obra de arte. Nessa libertação de nossa personalidade de sua separação e isolamento, nessa união com outras pessoas, está a principal característica e a grande força da arte”. 

Então como podemos criar esse senso de proximidade com o leitor? Usando empatia cognitiva e emocional para despertar identificação com o protagonista, ou seja, permitir que o leitor identifique no personagem algum aspecto de sua própria identidade.

Conheça abaixo 8 formas de criar identificação com o protagonista da sua história.

1. Um desejo ou objetivo nobre ou importante

O que define nosso grau de intimidade com outras pessoas são os desejos e objetivos que temos em comum. Para que o leitor se identifique com seu protagonista, dê para ele um desejo ou objetivo importante ou nobre. Nos importamos com personagens que estão em busca de algo que também valorizamos nas nossas vidas, seja algo concreto (ganhar dinheiro, vencer um campeonato, salvar uma criança) ou abstrato (justiça, amor, reconhecimento).

2. Existe vida além do conflito da história

O desejo ou objetivo do protagonista ganha ainda mais importância quando entendemos seu significado na vida pessoal do personagem. Uma história que apenas mostra o protagonista se dedicando a resolver um conflito, completamente isolado de outros aspectos de sua vida, corre o risco de soar artificial. Pessoas de verdade têm vidas complexas. Dê para seu personagem uma família, amigos, vizinhos, animais de estimação.

3. O lado vulnerável do personagem

Todos nós temos pontos fracos, dificuldades físicas, emocionais e sociais. É isso o que nos torna humanos. Ninguém é perfeito e, por isso, é difícil nos identificarmos com um personagem que só tem qualidades. Além disso, temos uma tendência a simpatizar com pessoas frágeis ou em desvantagem. Saber que um personagem pode se machucar (fisicamente ou emocionalmente) mexe com nosso instinto de proteção. Mostre o lado vulnerável do personagem para torná-lo mais humano aos olhos do leitor.

4. O que está em jogo 

Assistir um jogo amistoso não tem a mesma emoção do que assistir uma final de campeonato. Jogar cartas por simples prazer não exige tanto foco ou envolve tanta ansiedade quanto jogar por dinheiro. Nossas emoções se intensificam quando há algo importante em jogo. O que o protagonista tem a perder na busca de seu desejo? O que acontecerá se ele não conseguir o que quer? Por que isso é importante? Quando o leitor entende o que o personagem tem a perder, ele se envolve mais com a história.

5.  Erros estúpidos e insensatos

Resolver o problema dos outros é bem mais fácil do que resolver os nossos. Sempre temos teorias milagrosas de como ajudar um amigo em dificuldade, mas quando o problema é nosso, muitas vezes não vemos solução. Só aprendemos algo de verdade cometendo nossos próprios erros. Portanto, deixe que seu personagem cometa erros e tome decisões erradas durante a história, ainda que seja óbvio para o leitor que outra decisão seria mais sensata.

6. Vítima de injustiça

Todos nos temos um senso muito forte do que é justo e entendemos o quão frustrante é nos sentirmos injustiçados. Uma forma de criar identificação com seu personagem é colocando eles na posição de vítima. Queremos acreditar que o mundo é justo e que fazer a coisa certa é importante e, portanto, vamos torcer para que um personagem oprimido tenha seu momento de redenção na história e seu opressor pague um preço alto pelo sofrimento que causou.

7. Qualidades e talentos invejáveis

Admiramos pessoas com qualidades e talentos que não temos. Um personagem capaz de fazer algo que gostaríamos de fazer permite que a gente realize certas fantasias através deles. Dê para seu protagonista uma habilidade invejável para provocar no leitor um senso de admiração e respeito pelo personagem.

8. A opinião de outros personagens 

A opinião de outras pessoas tem grande influência na nossa percepção sobre alguém. Para criar identificação com o protagonista da sua história, faça com que outros personagens gostem ou dependam dele. Isso nos dá um senso de que o desejo do protagonista é ainda mais importante, já que é validado por várias pessoas diferentes.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. jennifer 31/07/2014

    Muuuuuito bacana,vc me ajudou muito,precisava bastante saber sobre a história agradeço de montão!!

  2. marcelo 25/03/2017

    ótimo! adorei as dicas to tentando escrever um curta metragem.

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