Aprenda a criar realidades com palavras

Como plantar ideias na mente dos leitores das suas histórias

Por Diego Schutt em 19/07/2010 Tópicos: dicas, escrever, storytelling, técnicas
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Seu grande desafio como escritor é extrair pensamentos da sua mente e transplantá-los para mente de outras pessoas, de forma a fazê-las enxergar a importância e as qualidades que você reconhece nas suas ideias. O filme “A Origem” (“Inception” em inglês) oferece insights sobre como você pode recriar na cabeça dos leitores a mesa excitação que você sente em relação aos universos de ficção que você inventa.

A história foca em um grupo especializado na extração de informações do inconsciente de outras pessoas através da invasão de seus sonhos, quando a mente está em seu estado mais vulnerável. Nesse contexto, tais profissionais são extremamente valiosos no mundo da segurança e espionagem corporativa. Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é o melhor de todos esses profissionais. Ele é contratado por um executivo que, ao invés de extrair informações, deseja colocar uma nova ideia na mente de um de seus competidores. Ele quer que Robert Ficsher, herdeiro de uma empresa do setor de energia, dissolva o império criado pelo seu pai, evitando que a empresa se torne uma superpotência mundial.

Dom Cobb e sua equipe utilizam quatro técnicas para atingir tal objetivo:

  1. A primeira técnica é reduzir a ideia que deve ser plantada na mente de Robert Fisher a sua versão mais simples possível (“Eu vou dissolver o império criado pelo meu pai”).
  2. A segunda técnica é traduzir essa ideia para um conceito emocional, já que o inconsciente – onde a ideia deve ser plantada para crescer de forma imperceptível – é motivado por emoções, não por lógica (“Meu pai deseja que crie algo novo, não apenas siga seus passos e dê continuidade a sua empresa”).
  3. A terceira técnica é arquitetar e construir os cenários dos sonhos de forma a criar um contexto favorável para a adoção da nova ideia, permitindo que a mente receptora povoe esses espaços com conteúdo do seu inconsciente.
  4. A quarta técnica é plantar a ideia o mais próximo possível da camada mais profunda e suscetível da mente, o inconsciente, para que a mente receptora acredite que tal ideia surgiu espontaneamente.

Ler uma história é como sonhar acordado as ideias de um escritor. Só sonhamos quando nossa mente está relaxada. Esse é um dos raros momento em que nossos pensamentos não estão sendo vigiados pela nossa consciência. Mas quando percebemos algo que não faz sentido dentro de um sonho, algo que sentimos estar errado naquele contexto, nossa consciência aciona suas defesas e acordamos. Durante a leitura de um texto, esse acordar acontece quando a voz interna na cabeça do leitor começa a falar mais alto que a voz do narrador que conta a história.

No filme “A Origem”, é responsabilidade do arquiteto dos sonhos a criação de um mundo que passe a sensação de ser real, procurando evitar que a consciência da vítima acione suas defesas. Mas essa sensação de real não significa, necessariamente, similar à realidade. O importante é que o universo onírico faça sentido e se sustente dentro de suas próprias regras. Como escritor, você é um arquiteto de histórias, cuja responsabilidade é criar um universo de ficção que passe a sensação de ser real.

É comum sonharmos com eventos que não fazem sentido, com pessoas conhecidas que têm rostos diferentes, com lugares estranhos que nos parecem familiares, com situações irreais que não nos surpreendem. Isso acontece porque, assim como histórias, sonhos são apenas representações da realidade. Nada é o que é. Pessoas, objetos e situações são símbolos que representam aspectos subjetivos de nossa personalidade.

A validade do conteúdo dos sonhos e das histórias não está no conteúdo em si, mas nas sensações e interpretações pessoais que fazemos dessas experiências mentais.

Existem cinco tipos de experiências mentais:

  • Realidade: a reconstrução mental que fazemos do mundo concreto.
  • Sociabilidade: a forma como interagimos com outras pessoas.
  • Inteligência: as técnicas que usamos para administrar nossa consciência na realidade.
  • Consciência: nosso projeto de personalidade, quem nos esforçamos para ser.
  • Inconsciência: nossa crenças, valores, pensamentos e emoções resultado de nossas experiências, que representam quem somos de fato.

O inconsciente é povoado por pulsões, abstrações e desejos intimamente relacionados aos outros tipos de experiências mentais. Por isso, Dom Cobb e sua equipe decidem criar três cenários de sonhos, cada um para trabalhar a nova ideia a ser implantada na mente de Robert Fisher em um dos níveis de experiência mental (sociabilidade, inteligência, consciência). Dessa forma, eles acreditam que poderão criar um contexto favorável no inconsciente da vítima para que a ideia seja adotada na realidade.

O universo onírico se aproxima bastante do universo das histórias de ficção.

Como escritor, você faz um trabalho semelhante ao do grupo que invade sonhos no filme “A Origem”. Você cria personagens, constrói cenários e desenvolve uma narrativa, criando um contexto favorável para adoção de uma ideia, perspectiva ou visão de mundo que você deseja expressar. Para aplicar as quatro estratégias utilizadas no filme e colocar uma ideia na mente dos seus leitores:

  1. Reduza sua ideia da sua história a sua versão mais simples possível, em uma frase.
  2. Traduza a ideia para um conceito emocional, procurando entender a essência do que você deseja expressar.
  3. Desenvolva cenários que criem um contexto para os leitores interpretarem os eventos da história como você deseja.
  4. Aborde temas que permitam aos leitores pensarem sobre suas próprias vidas.

Quanto mais próximo o conteúdo da narrativa estiver do conteúdo inconsciente da mente dos leitores, mais profundo será seu impacto.

A lógica dos sonhos e das histórias de ficção não é linear e cartesiana. Ela é afetiva, associativa, figurativa, dramática e mitológica. Sonhos e histórias mobilizam aspectos profundos de nossa personalidade e, ainda que esse processo não seja consciente, ele deixa sua marca em nós.

As funções dos sonhos, em essência, são as mesmas das histórias de ficção: simular na mente experiências de enfrentamento, resolução de conflitos e realização de desejos com o objetivo de contrabalançar a racionalidade constante do pensamento verbal com um pensamento sensorial composto de imagens e símbolos.

Clique aquiaqui para ver infográficos (em inglês) que tentam explicar a organização dos sub-enredos do filme.

Assista abaixo ao trailer do filme A Origem.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. adonai 28/12/2010

    muita realidade p/ muitas mentes que estão acostumadas com mestiras!…o filme é simplesmente…!

  2. Luciana Sousa 16/01/2011

    Uma experiência marcante, impressionante, mítica e ricamente elaborada.
    Apresentarei trabalho sobre ele e em breve pretendo publicar artigo a respeito.

  3. Luiz Valério 09/02/2011

    Excelente texto. Criar histórias de ficção é como que alterar a “realidade” na mente dos leitores. Pelo menos momentaneamente eles passam a viver a “realidade” que o escritou cria, vive a vida dos seus personagens, se emociona, chora e luta com ele.

  4. Diego 10/02/2011

    Essa é a ideia que eu quis reforçar com esse texto, Luiz. Quando o leitor decide ler uma história, ele está momentaneamente trocando sua realidade pela realidade que o escritor está propondo. Quando se tem consciência disso, cada palavra, cada frase, cada parágrafo e cada personagem passam a ser precisamente escolhidos para construir essa nova realidade de forma a criar o cenário narrativo ideal para transmitir suas ideias. Obrigado pela leitura!

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