Aprenda a criar realidades com palavras

Como plantar ideias na mente dos leitores das suas histórias.

Por Diego Schutt em 19/07/2010 Tópicos: técnicas
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A Origem (Inception em inglês), filme do diretor Christopher Nolan, conta a história de um grupo especializado na extração de informações do inconsciente alheio através da invasão de sonhos, quando a mente está em seu estado mais vulnerável. Nesse contexto, tais profissionais são extremamente valiosos no mundo da segurança e espionagem corporativa.

Dom Cobb (Leonardo DiCaprio) é o melhor de todos. Ele é contratado por um executivo que, ao invés de extrair informações, deseja colocar uma nova ideia na mente de um de seus competidores. Ele quer que, Robert Ficsher, herdeiro de uma empresa do setor de energia dissolva o império criado pelo seu pai, evitando que a empresa se torne uma superpotência mundial.

O grupo utiliza quatro técnicas para atingir tal objetivo:

  1.  A primeira técnica é reduzir a ideia a sua versão mais simples possível (“eu vou dissolver o império criado pelo meu pai”).
  2. A segunda técnica é traduzir a ideia para um conceito emocional, já que o inconsciente – onde a ideia deverá se desenvolver – é motivado por emoções, não pela lógica (“meu pai deseja que crie algo por minha conta, não apenas siga seus passos e dê continuidade a sua empresa”).
  3. A terceira técnica é arquitetar os cenários dos sonhos de forma a criar um contexto favorável para a adoção da nova ideia, permitindo que a mente receptora povoe os sonhos com conteúdo do seu inconsciente.
  4. A quarta técnica é plantar a ideia o mais próximo possível da camada mais profunda e suscetível da mente, o inconsciente, para que a mente receptora acredite que ela foi gerada e desenvolvida espontaneamente.

Só sonhamos quando nossa mente está relaxada, momento em que ela não está sendo vigiada pela consciência. Quando percebemos algo que não faz sentido dentro de um sonho, algo que sentimos estar errado naquele contexto, nossa consciência aciona suas defesas e acordamos.

No filme A Origem, é responsabilidade do arquiteto dos sonhos a criação de um mundo que passe a sensação de ser real, procurando evitar que a consciência da vítima acione suas defesas. Mas essa sensação de real não significa, necessariamente, similar à realidade. O importante é que o universo onírico faça sentido e se sustente dentro de suas próprias regras.

É comum sonharmos com eventos que não fazem sentido, com pessoas conhecidas que têm rostos diferentes, com lugares estranhos que nos parecem familiares, com situações irreais que não nos surpreendem. Isso acontece porque tudo o que está presente nos sonhos são apenas representações da realidade. Nada é o que é. Pessoas, objetos e situações são símbolos que representam aspectos subjetivos de nossa personalidade.

A validade do conteúdo dos sonhos não está na percepção dos elementos concretos presentes neles, mas nas sensações e interpretações pessoais que fazemos dessas experiências mentais.

Existem cinco tipos de experiências mentais:

Realidade: nossa interpretação do que estamos vivendo.

Sociabilidade: nossos relacionamentos com outros.

Inteligência: técnicas que usamos para administrar nossa consciência na realidade.

Consciência: nosso projeto de personalidade, quem nos esforçamos para ser.

Inconsciência: nossa essência, crenças e valores, quem precisamos ser.

O inconsciente é povoado por pulsões, abstrações e desejos pessoais, intimamente relacionados aos outros tipos de experiências mentais. O grupo, então, decide criar três cenários de sonhos, cada um para trabalhar a ideia em um diferente nível de experiência mental (sociabilidade, inteligência, consciência), de forma que se crie um contexto favorável no inconsciente da vítima para que a ideia seja adotada na realidade.

O universo onírico se aproxima bastante do universo das histórias de ficção.

O escritor faz um trabalho semelhante ao do grupo que invade sonhos no filme A Origem. Ele cria personagens, constrói cenários e desenvolve uma narrativa para criar um contexto favorável para adoção de uma ideia (a mensagem principal, a moral, o significado da história) e provocar certas emoções, pensamentos e sensações em sua audiência.

Para aplicar as 4 estratégias utilizadas no filme para colocar uma ideia na mente dos seus leitores:

  1. Reduza a ideia da sua história a sua versão mais simples possível, em uma frase.
  2. Traduza a ideia para um conceito emocional, procurando entender a essência da mensagem principal a ser transmitida.
  3. Desenvolva cenários que ajudem a reforçar a mensagem e as reações que você deseja provocar nos leitores.
  4. Construa a história de forma a permitir que os leitores relacionem e espelhem suas experiências pessoais.

Quanto mais próximo o conteúdo da narrativa estiver da essência da personalidade dos leitores, de quem eles desejam e precisam ser, mais profundo será seu impacto.

A lógica dos sonhos e das histórias de ficção não é linear e cartesiana. É afetiva, associativa, figurativa, dramática e mitológica. Sonhos e histórias mobilizam aspectos profundos de nossa personalidade e, ainda que esse processo não seja consciente, ele deixa sua marca em nós.

As funções dos sonhos, em essência, são as mesmas das histórias de ficção: simular na mente experiências de enfrentamento, resolução de conflitos e realização de desejos com o objetivo de contrabalançar a racionalidade constante do pensamento verbal com um pensamento sensorial composto de imagens e símbolos.

Clique aquiaqui para ver infográficos (em inglês) que tentam explicar a organização dos sub-enredos do filme.

Assista abaixo ao trailer do filme A Origem.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. adonai 28/12/2010

    muita realidade p/ muitas mentes que estão acostumadas com mestiras!…o filme é simplesmente…!

  2. Luciana Sousa 16/01/2011

    Uma experiência marcante, impressionante, mítica e ricamente elaborada.
    Apresentarei trabalho sobre ele e em breve pretendo publicar artigo a respeito.

  3. Luiz Valério 09/02/2011

    Excelente texto. Criar histórias de ficção é como que alterar a “realidade” na mente dos leitores. Pelo menos momentaneamente eles passam a viver a “realidade” que o escritou cria, vive a vida dos seus personagens, se emociona, chora e luta com ele.

  4. Diego 10/02/2011

    Essa é a ideia que eu quis reforçar com esse texto, Luiz. Quando o leitor decide ler uma história, ele está momentaneamente trocando sua realidade pela realidade que o escritor está propondo. Quando se tem consciência disso, cada palavra, cada frase, cada parágrafo e cada personagem passam a ser precisamente escolhidos para construir essa nova realidade de forma a criar o cenário narrativo ideal para transmitir suas ideias. Obrigado pela leitura!

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